sábado, 21 de Novembro de 2009

Reaprender o Natal

Hoje escrevo para ti, pois quando passeávamos à sombra das decorações de Natal e a tua mãozinha puxava a minha para que visse cada luz, cada coroa, cada árvore, com um entusiasmo comovente eu sorri, gritei, apontei seguindo sem esforço o teu entusiasmo, muito embora nunca tenha vibrado antes com esta época, sempre tenha desdenhado do Pai Natal e nunca tenha tido em casa nada além de suspiros por estar a chegar a quadra natalícia, como se de extermínio se tratasse.
Ontem decidi pela terceira vez na minha vida que gostava do Natal. Não pelos presentes, não pelo consumismo, não pelo bacalhau, pelos sonhos, pelas rabanadas, pelo Bolo Rei, mas por ti meu amor.
Tens-me ensinado tanto ao longo destes quase 4 anos que nem ouso começar a agradecer-te, pois perder-me-ia em tudo, em cada frase, em cada gesto, em cada abraço e eu não quero perder-me, não hoje, não agora que te tenho no lado mais quente de mim.
Sei que vou escrever uma lista para o Pai Natal contigo, que vou deixar-te decorar a árvore sem me preocupar com a estética, que vou abrir as portas para que a tua alegria inunde mais uma vez esta casa e que vou fazer sempre o possível e o impossível para que esse brilho de deleite no teu olhar nunca se perca como o meu se perdeu, pois é através desse olhar que a minha vida ganha todo o sentido do mundo.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Estas Coisas Acontecem... Mas Tantas?


Sim eu sei, isto começa a parecer um muro das lamentações domésticas, mas eu tenho que expurgar a minha raiva algures e que melhor lugar do que este cantinho cheio de olhos prontos a lerem as minhas idiotices caseiras e ainda por cima simpáticos à brava?
Depois de quase dois meses à espera dos famosos puxadores de princesa (como a Alice lhes chamou desde o dia em que os viu) lá fomos buscá-los hoje de mão dada e um brilho enternecedor no olhar da minha filha que liga a estas coisas da decoração.
Chegadas a casa a bricoleira de serviço, que é como quem diz, eu, lá arregaça as mangas e de chave de cruzes em punho e com dores nas cruzes, começa a trocar os puxadores antigos por estas (caras como um raio) borboletas coloridas.
Suada, de joelhos no chão, a fazer o pino, com a língua de fora lá consegui espetar com o borboletame na cómoda. A Alice batia palmas, encantada com aquele novo elemento no seu quarto e eu corada, mas a cantar vitória.
A sensação de euforia durou até começar a meter a pata nas asas, puxar para abrir a gaveta e....... Yupi!!!!! Ficar com as borboletas na mão, partidinhas da silva. Mas que belo material sim senhora, olha que se partiu mais uma, olha e mais outra! É vê-las levantar voo das gavetas a uma velocidade estonteante.
Liguei para a loja e é claro que o velho, milenar, caquético comentário da gaja da loja surgiu:
- É a primeira vez que recebemos uma reclamação e já trabalhamos com essa fábrica há anos...
- Há sempre uma primeira vez para tudo minha querida, vá preparando a massa para me devolver, sim?
Depois lembrei-me da Alice, a um canto, olhos brilhantes mas de tristeza, a frustração estampada no rosto e tentei resolver a coisa com Super Cola 3. Escusado será dizer que estou com as mãos sem qualquer espécie de sensibilidade, nem sei como não fico com o teclado colado nos dedos. À beira de um ataque de nervos, cheia de super cola 3 nas manápulas e a praguejar contra meio mundo, a minha filha diz-me:
- Deixa estar mãe, essas coisas acontecem...
Esta miúda existe?

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Socorro!!!!!!

Aqui a dona de casa inteligente decidiu começar a lavar a roupinha do bebé, mais precisamente, as lãs. E como o meu tempo disponível já não é certamente igual ao que tinha quando estava à espera da Alice, altura em que lavei tudo à mão. Decidi armar-me em boa e inteligente e lavar tudo na máquina. Até aqui tudo bem, a minha máquina tem um programa de lãs que deu conta do recado.
Ai que orgulho doméstico que senti ao tirar todas aquelas peças de lã fofinhas e cheirosas de dentro da máquina, ai como me ri de mim própria por ter lavado tudo à mão no antigamente. E para completar este ciclo de sorte e convencimento vai de enfiar tudo na máquina de secar que também tem um programa para lãs. Ai que lindo. Sim que idílico, se aqui a estúpida, otária, distraída, abécula da Ana não se tivesse enganado no símbolo e no lugar daquele novelozinho de lã vai de carregar num botão que tem um sol desenhado. Um sol de calor, de bafo, de inferno de labaredas!!!!!
Metade da roupa não serve agora a um feto de 5 meses...
Alguém sabe de um truque milagroso que devolva o tamanho original à roupa encolhida até ao tamanho de uma bactéria por uma mãe-parva-que-devia-era-estar-quietinha?

Ando Farta

Ando farta da minha caixa de correio electrónico cheia de alertas de sabonetes que fazem cair a pele, de casos de queimaduras graves depois de se temperar carne com limão e tomar banho na piscina a seguir.
Ando farta dos relatos de assaltos no Cascais-Shopping durante a noite, farta dos novos métodos de burla telefónica. Farta do perigo que certas substâncias presentes em tudo quanto é gel de banho representam para o risco de cancro.
Ando farta da Dona Ermingarda que está muito mal por causa de uns comprimidos que tomou, ou da vacina que levou.
Ando farta das teorias da conspiração de laboratórios farmacêuticos e do Tamiflu, farta das teorias contra a vacina da Gripe A.
Ando farta dos e-mails com correntes de oração, de pedidos, de abaixo assinados que temos que enviar a um milhão de pessoas.
Ando farta dos Power Point Shows com músicas do Senhor e paisagens sublimes.
Ando farta de toda esta informação paralela nunca sujeita a confirmação, mas na qual todos acreditam piamente, como se saíssem directamente da boca de um prémio Nobel da ciência, ou da química.
Ando farta dos dramas e alertas que todos os dias decidem enviar-me. Aliás, ando tão, mas tão farta que já nem sequer os leio. Abro a tampa do caixote do lixo e decido viver apenas com os meus próprios dramas.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Eu Pergunto Apenas: QUE BOSTA É ESTA??????



Hoje fiquei a saber que um conceituado arquitecto, tão conceituado que nem me lembro do nome, a pedido da igreja e ao que parece com os donativos dos crentes, defecou este projecto para a nova igreja de S. Francisco Xavier no Restelo. Chama-se "igreja-Caravela".
Já está em andamento a construção desta Notre Dame portuguesa, desta obra prima de arte sacra, desta ideia de génio de um criador não menos genial.
Os padres calaram e comeram, quem sabe pensando estar perante um milagre da criação, profundo demais para o seu entendimento, os crentes que deram os donativos eram entrevistados atrás das árvores, não querendo dar a cara ao proferirem uma opinião menos bonita, ou quem sabe com vergonha de terem contribuído para tamanho embelezamento da paisagem do Restelo.
Agora eu pergunto:
Para conseguirmos um alvará para fazer uma obra em casa temos que recorrer ao suborno, mas é possível parir um excremento arquitectónico destes impunemente?
Mas que merda é esta no meu horizonte visual? Ainda se fosse a Arca de Noé, pronta a navegar quando o tsunami atingisse Lisboa...

