segunda-feira, 17 de junho de 2013

Do nós ao Eu

Nos últimos 3 anos e 4 meses temos sido dois.
Dois em absolutamente tudo; nas idas ao médico com a irmã, nas idas ao supermercado, nas idas à drogaria para comprar um parafuso, à mercearia do pedaço, porque preciso apenas de um limão, nas idas ao parque, nas idas ao Ikea, nas idas à escola e às aulas de piano da mana, nas idas à depilação (sim, é verdade), na compra de um livro, nas arrumações da casa, na rega do jardim, no abastecimento do carro com gasóleo, nos cozinhados, nos passeios.
Já não sei o que é estar sozinha, nos meus silêncios e meditações, nas minhas viagens de carro sem ter que pôr cinto na cadeirinha, tirar cinto da cadeirinha, apaziguar dúvidas, responder a perguntas, colocar músicas a teu gosto.
Oiço muitas vezes outras mães dizerem que querem mais filhos e que morrem de saudades dos seus bebés e é verdade, também morro de saudades daquilo que eles vão deixando de ser todos os dias, mas penso que o desejo irreprimível de mais crias, vem com as ajudas que se tem. Com o poder "largar" as crianças e ir comprar limões, ou almoçar fora, sem toda a logística inerente.
Quando somos apenas nós e tudo de nós depende, quando apenas desejávamos poder vegetar cinco minutos, o desejo orgânico de repetir bebés e momentos é aniquilado pela razão. A minha razão está cansada e diz ao meu corpo que descanse. Ao todo, com a Alice incluída, têm sido sete anos non-stop. Quando ela entrou para a escola, eu já tinha o António.
Já não sei, e desconfio que precisarei de vários meses de adaptação para reaprender, como é que se vive sem ouvir a tua vozinha a todo o instante, as tuas birras, sentir a tua mão na minha, ou a fugir de dentro da minha. Preciso de reaprender tudo e tenho a certeza de que andarei por muitos meses coxa, como se me faltasse um membro, a olhar por cima do ombro, a ver para onde correste tu, a proferir o teu nome quando vejo um camião enorme, que sei que gostarias de ver. Precisarei de vários meses de adaptação a mim sem ti em permanência comigo.
Em Setembro começas a tua vida escolar e eu começarei a minha vida de adulta e estou já em modo estágio para quando deixarmos de ser os dois todos os minutos do dia.
Choro e rio, tremo e relaxo, anseio e temo, dói-me e sabe-me bem, abraço-te, prendendo-te mil vezes em pensamento, e deixo-te ir. E sei que será sempre assim connosco.


7 comentários:

Ana. disse...

Tão lindo...
espero que o teu estágio corra bem e que em setembro redescubras os TEUS momentos.
:)

Melissinha disse...

Cá estaremos nós todas para ajudar a encher o ninho-Casacón de dramas e histórias. Asseguro-te de que não irás comprar um único limão sem receber um sms idiota e urgente meu.

Fizeste um trabalho estupendo com os pequenos, Cê. Agora é colher os frutos.

Ana C. disse...

As duas miúdas mais brilhantes dos meus mails e sms :) Obrigada.

Naná disse...

Sabes o que eu acho?! Na primeira semana vais ter cá uma ressaca, que te vai deixar a hiperventilar sempre que perceberes que o António não está ali a fazer 500 perguntas... depois passa!

Bom estágio!

gralha disse...

Deste-me vontade de chorar, agora (e de ir fazer mais um filho, porque eu tenho momentos de "descanso", no trabalho). Os abraços de fim-de-dia serão, ainda mais, a melhor coisa do mundo :)

Eu disse...

Também estou assim... em Setembro o meu Dré entra na pré-escola e ao fim de mais de 5 anos, em que quase todos os dias foram vividos só a 2, eu sinto que vou ficar sem chão... as suas palavras fizeram-me bem! Obrigada!

Julieta disse...

Acho isso de uma riqueza sem preço...poder acompanhar um filho todos os dias, 24/24 :)

(mas cansativo também...)