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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

E Assim Acontece


Era vizinho do meu avô. Quando saiu um livrinho insignificante chamado A Vontade de Regresso, o meu avô sem nunca ter olhado para uma página do livro, foi com um exemplar ao seu estimado vizinho e passou-lhe para as mãos aquela capa com um quadro do Modigliani. Pediu-lhe apenas que lesse.
Passados uns dias chamavam-me para esse mítico programa Assim Acontece e lá fui eu, completamente idiotizada e sem palavras para uma entrevista sobre coisa nenhuma, porque sou muito mais despachada a escrever do que a falar.
Quando no final daquela conversa tirada a ferros lhe perguntei se me tinha chamado por ser conhecido do meu avô, respondeu-me que nada disso, que me tinha chamado pelo livro. Pousou-me uma mão sobre o ombro, enquanto nos encaminhámos para fora daquele minúsculo estúdio e deu-me os parabéns por ser uma jovem escritora. Eu dei-lhe os parabéns por aquele programa de sempre.
E senti-me grande, demasiado grande para aquilo que na realidade era. Uma jovem frustrada estudante de Direito, tímida e sem tiradas profundas.
Hoje quando soube da morte dele fiquei mais triste do que poderia supor, tal como fiquei estupidamente vazia quando aquele programa que nos acompanhava desde sempre terminou. Não que o visse religiosamente, não porque o achasse um programa acima da média, mas porque me confortava saber que um programa assim acontecia todos os dias.