Em Sobrancede das Ratas Nasceu o Menino

Se há coisa que adoro ao ponto de pôr o volume no máximo e os olhos ficarem vidrados no ecrã da televisão, é a ida dos jornalistas ao local onde o suposto criminoso nasceu, sondando vizinhança, comerciantes locais, cães, gatos e tudo o que mexa.
Por isso é claro que não perdi a ida à santa terrinha do Armando Vara, de onde parece que saiu aos 7 anos de idade.
- "Ai era um santo menino, amigo do seu amigo, educadinho, bom filho, nunca se lhe conheceu um inimigo"
Nesta altura já estou a suspirar e a implorar por uma alminha criativa que responda:
- O quê o Armandinho? Desde os 3 anos que engrupia as pessoas. Aos 4 montou um esquema em que limpou as contas bancárias da Dona Ermegilda e do Senhor Emílio dos Caracóis e nunca mais ninguém o viu. Torturava animais, apanhava cães vadios e espetava-lhes palitos nos olhos. Um sem vergonha de um puto. Eu sempre disse que ele ia dar no que deu!
No dia em que um jornalista brilhante for de abalada à Vila de Sobrancede das Ratas, terra natal de um político manhoso e conseguir um testemunho do género, posso seguramente afirmar que o profissional teve o furo de uma vida e eu vejo finalmente realizada uma fantasia :)

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Morte ao Bicho!!!!!!!!!!!

Desde tenra idade, mais precisamente, desde o dia em que ouvi a história da Cigarra e da Formiga que me convenci que esses bichinhos armazenadores compulsivos, trabalhavam no Verão para se recolherem no Inverno cheios de mantimentos.
Mas ao que parece isso só se aplica às pêgas das formigas dos contos de fadas. Porque pela minha zona elas não recolhem, não ibernam, não se resguardam, estou até convencida que não têm casas, aliás, têm sim, a minha cozinha.
Então não é que acordo, olheiruda, rezingona, preguiçosa, penetro na cozinha para fazer a única coisa que me comove pelas manhãs, o café e apercebo-me que a minha bancada está negra e mexe????
E que a caixa dos pastéis de Tentugal que o Hugo trouxe de Coimbra ganhou pés????
O que fazer? Fechar a porta da cozinha, voltar para a cama e repetir até à exaustão que foi um sonho? Ligar o aspirador e sugar as sacanas até não restar nenhuma? Pegar na caixa dos pastéis de Tentugal e tentar salvar pelo menos um? Ou varrê-las com CIF Spray cozinhas seguido de pano molhado?
Pois é, aqui a otária optou pela última e higiénica solução.
A Alice olhou-me de forma estranha quando entrou na cozinha atraída pelo meu praguejar e me observou a exterminar formigas enquanto dizia:
Morram sacanas! Sacanas! Sacanas!
E é assim que uma mãe deita por terra as tentativas de educar o rebento no respeito por todos os animais, já que ela se juntou a mim no extermínio...

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

A Clausura e a Loucura

Doente à vez com a Alice, ora dormi mal de noite porque estava mal disposta, ora dormi mal de noite porque ela estava mal disposta.
Ora punha eu o termómetro, ora punha nela o termómetro.
Ora era eu que tomava ben-u-ron, ora era ela que tomava anti piréticos.
No meio de tudo isto e feitas as contas, estamos há quase duas semanas de molho, que é como quem diz piréticas, pirulas, à beira da loucura caseira.
Por isso hoje decidi que era dia de sair. Quis lá saber da chuva, das três lâmpadas que se fundiram quase em simultâneo cá em casa, da camisa branca que saiu azul da máquina, da noite de ontem em que só preguei olho às 3 da matina.
Eu quis lá saber da loiça empilhada no lava loiças, ou das mil e uma coisas que se podem sempre fazer numa casa, porque hoje a tarde seria nossa, das convalescentes.
A seguir ao almoço damos um giro. E pronto sentámo-nos para almoçar, vestidinhas, maravilhosas, quando a meio do almoço a Alice começa a queixar-se de má disposição e depois de passar algum tempo a ignorar os lamentos dela, costumeiros quando não quer comer mais, ela estende-me os braços enfia-se no meu colo e vomita-me toda.
Até chegar ao lava-loiças da cozinha conseguiu vomitar-me o cabelo, o pescoço, a camisa e a cozinha inteira.
Parece que afinal a clausura não se rompeu hoje.
Quem diz que os filhos não são a maior e a mais inexorável mudança da nossa vida, não sabe o que diz. Quem diz que os filhos não viram a nossa vida ao contrário, a abanam bem abanada e nos deixam tantas vezes sem fôlego à procura daqueles dias em que podíamos simplesmente descansar, também não sabe o que diz.
Eu entretanto já não sei o que faço, só sei que estou cansada ah e amo muito a minha filha.

Farta Até à Ponta dos Cabelos

Esta história da vacina da Gripe A anda a irritar-me de uma forma que não consigo pôr em palavras.
A princípio desdenhei de quem tinha medo dela. Pois então ai que Deus olha a Gripe Porca! E depois quando vem a salvação: Ai que Deus olha a Vácine que nos mata!
Ri-me do pânico gerado em torno de uma simples vacina e foi de peito cheio que entrei no consultório da minha médica e lhe perguntei:
Então como é que é mulher, vacino-me e tiro esta nuvem negra da gripe de cima da minha cabeça? (Esta parte bastante ficcionada como calculam)
- Vamos ter calma Ana, ainda não recebi nenhuma directiva nesse sentido, blá, blá.
Tudo bem, a Ana teve calma e aguardou a próxima consulta, na qual me foi pedida paciência novamente, que para já não e que tal e coisa.
E a Ana teve paciência, até porque a filha não foi para a escola e a nossa vida recatada não dava aso a grandes contágios.
Depois adoecemos as duas (não foi gripe) e chamámos uma médica a casa. Na lata o Hugo perguntou-lhe: Doutora vai-se vacinar contra a porca?
E com um tom misterioso, quase de secretismo a mulher murmura:
Nós médicos não nos vacinamos. Tememos os efeitos do preparado da vacina a longo prazo no sistema neurológico.
Ora bem, sistema neurológico tenho eu em frangalhos e não foi preciso vacinar-me para ficar nesse estado.
Depois descubro que há toda uma estirpe de médicos e funcionários na área da saúde que não se querem vacinar, que temem a coisa, mas que nada dizem publicamente, é tudo pelos corredores, pela porta do cavalo, em sussurros.
E o povo que fique neste limbo, nesta indecisão, neste marasmo de vacina, não vacina.
É claro que na dúvida, principalmente uma grávida, se conduz um pouco pelo conselho médico, mas quando eles não se definem o que é que uma mulher faz?
Dá um murro na mesa, dá um murro em qualquer coisa que se parta, ou dá um murro noutro sítio qualquer?

