Nas fotografias tudo é perfeito.
Elas mostram apenas aquele cagagésimo de segundo de felicidade e congelam-na, para podermos recordá-la vezes sem conta.
O sorriso pode ter sido rasgado apenas para a objectiva. Pode até ter surgido uma discussão violenta, um choro, uma birra, uma expressão zangada, um bufar de impaciência, logo após o disparo do botão. Elas não mostram o cansaço, o silêncio incomodado, nem o calor que se fazia sentir. Elas não mostram nada do que vai por dentro. Mas o que ficou foi aquele sorriso, naquele lugar bom e assim a vida parece uma sucessão de momentos perfeitos. Assim apetece até acreditar que é possível.
É claro que não falo das fotografias que revelam o lado negro da vida, das fotografias de jornalistas que nos impressionam, comovem,incomodam. Falo das nossas fotografias, daquelas que escolhemos, ou não partilhar. Daquelas que fazem a nossa vida parecer magnífica aos olhos dos outros.
Ando farta da obrigação de fotografar tudo.
Bem sei que imortalizar a felicidade em pequenos frames, é das coisas mais mágicas que possuímos, mas é uma prisão tremenda.
Quero ver pelos meus olhos. Descansar da obrigatoriedade de imortalizar tudo e todos.
Quero viajar sem máquinas, só com a máquina da minha memória.
Sei que jamais cumprirei este objectivo, porque me sinto culpada quando não fotografo, mas é um ideal que vai tomando forma no meu interior cansado das obrigações do mundo.
Morreu Carlos Ruiz Záfon
Há 19 horas























