quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Na memória

Deve ser fodido morrermos. Principalmente quando temos tanta coisa por fazer. E é incrível como nos surgem sempre tantas coisas por fazer, quando a possibilidade concreta da morte nos chega sob a forma de um exame e da voz distante de um médico.
Queria mostrar a mim própria que sou capaz de fazer duas mãos cheias de coisas, que até podem nem parecer grande coisa, mas que são imensas para mim. Queria continuar a viajar e a sentir que o meu mundo é tão incrivelmente irrelevante, quando comparado ao mundo dos outros, que nos são diferentes. Queria continuar a perder-me na descoberta de outras culturas, pois é a melhor forma que conheço de me perder. Queria continuar a escutar o ruído da minha cidade, a chuva no rosto e o vento na cara, enquanto pedalo a toda a velocidade no meio do trânsito. Correr, meu Deus, que saudades de correr e calçar sapatos confortáveis e escolher uma roupa bonita. Queria continuar a comer aquela pizza fininha e calórica, naquele restaurante meio seboso que adoro, sem imaginar a gordura processada a alimentar-me o cancro. Queria continuar a pintar as unhas, a tomar duche a horas despropositadas, beber imperiais geladas, sem ter que lidar com sintomas secundários. Queria continuar a ler livros e a sentir o gosto do café acabado de fazer. São as coisas em que ninguém repara que me dói mais ter que perder. E depois temos as coisas mais importantes. Dessas não falo. Sonho-as apenas, como um sentimento que magoa por nunca nos ter acontecido.
As coisas importantes, como o amor, nunca me aconteceram de verdade. E isso. O amor, ou a falta dele, é o que me custa mais.
Estou agarrada à esperança de vir a ser amada e isso pode muito. A esperança do amor é bem capaz de me dar alento ao corpo, para que lute contra os agressores, para que não desista já. Não enquanto não tiver conhecido aquilo de que falam os outros.
É um tremendo lugar comum, bem sei. Mas é nos lugares comuns que reside o que verdadeiramente importa, quando lidamos com isto do cancro.

14 comentários:

Ana. disse...

Oh, god, Love, Love, Love!
;)

macaca grava-por-cima disse...

arrepio bem grande. texto exepcionalmente belo e duro

Naná disse...

Há textos que são intemporais, que nunca perdem a sua essência!

Este é certamente um deles!

Mariah disse...

Lembro-me tão bem deste texto.

Ana C. disse...

Queridas meninas, estas palavras, apesar de serem inspiradas em alguém muito especial, são de alguém nada de especial, são minhas.
Tenho um texto muito longo, onde faço bastantes reflexões sobre este tema e arranquei este bocadinho de lá...

Mariana disse...

É o texto para a contracapa? :)

Melissinha disse...

:D Agora também estava confusa :D

Palavras especiais de malta especial sobre malta especial. E das quais muita gente se vai lembrar um dia, também.

Mariah disse...

Confundi com um post da Silvina em que falava no amor.

Ana. disse...

Não concordo nada que as palavras venham de alguém nada especial... aliás, estás prestes a levar um par de estalos só por isso!
:)

PS - Podias ir pondo mais bocadinhos da Luisa, sempre abrias o apetite à malta!!

Dica para a malta: O texto muito longo de que a Cê fala é TODO assim!

Ana C. disse...

Aninhas, a sério, isto é todo um outro texto que acabou por ficar de fora, mas que foi o começo de tudo...

Ana. disse...

De certeza que não li excertos deste texto? Uma frase ou outra, pelo menos? É que me é muito familiar... Talvez seja o tom da história...

Soneca disse...

Também eu associei imediatamente este texto à Rita...

Portuguese Girl With American Dreams disse...

Lindo texto:)

Helen Berry disse...

"Queria continuar a pintar as unhas, a tomar duche a horas despropositadas, beber imperiais geladas, sem ter que lidar com sintomas secundários. Queria continuar a ler livros e a sentir o gosto do café acabado de fazer. São as coisas em que ninguém repara que me dói mais ter que perder." :)