domingo, 15 de Novembro de 2009

1 Ano e 3 Dias de Vontade

Parece que dia 12 de Novembro este blogue fez um ano. Lembro-me que começou como um desabafo escrito para a minha filha e hoje é qualquer coisa que não consigo definir bem, se é que tem algum interesse definir um blogue.
Venho aqui quase todos os dias despejar um bocadinho de mim e confesso que se tornou um hábito, daqueles bem saudáveis do qual já não abro mão.
Continuo a falar para a Alice, pois em muitos sentidos é a pessoa com quem mais me apetece falar para o futuro, é aquela que não me julga, que se limita a beber cada palavra que digo com um interesse comovente. Mas falo também para mim e para quem quer que tenha pachorra para ler estas baboseiras que vou acumulando por estas bandas.
Aqui ficam os dois primeiros posts que escrevi quando decidi entrar neste estranho mas acolhedor mundo dos blogues.

Hoje olhaste para mim com aquele olhar que me diz tudo e não precisámos de falar. Limitaste-te a sorrir. Soube que nos tinhamos entendido na perfeição, que tinhamos alcançado aquele ponto perfeito em que as palavras são mera perda de tempo.
Por algum motivo me sinto tão bem perto de ti Alice.


Porque é que assim que nos libertamos de algo, fica sempre o vazio, a saudade daquilo que não vai voltar. Quando te tinha aqui dentro desejava ter-te cá fora, agora que estás aqui comigo, sinto muitas vezes vontade que regresses para dentro de mim.
O que será que nos leva a desejar sempre o que está no avesso de tudo?

sábado, 14 de Novembro de 2009

Ódios Pessoais Mortais e Intransmissíveis


Tenho uma relação Amor / Ódio com as panelas, as colheres de pau, os recipientes de cozinha, enfim com quase tudo o que implique cozinhar.
Digo amor/ódio pois se tenho dias em que não me importo de enfiar a mão na massa, outros tenho em que dispensava perfeitamente essa tarefa e em que dava tudo para ter uma cozinheira que me mimasse e me trouxesse a comida à mesa.
Confesso que não há nenhum objecto em particular que odeie com todas as minhas forças, tirando esta praga, esta coisa que alguém tem que reinventar urgentemente:
O PAPEL ADERENTE.
Sempre que recorro a esta película de tortura acabo eu própria embrulhada nele. Nunca consigo cortá-lo a direito, a serrilha que vem com o pacote nunca me serve de nada, se tenho as mãos um bocadinho molhadas aquilo já não adere a ponta de um corno, tirando a aderência à minha própria pele e acabo sempre por gastar um quilómetro daquilo quando só precisava de um metro. Odeio papel aderente!!!!!!!!!
Como devem calcular fiz uma quiche e quis guardar o resto no frigorífico. Acabei por ter uma discussão violenta comigo própria e a tarte foi coberta por um prato.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

As Anas

Anas há muitas sim senhora, mas geralmente Ana nunca é um nome solitário.
Temos Ana Filipa, Ana Luísa, Ana Paula, Ana Rita, Ana Carla, Ana Sofia, Ana Tancreda, Ana Panceta, Ana Vainessa, Ana Carina, Ana Catarina, Ana Cristina, Ana Carolina, Ana Passarinha.
Pois bem contra todas as expectativas possíveis eu sou Ana. Ana só, Ana apenas, Ana e mais nada. No meu nome só há um nome próprio e acho que chega. Nunca quis ter mais nenhum a seguir, nem antes. Até porque acabamos sempre por deixar morrer um deles.
Toda a vida ouvi a pergunta:
Ana, mas Ana quê?
Ana só.
AnaSó?
Sou só Ana!
Ahhh que estranho.
Estranho porquê?

Dou-te a Minha Palavra de Honra

Se me perguntarem qual a qualidade que mais sinto falta numa pessoa eu teria que dizer que sinto saudades da palavra.
Não me refiro ao poder da oratória, nem aos adjectivos pomposos, mas à palavra de honra.
Como uma árvore sólida e centenária que assistiu a guerras, em cujo tronco se gravaram mensagens, à sombra da qual se abrigaram dezenas de corpos fatigados. É exactamente assim que gosto de sentir alguém.
Antigamente a chamada palavra de honra era o bastante para se firmarem acordos, para se erigirem votos de confiança. Hoje em dia esfumou-se em pó, banalizou-se ao ponto de não passar de uma ladainha. É preciso colocar por escrito, assinar, reconhecer em notário, jurar um milhão de vezes e ainda assim não é suficiente para que nos creiam, para que confiem no que nos limitamos a dizer.
O nosso nome deixou de valer o que valia, talvez porque não nos empenhemos em construir uma boa imagem em seu redor, talvez porque o esforço de dizer e cumprir seja demasiado numa época em que o mais fácil é dizer e fugir ao que se disse. Fingir que se esqueceu o prometido é a regra em praticamente toda a gente. Errar e não assumir o erro é também uma faceta que me leva à loucura, mas é assim mesmo que estamos. Nesta espécie de limbo de valores em que já nada se exige além do mínimo.
Não sei. Sei apenas que gostaria de passar aos meus filhos esta coisa estúpida e um pouco alucinada de fazerem de tudo para que a sua palavra seja sempre de honra.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Somos Tão Merdosos

Nós somos tão, mas tão merdosos que até nas formas de gamar dinheiro somos foleiros. Para se enriquecer em Portugal não é preciso um grande esforço intelectual, não é preciso planear o roubo do século, não é preciso pensar na burla mais inteligente do universo, não é preciso puxar por mais do que um neurónio ao mesmo tempo. É apenas necessário ser político.
É verdade, somos merdosos até a gamar. Usamos sempre o mesmo e infalível método do ladrão dos favorezinhos, sem estilo, sem grandiosidade, sem carisma, sem graça, que é como quem diz, o método chunga-que-se-farta.
É que já começa a ser aborrecido ver as notícias. Para quando um Ronald Biggs da política que enfie um capuz na carola e de armas em punho roube logo tudo o que houver a roubar em 14 minutos? Sempre animava um bocadinho o panorama nacional.
Que seca. Ah e já agora podiamos ter uns linchamentos públicos, ou umas condenações só para eu parar de bocejar, sim?

Onde Esfregam Vocês o Vosso Couro?

