
Há medida que os anos vão passando no meu calendário, as minhas exigências e prioridades em relação àquilo que importa, vão girando e mudando de posição, como uma roda gigante, daquelas onde conseguimos avistar a cidade inteira quando estamos lá em cima, ou apenas o chão de cimento, quando ficamos em baixo.
Se no princípio de tudo, eu queria sempre a vista inteira da cidade. Desejava tudo de alguém. Desde as flores, aos beijos, aos poemas, à filosofia, às tiradas excepcionais, ao romantismo irrepreensível (daqueles que vimos nas comédias românticas), ao gosto pela mesma música. A pessoa que seria a minha metade, teria que me encher de tudo a todas as horas e minutos, pois eu não merecia menos. Hoje, aos-mais-para-os-quarenta-do-que-para-os-trinta, são muito mais as vezes em que aprecio a firmeza do chão de cimento, às tonturas da vista lá de cima.
Hoje sei que não é possível tudo, todos os dias e a todas as horas e que exigir isso de alguém, em modo permanente, é uma espécie pontapé em nós próprios. É pedir o fracasso.
Entendermos que podemos estar bem, sem termos que ter tudo a cada instante, é uma prova de que conseguimos largar um bocadinho do pêlo feminino que nos cobre a pele, e que nos foi incutido desde cedo pelos contos das princesas beijadas, que viveram felizes para sempre com o seu príncipe perfeito e imaculado.
As relações têm mácula e aceitarmos a possibilidade das nódoas, da falibilidade alheia, é meio caminho andado para vivermos livres das ânsias femininas que nos consomem.
É que isto de ser mulher, não confunde só os homens. Muitas vezes põe-nos doentes.
*Frase ouvida na entrevista do MST, ao Dani Oliveira.









































