quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A perfeição é sobrevalorizada

Leio muitas coisas por aí.
Casais que estão juntos há uma eternidade de anos e que dão conselhos sobre relações duradouras, como se existisse alguma fórmula mágica para tal.
Casais que estão juntos há poucos meses e que dizem que é para sempre, sendo que já o disseram de todas as outras vezes que estiveram noutras relações eternas.
Leio pessoas que fazem críticas a livros de outras pessoas e que constroem teorias sobre o que é um bom, ou um mau livro, fazendo da sua opinião alguma espécie de dogma universal.
Leio pessoas que constroem frases magníficas sobre a pobreza da escrita alheia e que tecem a sua arte crítica sobre palavras dos outros, com pomposidade ligeiramente nauseante.
Leio pessoas que são pagas para escrever para os outros e o fazem num tom de diário íntimo que apenas elas entendem.
Leio sobre prodígios da maternidade e paternidade que não entendem como é possível existirem pessoas que não desejam um rancho de filhos.
Leio sobre pessoas que empreendem algo e o prosseguem até ao fim, sem percalços, nem desvios.
Leio sobre prodígios de tudo e mais alguma coisa e sinto-me tão pouco prodigiosa em tantas coisas, que me afundo numa estúpida melancolia de ser assim.
Se existem pessoas que os leem e deles retiram consolo, ou prazer, não terão esses livros, criticados pela fina nata, algum mérito, por levarem as pessoas a ler?
Se existem casais juntos há milhares de anos, terão eles mais mérito do que os casais que entenderam não ser capazes de prosseguir? Serão estes mais falhados, por não possuírem as receitas milagrosas para um amor eterno?
Se existem pessoas que não desejam filhos e que os não têm, ignorando qualquer espécie de pressão social, não serão essas pessoas mais honestas, do que aquelas que os têm sem qualquer tipo de desejo pessoal, mas apenas para prosseguirem tradição?
Se existem pessoas que desejam apenas um filho, terão elas que trazer ao mundo outro rebento, apenas para que o filho nascido não fique órfão de irmão, como se um filho único fosse alguma espécie de aberração da natureza?
Este mundo tão pleno de perfeição, ditada por alguém que não conheço, mas que parece tudo comandar, maça-me e deixa-me neurótica e eu tenho uma aprofundada panóplia de problemas com os meus estados neuróticos, pois, geralmente, levam-me a comer pratadas de Cerelac ao pequeno-almoço e também isso é negado pelos parâmetros da deusa da da salubridade feminina, seja lá essa puta quem for.

8 comentários:

Maggie disse...

Tens toda a razão Ana, hoje todos se acham no direito de dizer sem pensar se estão a ofender ou a entrar na intimidade do outro, hoje todos se acham gurus de uma coisa qualquer, são ridiculos. Eu cada vez tenho mais duvidas e poucas certezas, e não será isto a maturidade? começar a aceitar mais e a questionar menos as opções dos outros?

Bjos

Maggie

Naná disse...

E a náusea, senhores, a náusea que isso causa?!

Para minha grande alegria, acho que estou a ficar progressivamente vacinada contra tanta baboseira escrita sobre quem e o que é perfeito... tenho um mecanismo que me impede de continuar a ler ou mesmo sequer a começar...

gralha disse...

Sim.

Mas deixa-os lá, as pessoas precisam imenso de certezas. Temos é de deixá-las a rebolar alegremente nas suas certezas e não lhes dar importância (um dia chego lá).

Ana. disse...

Eu tomei alguas dessas opções de vida que a maior parte das pessoas não entende e já me senti olhada de soslaio variadíssimas vezes, até pela família, que me devia conhecer bem e saber que sempre consegui pensar pela minha cabeça e decidir de acordo com a minha vontade. Como tenho a sorte de ter comigo um homem muito parecido e que me entende como ninguém, cago monumentalmente para o que os outros pensam!
Mas concordo com a gralha, quando diz que as pessoas precisam de certezas e de sentir que estão mais corretas que os outros, mesmo quando estão positivamente dormentes por dentro.

Melissinha disse...

Também chegará o dia em que me regerei pelos meus próprios parâmetros, sem deixar que a malta dos dogmas me irrite. Mas ainda irritam e, ocasionalmente, levam-me ao leite condensado (cada vez menos).

dona da mota disse...

"levam-me a comer pratadas de Cerelac ao pequeno-almoço e também isso é negado pelos parâmetros da deusa da da salubridade feminina, seja lá essa puta quem for" Ahahahahaahah
Falavas de ti ou de mim?

Ana C. disse...

A Melissa, há uns dias atrás, mostrou-se bastante revoltada por um artigo escrito acerca de filhos únicos e como eles eram um suposto problema a combater. Eu nunca tinha pensado nisto até me aperceber que, de facto, são encarados como uma espécie perigosa. Ontem deu uma reportagem sobre os espécimes e tudo, na Tvi...
Ora, por favor. Há cruzadas bem mais importantes a prosseguir.

Sandra disse...

A facilidade com que se criticam e achincalham pessoas que não conhecem de lado algum, extremistas das suas opiniões, é abismal pelas redes sociais fora. Porque decidiram emigrar, aceitar trabalhar no McDonalds, escrever desabafos numa crónica sobre a maternidade, todos têm algo a dizer! Mesmo sem um conhecimento profundo do contexto ou pior, sem a compreensão correcta do que se leu, viu ou ouviu...custa-me a crer no que leio, palavra de honra. Demasiado, ofensivo e insensível. É assustador.