Eu sempre quis fazer esta pergunta a quem me soubesse responder. Mais concretamente às mulheres cabeleireiro-dependentes. Aquelas que não lavam cabelos em casa. Aquelas que preferem ficar 15 dias sem mostrar o poder do champô ao couro cabeludo a lavar o cabelo com as próprias mãos. Aquelas que com medo de parecerem ratazanas saídas do esgoto, optam por deixar crescer aranhas e ácaros livremente no interior dos fios capilares enquanto o salão fechou para obras.
É que outro dia estava uma senhora dessas à minha frente num self-service qualquer. Sim, a senhora já tinha uma certa idade e a laca estava num estado de decomposição tal que mais parecia super cola 3 a L'Oreal. Sim, a senhora devia mostrar água ao cabelo uma vez por mês e devia ser daquelas que quando faz a marcação no seu cabeleireiro, as funcionárias até se benzem, mas como ela haverá certamente mulheres mais jovens a fazerem da ida ao cabeleireiro um ritual obsessivo, sem o qual não vivem, sem o qual não lavam, não purificam, não tiram o pó e o óleo ao escalpe.
Por favor senhoras porquê? Porquê lavar o cabelo só e apenas nos salões da especialidade? Juro que me faz uma confusão, ou melhor, uma comichão piolhosa do caraças.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

A Segunda Maternidade

A minha mão fria na tua testa, a tua mão a ferver dentro da minha. O teu corpo quente sobre a minha barriga inchada, enquanto caminho de um lado ao outro do quarto tentando cantar-te coisas sem nexo que não ganham vida através da voz.
Um banho tépido para que arrefeças pela madrugada, enquanto os teus pais, quais companheiros de batalha, se revezam de joelhos para te molharem a febre embora.
Copos com água que sorves com a palhinha que te fui buscar à cozinha, a cozinha onde o único som é o dos ponteiros do relógio que me dizem que é tarde.
A minha própria tosse é abafada para não te despertar do ligeiro sono em que caíste e eu relego-me para segundo plano. O teu pai adormece finalmente e eu olho-te, dando tudo para trocar de lugar contigo. Depois um pequeno movimento dentro de mim, como se tivesse estado à espera que parasse para se revelar. E lembro-me.
Lembro-me que além da vida toda que prossegue ele também continua aqui dentro e com menos de metade da atenção que prestava à sua irmã.
Digo-lhe: Vá, companheiro, agora a mãe vai fechar um bocadinho os olhos. E é tudo.
A segunda gravidez é vivida de uma forma assustadoramente diferente da primeira, sem sombra de dúvida. Ultimamente os meus momentos a dois são uma espécie de dois minutos por dia. O suficiente para lhe dizer que estou aqui apesar de tudo.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O Purézinho no Pratinho é Baratinho e Fofinho

Não vos mexe um bocadinho com os nervos aquelas pessoas que falam temperando cada palavra com o seu diminutivo?
- Vai ter que usar a caixinha multibanco lá fora, o nosso sistemazinho está fora de serviço.
- Ó como é que se chama esta pequenina? E quantos aninhos tem esta carinha lindinha? - Sendo que a resposta da Alice é sempre a fuga.
- Temos bifinho com batatinha ah e também temos um menuzinho infantil.
Ora bem para quê dizer-me que é um bifinho? A mim, logo a mim que nunca me apetece bifinhos, mas sim a vaca inteira. Logo aí perdem uma potencial cliente e das boas.
Porquê falar por diminutivos? Suponho que seja um vício como outro qualquer... Mas um vício chato, muito chato.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Para o Meu Marido

Estive o fim de semana de cama e destes dois dias de tosse, má disposição, suores frios, dores de garganta consegui filtrar uma coisa fundamental:
O meu marido está lá quando é preciso.
Bem sei que ele pensa que nunca é preciso, que eu me aguento sempre a qualquer bronca. Mesmo quando lhe ligo em gemidos moribundos, o Hugo acha sempre que eu dou conta do recado com a Alice pequena em casa e eu sem conseguir levantar a cabeça. Bem sei que quando veio a correr na sexta feira à tarde ao perceber que era sério, entrou no quarto e me viu deitada, deitou-se perto de mim para me abraçar e... Adormeceu.
Bem sei que por muito que eu tussa de noite ele só acorda com um valente encontrão e um grito de socorro, mas assim que acorda levanta-se com um salto e coloca-se em posição de Kung-Fu pronto a atender qualquer pedido meu.
Bem sei que ele não me lê os pensamentos, mas quando lhe peço com todas as sílabas, ele atende-me sempre.
Bem sei que muitas vezes peço demais e acho sempre que ele faz de menos, mas este fim de semana não, o Hugo fez exactamente o que eu precisava, nem demais, nem de menos e eu lembrei-me daquela manhã na maternidade, depois da nossa filha ter nascido. Eu sem conseguir mexer-me muito bem depois da cesariana, a tomar banho, tentando chegar a todo o lado e ele de joelhos no chão da casa de banho a ajudar-me a lavar os pés.
Sei que por muitos anos que passem nunca esquecerei esse gesto, tal como sei que por muita erosão do tempo que o nosso casamento possa sofrer, o Hugo vai estar sempre aqui quando for preciso.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Mamas Para Que Te Quero

Alguém que me atire um lenço para limpar as lágrimas por favor. Realmente as manhãs em casa dão um novo sabor à vida.
Então não é que no programa matinal da Sic está a passar em rodapé a seguinte mensagem:
ESTAMOS A OFERECER UM IMPLANTE MAMÁRIO!!!
E entrevistado pela Rita Ferro Rodrigues e por um incomodado não-me-lembro-do-nome, mas-fazia-o-levanta-te-e-ri, um cirurgião plástico de camisa desapertada até ao umbigo, corrente de prata grossura máxima e cruz à escala real fala de mamas.
Isto é muito bom, como é que tenho andado a perder pérola atrás de pérola matinal?
Agora vou ver o do Manuel Luís Troucha para comparar e verificar se supera o da Sic, mas duvido. O da RTP é que é puxar demais pelo meu frágil organismo, ranchos folclóricos a esta hora da matina é estar a pedir uma indigestão auditiva.
Eu pasmo com a coragem/inconsciência das pessoas que se sujeitam a estas merdas. A rapariga que vai ganhar o implante deve estar mesmo desesperada, provavelmente vai deixar gravar a coisa em directo e tudo para publicitar o cirurgião com look pimba.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Comichão Em Andamento

O que é que vocês costumam fazer quando vão em plena auto-estrada a mais ou menos 150quilómetros por hora e são acometidos por uma comichão na palma do pé direito?
Começa por ser perfeitamente suportável, até nos rimos da suportabilidade da coisa e depois adensa-se e imaginamos que temos uma aranha dentro do sapato que nos dá ferroadas venenosas até à gangrena.
A comichão é tanta, mas tanta que tentam em vão dar pontapés rápidos no chão do carro, regressando logo com o pé ao acelerador para não levarem com um pesado em cima, mas de nada adianta, pois a única coisa que acalmaria o prurido seriam garras afiadas a coçar até fazer sangue. Começamos a entrar em pânico e a comichão piora. Finalmente avistamos a bomba de gasolina no horizonte e gritamos Aleluia! Guinamos o volante na direcção daquele oásis protector e assim que penetramos no recinto de abastecimento, quase fazendo um peão na travagem, lançamos mão ao téne (ahahahah) e... Ficamos presas no processo. A barriga coloca-se no caminho da elasticidade perdida. Abrimos a porta da viatura, deitamos o chulé de fora e coçamos, coçamos, coçamos, coçamos até pequenos gemidos de prazer brotarem dos nossos lábios aliviados.
E pronto, como se já não bastasse tudo o que me acontece quando estou no trânsito (mais concretamente no trânsito intestinal) agora também tenho comichão na sola do pé. Haja paciência para mim!

