segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Adopções Falhadas

Abre-se sempre uma racha no meu coração quando leio, ou vejo reportagens sobre este tema.
Não sou ninguém para atirar pedras, mas a realidade é que tenho vontade de atirar um saco cheio de pedras à cabeça de quem se acha capaz de empreender esta missão de vida e depois, com a maior ligeireza deste mundo, quando confrontado com os reais problemas que uma criança "marcada" traz consigo, recua e devolve o produto defeituoso.
Eu sei que não seria capaz de ter um cão. Não tenho tempo, não tenho paciência, não tenho espírito, por isso jamais me ocorreria "fazer a experiência" e trazer um cachorrinho para casa. Se não desse, devolvia, sem crise.
Talvez por ter um sentido de responsabilidade quase obsessivo, sei que não seria capaz, por isso remeto-me ao meu próprio egoísmo, sem magoar ninguém.
Falando de pequenas-grandes pessoas, que carregam mágoas grandes demais para a sua idade, a minha paralisia adensa-se. ´
Se adoptasse uma criança de coração cansado. Uma criança rejeitada pelos próprios pais. Se decidisse adoptar uma criança e dar-lhe a minha família. Aceitá-la como parte de mim e dos meus, teria que ser sem rede de segurança. Plenamente, como aceitei os meus próprios filhos, quando vi os seus pequenos corações pulsantes na primeira ecografia e deixei o meu amor por eles crescer, com todas as virtudes e defeitos.
Demasiado exigente? Sim, claro, mas falamos de pessoas, não é? Por isso não sei se seria capaz, por isso jamais arriscaria errar. Jamais arriscaria magoar ainda mais uma criança ferida. Não conseguiria viver comigo própria se falhasse e se tivesse que explicar a uma menina, ou menino, que teriam que regressar a uma instituição, que também esta família não a queria. Eu própria ficaria marcada para sempre e consumir-me-ia eternamente pela culpa.
Vai daí, esta pessoa que escreve meia dúzia de alarvidades por semana, neste espaço parvinho, não seria capaz de assumir esse compromisso.
Vai daí, esta pessoa que tem sacos de pedras para muito poucas situações, consegue encher um saco de pedregulhos para situações assim.
Admiro imensamente, de braços abertos e olhos comovidos, as famílias que recebem crianças e as tornam suas, dando-lhes um lar e o calor de uma família que nunca conheceram. Uma parcela de mim odeia-se por saber que não teria os tomates necessários.
Sou fã das pessoas que adoptam plenamente e que não colocam sequer a hipótese (tal como não o fazem para os filhos biológicos) de devolverem uma criança, porque se dá mal com o cão, porque tem más notas, porque se porta muito mal e é traumatizada e dá muito trabalho curar-lhe as feridas.
Cresçam, senhores. Cresçam e reduzam-se às vossas incapacidades. Preencham carências com outras actividades lúdicas, pode ser?

*A reportagem em questão é esta.

16 comentários:

Naná disse...

Cê, tinha um post no pensamento sobre isso mesmo! Ontem vi a reportagem e fiquei à beira da revolta e da indignição...

_ba_ disse...

Ontem quando vi aquilo sinceramente também pensei nisto de se comprar um cão que é muito giro e tal e tal mas, depois quando chegam as férias, toca de abandonar o bicho ...mal comparando pois uma pesssoa é uma pessoa acho inacreditável ter uma criança connosco 5 meses e depois "devolvê-la" como se um par de sapatos se tratasse porque não é tão inteligente como queríamos ou teve 3 negativas ...daí a Alexandra Borges ter perguntado se devolveria um filho biológico por isso. Acho que só não devolvem os biológicos porque não sabem onde fazê-lo senão também o fariam ...uma criança que toda a vida cria expectativas, que vê outras sairem e terem uma família passar por isso e depois ser devolvida??? Nem quero pensar no que sentem, nas "mossas" que lhe causaram e determinaraão o seu futuro ...achei triste, muito triste e tal como ouvi ontem também eu digo ao meu filho todos os dias que tem muita sorte pois tem uma família que o ama e amará para toda a vida e que estará cá para ele aconteça o que acontecer pois isso é que é realmente importante :-)

Administrator disse...

Não sei de que reportagem falas? Onde passou? Será que a encontro online...
A mim também me doem esses casos... mas tenho mais reservas quanto aos pedregulhos.
Está a fazer um ano que recebemos o nosso filho, então com quatro anos e nunca passou pela nossa cabeça a hipótese da devolução, caso as coisas corressem mal. Correram muito bem, por sinal. O nosso filho quis-nos tanto como nós o quisemos e isso ajudou. Mas e se ele não nos quisesse? E se a rejeição partisse dele?
O meu maior medo era o de vir a sentir que estava obrigar alguém a ficar comigo como não, sem que o quisesse...
Gina

Melissinha disse...

