

Ontem, ao reler um livro escrito à mão que oferecemos ao pai, repleto de fotografias, chamado "A Nossa História", percebi que não há forma mais incrível do que perpetuarmos o que quer que seja através da escrita. Podem ser emoções, sentimentos, perdas, ganhos, sensações, declarações de amor, sopros passageiros de inspiração.
Ler à distância de alguns anos aquilo que se sentiu bem lá atrás provoca-me sempre uma comoção bem funda e muita vontade de resgatar a pureza de alguns sentimentos cá para a frente.
A escrita tem esse dom, de nos transportar, de nos elevar, de nos fazer sentir tudo de novo.
Por isso decidi que vos vou escrever mais vezes a ti, ao teu irmão e ao teu pai. Talvez num blogue apenas nosso, talvez em documentos que vou imprimindo, talvez em qualquer lugar, pois o lugar não importa. Importa apenas que fique.
Quero que fiquem sempre em mim e eu em vocês da forma que melhor sei dizer as coisas. Desejo um dia poder transportar-vos no colo deste amor imenso que vos tenho e que nem sempre digo da melhor maneira do mundo, desejo que saibam sempre aquilo que muitas vezes não consigo pôr na voz e quem sabe conseguir que regressem a este lugar seguro guardado pelas palavras.
Hoje entrei no quarto que será do teu irmão e passei a mão sobre cada figura que me ajudaste a colar com tanto entusiasmo. Não consegui dizer-te o que senti, mas irei escrever-te certamente sobre este mistério de já amarmos alguém que nunca vimos.
Ontem, enquanto desenhavas ao meu lado sobre a mesa desarrumada amei-te por tudo o que serás um dia e ainda nem sei quem serás um dia.
Hoje ao dizer adeus ao teu pai de manhã senti um medo terrível de o perder e não sei bem porquê.
Tudo isto quero dizer-vos todos os dias, tudo isto vos escreverei algures, num lugar que fique.