Tão Perto Tão Longe



Foi inaugurado às pressas (antes das autárquicas) um novo parque bem pertinho da minha casa. Só não parece que estou na Escócia, pois para me debruçar sobre a paisagem esverdeada tenho que passar por um milhão e meio de degraus.
Seria certamente um local onde gostaria de levar o baby António a passear para respirar ar puro, mas nada posso fazer contra tantos degraus, superfícies de cascalho e mais escadas.
Agora digam-me senhores que inventam estas coisas, é sadismo?
É que imaginemos que chega ali, pronto para respirar a paisagem avassaladora, um deficiente motor. Fica a vê-la por um binóculo? Se é essa a ideia porque é que não vi nenhum instrumento de longo alcance visual?

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Aos Vencedores da Vida

Porque tenho dias em que me apetece falar a sério para variar, em que olho algumas pessoas bem cá debaixo onde me encontro e as admiro em silêncio, porque vejo vidas tão mais complicadas que a minha e não me apetece queixar-me mais das azias, ou da casa desarrumada.
Porque tenho dias em que me levo menos a sério do que levo os outros e em que a minha vida se ilumina de gratidão.
Porque tenho dias em que só me apetece dizer a quem merece que merece tudo.
Porque tenho dias em que as minhas pequenas lutas são poeira quando comparadas a outras grandes batalhas envoltas no mais denso nevoeiro.
Porque tenho dias em que simplesmente me reduzo àquilo que sou e percebo que a felicidade me visita quase diariamente.
Porque tenho dias em que a minha vida me basta.
Hoje apetece-me falar dos outros para variar, de toda a gente que deu a volta por cima quando tudo parecia enterrado no mais fundo de si, de toda a gente que encara as contrariedades com um sorriso nos lábios e o peito erguido de coragem, de toda a gente que não se queixa quando tinha todos os motivos para o fazer de minuto a minuto, de toda a gente que esteve lá, naquele lugar escuro e sombrio, cheio dos fantasmas sem resposta, cheio de tudo o que nos faz temer e saiu.
Queria dizer que vos admiro e que um dia, se também eu estiver nesse lugar, me lembrarei sempre que vocês estiveram lá e venceram.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Por Favor Não me Mordas o Pescoço

Depois da saga Dan Brown à qual sucederam milhentos livros dentro do estilo "olha a pista misteriosa, quem quer símbolos por decifrar fresquinhos, olha o Codex Stravinsky!!!!!" até ao infinito da paciência de qualquer comprador de livros, seguiu-se a saga Marley e Eu com triliões de livros acerca de cãezinhos, gatinhos, papagaios, doninhas fedorentas de estimação, hamsters fofinhos e o que fosse preciso para tentar copiar o êxito desse primeiro livro.
E quando nada fazia prever outra dose de vomitado literário compulsivo, surgem os vampiros.
O Crepúsculo e o seu herói lindo, bonzinho e charmoso que só trinca animais selvagens originou uma epidemia de vampiragem livresca. De modos que agora quando vou passear para a Fnac, já sei que nos escaparates vou encontrar títulos como Sangue Fresco, Morde Aqui que Já Vens Tarde, Fazer Amor com Vampiros não Dói, Um amor Sanguinário (como poderão verificar só um título não é produto da minha imaginação). Já sei que a vaga de falta de originalidade tomou conta dos editores mais uma vez e só me resta esperar até à próxima grande ideia...
Eu pecadora me confesso, li o Crepúsculo e todos os livros seguintes e em momento algum consegui tirar do meu coração palpitações adolescentes por aquele vampirinho deslavado e sem mácula. Eu gosto deles mais à séria, maus como as casas e descontrolados. Ou então é preciso muito mais do que um vampiro para me fazer suspirar de paixão...

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O Miguel, a Melissa e a Ana C



Pois é, sob o pretexto de falarmos da história do nosso outro blogue os autores combinaram um encontro no Magnólia em Lisboa.
Domingo de manhã sem filhos, sem grandes compromissos além de desbobinarem palavras três pessoas juntaram-se finalmente na vida real.
Sempre tive um certo pé atrás com esta coisa de conhecermos o rosto por detrás das letras que admiramos, sempre achei que um estranho silêncio seria a nota dominante, dando lugar a uma grande decepção entre o virtual e o real, mas nada disso aconteceu. Gostei muito de conhecer o Miguel e tenho a certeza que a Melissa sentiu a mesma empatia que eu.
Dizem que muitas vezes aquilo que se escreve é apenas a parte boa que queremos mostrar aos outros, mas eu quero acreditar que muito daquilo que escrevemos comporta uma percentagem do que somos.
Aproveitámos cada migalha do Brunch por 8 Euros, demos certamente prejuízo ao café, mas quem nos ouvisse falar de histórias sobrenaturais, reais, imaginárias, cemitérios, viagens, família, deve ter seguramente pensado que naquela mesa redonda estavam três velhos amigos...

sábado, 31 de Outubro de 2009

As Mulheres e a Bola

Penso que não há coisa mais ridícula do que assistir a um daqueles programas eruditos sobre futebol em que se sentam todos à volta de uma mesa, doutores, engenheiros, jornalistas a discutirem o cerne da bola, as contratações, os jogadores em campo, a estratégia de jogo, com a importância dada a comentadores políticos que argumentam sobre o estado da nação.
Mas quando pensei que nada me dava mais nos nervos do que estas dissertações infindáveis sobre o esférico, dou-me conta que há apenas uma coisita que me irrita ainda mais: As mulheres que falam de futebol.
Logo a mim é que isto tinha que suceder, eu que odeio mulheres machistas neste aspecto em particular transformei-me numa.
No último jogo da selecção enquanto ouvia uma senhora a fazer o relato do jogo e a gritar:
"Este foi de calcanhar" "E vai ser Canto" "Fora de jogo" a coisa bateu-me com força. Mas que raio é que esta gaja está aqui a fazer?! Os relatos da bola são com voz grossa! Isto é estranho demais, vai-te embora mulher, sai daí que não gosto de te ouvir! Xô daqui que me desconcentras!
E pronto para grande vergonha minha descobri que sou machista. As mulheres não deviam fazer relatos em directo a gritar: Gooooooooooooooooooooooooooooolo!