Gina, a rejeição que parte duma criança quebrada vem da insegurança e da falta de auto-estima. Quebra-se com amor. Amor é luta e sofrimento também.
Eu sempre tive vontade de fazer uma adoção tardia, mas confesso que, vendo esses casos, esmoreci.

Cláudia disse...

Por acaso não vi a reportagem mas estou de acordo com cada uma das palavras que escreveu.
Sempre achei que não teria estofo para tomar uma decisão dessas (embora as razões se tenham modificado à medida que a vida me foi pondo à frente verdades nem sempre óbvias) mas seria incapaz de não acarcar com todas as consequências; senti-me muito identificada com estas palavras até em relação aos animais, quantas vezes já não repeti idênticas razões. Sou de tudo ou nada e quando aceito é para ser tudo; feliz ou infelizmente sei bem o que é aguentar até limites ditos inadmissíveis para a maior parte das pessoas que apenas têm conhecimento de uma pequena parte das consequências inesperadas de uma decisão que, apesar de tudo, não consigo considerar errada.

Me disse...

Eu vi a reportagem e por tudo o que escreveste custou-me horrores.

E, sensibilizou-me ainda mais, por "conhecer" as pessoas que apareceram naquela reportagem (a instituição focada devia ganhar todos os prémios na área na educação e apoio a crianças - e o Sr. Vidal que a criou, devia ser hoje homenageado como nunca foi em vida) e saber o quão dedicadas são...

Com estes seres que são verdadeiramente inconscientes (tenho vontade de lhes chamar bestas, que tenho, mas não o farei) a dedicação e amor de anos, são literalmente jogados fora.

Ana C. disse...

Eu nada sei da adopção, é certo. Nunca vivi na pele a experiência, pelos motivos que expliquei. Mas uma criança rejeitada, que viva numa instituição e que sinta que não merece ser amada, porque nunca teve o amor dos pais (sim, as instituições tentam suprir, mas nunca é a mesma coisa), nunca, mas nunca há-de ser uma criança "fácil".
Por outro lado, se existem crianças dóceis, que só querem amor, também há as que não sabem amar, porque nunca foram amadas.
Chegar ao seu coração amachucado deve ser uma tarefa desgastante, sim. Ganhar a confiança, quando a única coisa que ela conheceu foi rejeição e sensação de que não foi suficientemente importante para a mãe não a abandonar, não é tarefa para fracos de espírito. Mas não acredito que estejam perdidas para sempre. Quem se dispõe a adoptar, tem que estar ciente de tudo isto. Tem mesmo. Não é coisa para imaturos, nem fracos de espírito.

Ana C. disse...

Vou tentar encontrar o link da reportagem e colocar no post.

Administrator disse...

Melissinha
Houve realmente uma altura em que o meu filho me rejeitou. doeu, mas não tanto como eu imaginava antes do conhecer. porque eu sabia a razão da rejeição. felizmente, durou pouco tempo. foi um teste e eu passei :)

Vou ver a reportagem.

Gina

Administrator disse...

O link dá apenas para a apresentação da reportagem, mas dá para ter uma ideia geral.
Vou tentar apanhá-la na TVI 24.
Estou chocada com a desenvoltura da senhora que devolveu o menino por ele não querer estudar, não ter projecto de vida (?) como ela disse, e fê-lo sem sequer lhe explicar nada,friamente.
Como é possível?!?!

Gina

margarida disse...

Eu não vi a reportagem mas por acaso um dos programas do Querido Mudei a Casa que vi no Natal foi numa instituição onde estavam crianças "devolvidas" depois da adopção. Na altura fiquei incrédula. Juro que só me dá vontade de chorar. Então não se demora eternidades até uma criança ser adoptada? E não é para ver se a família e a criança criam laços e "se funciona"?
E depois? Pega-se na criança e diz-se agora ficas aqui, já não te quero. A sério, tem que haver qualquer coisa de psicopata nisto. Quem faz uma coisa destas só pensa em si e está-se a lixar para o mundo. Revolta-me.

Manuela Palma disse...

Para a Ana C. : a reportagem está incompleta. Poderia, por favor, colocar o link com a mesma, completa?
Para a Margarida: A instituição que apareceu no programa "Querido mudei a casa", edição de Natal e Ano Novo é a mesma da reportagem das adopções falhadas.

Ana C. disse...

Eu gostava de ter encontrado a reportagem completa, mas não encontrei. Talvez daqui a alguns dias já esteja disponível. É provavel que repitam na Tvi 24.

AvoGI disse...

Infelizmente adoptar um acriança é como adoptar um animal para algumas pessoas com a diferença aque um animal abandonam na rua longe de casa, a criança devolvem.
kis .=(
deve ser "in" adoptar uma criança

Dulce disse...

Sem comentários...

PatLour disse...
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