A Inocência é o Melhor do Mundo

Desde cedo que tento explicar à Alice que não se fica embasbacado a olhar de cada vez que alguém um bocadinho diferente passa por nós. É claro que não posso pedir que ela se transforme numa espécie de Nova Iorquina capaz de passar com uma indiferença desconcertante por uma mulher nua a cantar o fado em plena avenida, mas dentro das nossas limitações de gente comum, ela já aprendeu que não fica de queixo caído embasbacada de cada vez que alguém com uma deficiência passa.
No entanto com apenas 3 anos é natural que de vez em quando se esqueça. Por isso outro dia quando estavamos numa loja e uma senhora de cadeira de rodas motorizada passou por nós, os olhinhos dela ficaram como se diz em bico. Completamente vidrada naquela viajante de motor, seguiu-a com o olhar durante minutos a fio.
Finalmente caiu em si e olhando-me como se tivesse cometido uma grande asneira sorri e disfarça falando muito alto para que a senhora a escutasse:
- Ó mãe que carrinho tão giro, gostava tanto de ter um, compras-me?
Emendou a mão da melhor maneira que conseguiu, eu não faria melhor, mas que pode ter passado por humor negro infantil, lá isso pode...

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Mais uma Pérola da Minha Condição

Porque é que eu não consigo espirrar só uma vez, discreta e suavemente, como quem suspira?
Porque é que nesta época de pandemia em que tudo se alarma quando o tipo atrás de si na fila do supermercado desata a tossir e a espirrar sem se dar ao trabalho de enfiar a cara no sovaco, eu tinha que ter ataques de 16 espirros seguidos?
Mesmo que o faça para a dobra do braço, ou para a sovaqueira perfumada, não há como impedir os olhares esgazeados na minha direcção.
Às vezes basta o cheiro do perfume Patcholi de alguém a passar por mim para desencadear a avalanche incontrolável de espirros.
E o pior, o mais grave, o mais humilhante, não, não vou dizer, não posso dizer...
Está bem eu digo, perdida por 100, perdida por 1000 e quem já esteve, ou está de esperanças (ai que belo) vai entender.
O pior é que neste estado de graça gestacional, se estiver bem aflitinha para ir à casa de banho, o que acontece mais ou menos de meia em meia hora, corro o sério risco de por cada espirro que dou, libertar um pingo da minha vontade natural. Ou seja, se der 20 espirros, já não vou precisar de ir a correr para a casa de banho...

* Acho que me estou a tornar especialista em auto-humilhação pública, mas quando tudo o resto falha, não há como nos rirmos de nós próprios para animar o dia :)

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Ataque de Fome de Azeitonas

Depois de consumir um frasco inteiro de azeitonas Oliveira da Serra sem caroço dou graças a Deus por amanhã não ser dia de fazer análises, pois certamente, em vez de me detectar uma infecção urinária, ou coisa que o valha, apareceria nos resultados do laboratório:
Azeite biológico de baixa acidez Gourmet (que eu só urino Gourmet).
Com que cara é que eu mostrava isto à minha médica?

Quiseste agora Aguenta!

Quando estava longe de pensar em ser mãe defendia com unhas e dentes a ideia de que o pai não tinha nada que assistir ao parto se não o desejasse.
Nos tempos em que era uma grandessíssima liberal e jamais me passaria pela cabeça forçar o homem a nada, muito menos a ver-me de perna aberta e a fazer força até rebentar as entranhas.
Também não me passava pela cabeça deixar de ir ao cinema com um namorado ver um filme de acção e pontapés no traseiro, pois no amor cabia tudo. Desde a tolerância sem limites, ao verdadeiro faz e deixa fazer.
Acontece que as coisas mudaram um bocadinho (ahahaha) e desde que fomos pais, o que um faz pelo e para o filho o outro também deve fazer. Acho que se chama democracia familiar. Esse conceito vago e abstracto ainda para tantos seres do sexo masculino, mas tão nítido para mim.
Faz-lhe impressão? Que pena então e a mim não fará?
Tem pânico de sangue! Ah e se eu tiver, como é que me desenrasco?
Não gosta de me ver sofrer! Então não tivesse insistido para termos mais filhos.
E pronto, estou assim, tanto quero a democracia que lentamente me transformo numa ditadora :)

* O Hugo não disse nenhuma destas frases feitas que mencionei acima, mas ando a sentir que se quer esquivar do acontecimento. Só que eu já preparei a epidural para lhe dar e tenho uma maca reservada ao lado da minha. Riso maquievélico.

Ser Mãe é... Abrir as Pernas?

Sei que vou usar frases feitas, lugares comuns e tudo o que já se ouviu mil vezes a propósito do caso da menina russa Alexandra que foi entregue a uma tipa abusadora e alcoólica com a única justificação de ter sido ela quem abriu as pernas para a fazer e para a parir.
Nada como fundamentar uma decisão judicial nestes critérios imutáveis e do princípio do mundo, tão antigos como os calhaus com milhões de anos:
Pariu, logo, é mãe.
Seria realmente maravilhoso que todas as parideiras biológicas defendessem, criassem, educassem, dessem amor às crianças que puseram no mundo, mas tristemente, muitas vezes cabe ao estado defendê-las dos próprios progenitores, quem as deveria guardar e proteger em primeira instância.
A palavra mãe pode sem dúvida definir o melhor e o pior que existe num ser humano. Uma mãe pode ser responsável por uma pessoa feliz e realizada, ou por uma pessoa triste a traumatizada para o resto da vida.
Por essa razão, quando cabe aos tribunais decidir na encruzilhada, nas situações limite, não pode ser esta palavra a definir tudo, como se dizer que é mãe, que deu à luz, fosse atestado bastante para entregar uma vida inocente nas suas mãos.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A Primeira Roupa


Não há nada como mexermos na roupa do bebé que ainda não conhecemos, para nos sentirmos mais próximos desse pequenino ser que aí vem.
Imaginamos como em breve aquele pedacinho de tecido minúsculo vai estar cheio de um corpinho quente e cheiroso. Esquecemos até a parte do chorão, pensando apenas como é bom ter aquele bocadinho de nós enroscado nos nossos braços.
Andava a precisar de me sentir assim, por isso hoje fui em busca da primeira roupa do António (às vezes este nome soa-me tão adulto).
A Alice teve direito a cueiro e golinhas de princesa. Uma primeira roupa digna de capa de revista. Afinal de contas não é todos os dias que se vê o mundo pela primeira vez. Há que estar vestido à altura do acontecimento.
Mas desta vez e certamente por ser um rapaz, não sinto vontade de nada disso.
Fiquei-me numa solução de compromisso.
E pronto hoje sinto-me com vontade de encher isto tudo de roupinhas de bebé e ceder ao melaço que sinto no meu coração, mas não quero deixar ninguém diabético, por isso fica apenas uma fotografia e agora reparo que este é o 500º post deste blogue, nem de propósito :)

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Tudo a Nu

Eu já sabia que nos dias que correm não podemos passear calmamente pelo Shopping, seja ele qual for, sem sermos abordados por agressivos vendedores de crédito, pedintes para todo e qualquer tipo de instituição de apoio a uma vítima qualquer (que me perdoem as sérias), mulheres que nos ordenam que lhes mostremos as mãos para verem as nossas cutículas.
Eu já estava habituada a estes filmes, já tinha inclusivamente as minhas armas secretas anti-abordagem. Mas o que fazer quando uma inesperada realidade surge? Daquelas ideias de génio que nos entram pelos olhos esbugalhados adentro sem pedirem permissão?
Quando eu pensei que nada ultrapassaria a moda de arranjar as unhacas dentro de quiosques em pleno shopping, atirando com as peles mortas e restos de unha na rebarbadora para cima dos passeantes incautos, eis que surge uma ainda mais brilhante invenção:
Arranjar a sobrancelha em público!!! Não é com pinça, é com uma espécie de linha que se vai enrolando no pêlo e arrancando o mal pela raiz. E elas ali ficam, impávidas face aos olhares alheios que as exploram curiosos, como macacos no circo.
Para quando a depilação à brasileira (não confundir com a feijoada à brasileira, que essa até nem me importava) em público, bem no meio do recinto comercial para qualquer um poder assistir ao vivo a a cores ao arrancar forçado e de pernil aberto do pêlo púbico? De que é que estão à espera mentes brilhantes do negócio?

Fúria Compulsiva

Ando numa estranha fúria de deitar coisas fora. Há quem lhe chame preparar o ninho, há quem lhe chame loucura, há quem lhe chame taradice-maníaco-compulsiva-agravada.
A realidade é que já devo ter dado coisas suficientes para fazer uma pequena aldeia algures no Sudão.
Hoje vou dar uma secretária, uma cama, um baú, uma televisão antiga, a mesa onde ela estava, edredons, cobertores, almofadas.
Alguém me agarre por favor, pois corro o risco de regressar a casa um dia destes e não ter nada além das paredes.
De cada vez que esvazio uma prateleira de inutilidades sinto-me mais leve. Isto não pode ser normal. Onde é que eu estava com a cabeça quando decidi guardar tantas almofadas? Bem sei que andei meses em busca da almofada perfeita, mas se nenhuma me agradava porquê guardá-la?!!!
Talvez isto possa ser explicado com uma vida passada, ou não indo tão longe, num passado recente, pois ainda me lembro que na véspera de ir para o hospital ter a Alice tinha trolhas no quarto a terminarem uma obra e jurei para mim mesma que jamais me deixaria apanhar novamente nas malhas da procrastinação.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Divagações

Às vezes penso que a doença torna as pessoas mais sensíveis em relação aos outros.
Quem nunca esteve doente não sabe entender quem sofre de uma maleita qualquer. Pode até dizer: "Coitadinho imagino o que estás a passar", pode até fazer um grande esforço por se colocar na pele do outro, mas não sabe, não imagina, não supõe sequer.
Há experiências que unem de forma invisível quem por elas passou, numa espécie de irmandade muda, onde basta um olhar para se sentirem compreendidos uns pelos outros.
Os restantes que nunca passaram por isso, nunca vão entender.
Um médico que nunca esteve numa cama de hospital, que nunca dependeu de ninguém para sobreviver, nunca entenderá a 100% o seu doente.
Isto são apenas coisas que me passam pela cabeça, numa certeza quase indesmentível. Quem sofreu alguma vez um grande desgosto, ou equacionou de verdade a vida e a morte entenderá muito melhor quem agora passa pelo mesmo, disso estou certa.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Pois é, Parece Que...

Parece que desapareceram faixas de rodagem na Capital para darem lugar a ciclovias.
Parece que em estradas movimentadas, engarrafadas, infernais roubaram uns bons metros de largura para que os nossos milhares de ciclistas, tal como em Amesterdão, pudessem invadir os quilómetros sem fim de ciclovia limpinha e pronta a pedalar.
Parece que se impunha isto, que temos a tradição da bicicleta em vez do carro, que na cidade das sete colinas não há de facto melhor meio de transporte que o pedal.
Parece que temos que ser mais europeus, mais civilizados, mais abicicletados, por isso toca de tirar espaço aos carros que não existem em Lisboa e dar esse lugar, não aos peões com carrinhos de bebé, ou deficientes motores que tantas vezes têm que andar de perfil, pelo meio da estrada, entre merda de cão e crateras terrestres abertas na calçada com meio metro de largura. Peões? Quem são os peões de Lisboa? Malta estúpida, inconsciente, que chega ao seu destino coxa, estropiada, ou com menos 10 quilos pela aventura empreendida.
Sim é de facto bom poder pedalar à beira rio, ou como aqui em Cascais, à beira mar, sem o perigo de levar com um carro em cima. Mas também seria espectacular se pudéssemos andar a pé com prazer, sem corrermos risco de incapacidade física permanente.
*Não sei porquê, mas tenho quase a certeza que só à pala das ciclovias o nosso António Costa angariou uns belos votos de malta jovem e europeia, acabadinha de se recensear...

sábado, 24 de Outubro de 2009

É Oficial

Quando pensava que o episódio das cuecas gigantes era o ponto alto da humilhação semanal de uma grávida, hoje parada na fila do Continente, abro a boca num dos meus milhentos bocejos diários, daqueles que não pedem ordem para chegar, tal a frequência com que me consomem e em vez de sair aquele gemidozinho de sono próprio de um bocejo como deve ser, sai-me um arroto. Completamente involuntário, mas sonoro, bem de dentro de mim, ecoando assustadoramente à minha volta.
Os olhares (imaginários, ou não) cortaram-me ao meio e senti-me a verdadeira mulher das cavernas.
É oficial, a partir de hoje sei que de cada vez que bocejo também posso arrotar sem querer. Digam lá que uma grávida não é de facto um ser fascinante na sua multiplicidade de funções?
Estou toda rota. Às vezes pergunto-me como é que o Hugo ainda vê algum encanto em mim...

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

A Vontade de Regresso

E agora digam-me lá o que é que faz uma mulher grávida que envia um exemplar do seu livro para as mãos de uma amiga que não vê há milhares de anos, mais concretamente, para a Holanda e recebe esta resposta?
Chora claro está, chora tanto que tem que ir buscar uma esfregona e um balde para não molhar as meias novas da timberland.

Viajar Perder Países Ser Outro Constantemente

Joaníssima da Silva depois de me englobar no pacote das "Minhas Anas" pediu-me que falasse acerca das 3 viagens de sonho feitas e por fazer.
Aqui tenho um grande problema, pois 3 é pouco. É pouco para fechar numa gaveta as que fiz e pouco para colocar no meu desejo as que farei. Mas vou tentar.
- A viagem que fiz a Itália com a Rita e a Diana. Milão, Roma, Florença e Veneza. Fomos as 3 numa espécie de despedida da vida de solteiras, ainda que não soubéssemos que assim era. Desde essa viagem que cada uma acabou por seguir o seu rumo adulto, mas as melhores memórias não foram embora. Os cigarros fumados a seguir ao jantar numa tranquila ponte em Veneza (nenhuma de nós fumava já, mas abrimos excepção), as conversas sobre amores desejados, os cafés caríssimos das esplanadas nas praças principais. Quando me lembro desta viagem, lembro-me que vivi.
- A primeira vez que conheci os Estados Unidos num misto emocionante de filme e de reencontro com um país que já conhecia pelos livros e pelo cinema.
- A nossa Lua de Mel por representar o começo de tudo. Praga com a sua vida, a sua música, as suas cores. Salzburgo como a terra que viu Mozart nascer e que nos abrigou de mão dada a acertarmos o passo um pelo outro.

As 3 viagens que sempre desejei fazer e que estou certa farei um dia mais tarde:
- Chile e aqui admito pela Isabel Allende :)
- Nova Zelândia por ser nos antípodas, por significar que conheci o outro lado do mundo.
- Escócia. Esta terá que ser a nossa próxima incursão. Por todo o misticismo inerente e por sempre ter sonhado pernoitar num castelo assombrado.

Gostava muito de saber sobre as viagens imaginárias e reais da Raquel, do Miguel e da Melissa. Por isso considerem-se desafiados.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Cuecas Para que Vos Quero

Apesar de não ser mulher de fio dental, nem de cinto de ligas, no qual possa colocar sensualmente um punhal, ou pequeno revolver, também não gosto de ceroulas até aos sovacos, cuecas com a Hello Kitty, ou roupa interior gasta e sem elásticos.
Tenho a minha vaidade, ainda que sem grande exagero. Gosto de estar digamos que apresentável. Por isso ontem fui com a Alice procurar cuecas de grávida, pois as minhas já cortavam a circulação de sangue em certas partes do meu corpo. Escolhemos as duas o que me pareceu um modelito sóbrio, neutro, tamanho médio. Não dava para abrir a embalagem, por isso deduzi que andasse no M.
Chegadas a casa a minha filha decidiu tirar as peças sensuais da embalagem e enfiar aquilo na cabeça, qual saco de batatas com furos. Rimo-nos a bom rir com o tamanho exagerado da coisa até às lágrimas.
Ahahahah isso não me vai servir Alice, vamos levar para o supermercado e encher de compras, boa?
Risos e mais risos.
Apenas e só por descargo de consciência decido experimentar aquela caricatura de cueca e eis se não quando o pior acontece. O terror se apodera do meu ser com todas as forças. O pesadelo torna-se realidade. Aquilo serviu-me.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Frases das Fases

Vou criar uma lista com as frases mais ouvidas durante as várias fases da minha existência. São tantas que vai ser complicado reunir as mais emblemáticas. Mas para ficar desde já um registo, decidi deixar aqui algumas para ajudar na futura compilação.
Fase de celibato: Então e namorado?
Fase de namoro: Então para quando o casamento?
Fase pós casamento/Fase do coito: E filhos?
Fase primeira gravidez: Uma hora curta.
Fase pós parto (nem deixam uma pessoa recuperar das dores): Então e quando é que vem um maninho?
Fase desta gravidez (esta é talvez a mais proferida de todas. Tão usada que já sei até quando vai saltar da boca de alguém e antecipo-me): Ó que bonito, um casalinho.

Só me Apetece é Ganir

A minha sina de grávida é repetir análises, fazer contra-provas, pesar-me em balanças avariadas e sentir-me velha e cansada.
Com a Alice tinha sucedido o mesmo, repetir a chatice da análise do açúcar numa tortuosa espera de 3 horas, ao longo das quais terei que remover do interior das minhas queridas veias 4 doses de sangue. Ou seja, tirar sangue, beber xaropada de açúcar, esperar uma hora, voltar a tirar sangue, esperar mais uma hora, voltar a tirar o dito e, ai que giro, esperar outra hora e voltar a tirar mais uma litrada. Yupi! Há lá coisa melhor? Ah e no meio de tudo isto não posso mexer-me muito, pois altera os valores da coisa e claro, além do xarope de açúcar, nada mais repousará no meu estômago carente.
Portanto amanhã lá estarei eu munida de um livro que não será de vampiros sanguinários, pois a minha força psíquica tem limites, a praguejar contra o facto de os homens não poderem ficar grávidos também e a rezar para que não esteja com diabetes gestacional. Logo eu que nem sequer ligo a doces, que troco com a maior das facilidades um doce de ovos por um bom bife...

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Saramaga Aqui e Depois Ali

Então e porque é que eu não gosto do Saramago?
Podia construir um discurso intelectual, pretenciosamente polido e criticar-lhe o estilo de escrita que me entorpece os sentidos até ao estado catatónico.
Podia simplesmente assumir a minha grandessíssima tacanhice de espírito e (que se lixe) dizer que nunca consegui acabar um livro dele.
Podia limitar-me a ficar calada como fazem muitos, porque não se diz que um Prémio Nobel nos faz dormir até a produção de baba nos afogar. O Prémio reveste-os de uma espécie de escudo invisível que os torna inatacáveis por nós não-membros da Academia e leigos em matéria de Prémios sejam eles Nobel, Pulitzer, Camões, ou Kinder Surpresa.
Mas eu sou um grande pedregulho e posso dizer mal dos Grandes com a ingenuidade dos parvos. Até me posso dar ao luxo de dizer que não gosto do Saramago-homem-além-do-escritor. Tenho medo dele, parece-me sempre o papão desterrado numa ilha vulcânica negra como breu, antipático, arrogante e a cagar sentenças biblícas do alto de um estranho pedestal.
Depois os verdadeiros comunas, pelo menos como eu os vejo, são malta simples, genuina, sem peneiras, tal e qual o Jerónimo Sousa. E ele não é assim, dá mau nome ao partido e acho isso um bocado indecente para os camaradas...
Perguntam-me vocês: Mas tu estás estúpida Ana? O que é que importa quem escreve, o que realmente interessa é como escreve. Pois, só que temos um pequeno-grande problema, como deu para perceber em cima, ele não me cativa por lado nenhum...
Resta-me dizer-vos que quando estive na Suécia e a pedido de um fã saramaguiano, corremos metade de Estocolmo em busca de um livro dele escrito em sueco (sim, há malucos para tudo) e ninguém, nenhum ser vivo funcionário de livraria sabia de quem se tratava. E esta hein?

Desanimada

Tenho dias em que sinto que queria ter mais força, em que tudo à minha volta se esfuma de cada vez que me disponho a agarrar os meus desejos.
Dias em que tudo se transforma numa névoa indistinta, em que sinto que não serei capaz de ser uma boa mãe para dois, uma boa mulher para um, uma boa pessoa para mim e ainda assim prosseguir os meus sonhos.
Dias em que me sinto perdida no meio das tarefas cumpridas e por cumprir e em que não sobra nada do que queria ser.
Tenho dias em que o mais puro dos pânicos toma conta de mim e me pergunto em que raio estava eu a pensar quando decidi embarcar de novo nesta aventura maternal para a vida inteira.
Depois olho as fotografias dela, acaricio-lhe a bochecha suave, vejo as ecografias dele. Penso que não dormi um minuto de noite, ora com azia, ora com vontade de ir à casa de banho, ora com falta de posição, ora com tudo às voltas na cabeça e sei que a culpa é do meu próprio corpo cansado que se agarra impiedosamente ao meu ânimo. Amanhã será um novo dia.