terça-feira, 4 de junho de 2013

não sei se sabem

disto que vos vou falar, mas o mais provável é ser comum a todos nós que temos filhos.
O cansaço, muitas vezes, rouba-nos aquela parte do coração que vê. Torna-o num músculo automático e cansado, limitando-se a impulsionar sangue sem parar. O coração comporta a nobre tarefa de não nos deixar morrer, de não parar nunca, mesmo quando dormimos, sofremos, choramos, rimos, mas nós esquecemo-nos dele demasiadas vezes.
Só que, de tempos a tempos, ele pára, metaforicamente falando, e concede-nos a honra de o sentirmos. Os ruídos e o cansaço deixam de ter importância e conseguimos sentir as coisas como deveriam ser sempre.
O António, de há um mês para cá, tem acordado todos os dias às 6.30 da manhã e é sempre comigo que vem ter, pedindo xixi. Depois não adormece mais, passa-me carrinhos por cima, fica sentado perto de mim, exercendo pressão silenciosa e esperando que me levante.
Todas as manhãs tem sido este o meu acordar madrugador e rabugento e eu não raciocino, faço tudo em modo automático. Consigo arranjar sempre espaço para gemer de dor sonolenta, de cada vez que os pés dele entram no meu quarto e de amaldiçoar aquele despertar quase nocturno.
Ontem foi diferente. Pediu-me apenas que lhe tirasse a fralda da noite e foi para baixo, em silêncio. Nada de televisão, nada de ruídos, nada de nada.
Hoje passou-se a mesma coisa e eu pensei finalmente que uma bênção tinha caído sobre mim e nada quis indagar, pois mais meia hora de sono era tudo o que precisava.
Passada essa meia hora desci e dei com o meu filho sentado em frente da janela grande que temos na sala a olhar lá para fora, absolutamente contemplativo.
- O que é que estás a fazer, António?
- A ver os passarinhos.
Aproximei-me e lá estavam eles, cerca de 6 passarinhos a chilrear, empoleirados nos fios.
- Não faças barulho, mãe.
E parou tudo. Os pés descalços dele a baloiçarem, o dedinho a apontar para os pássaros, os olhos castanhos brilhantes. Aquela minha bolinha de amor puro e completo. Aquele menino que não gosta que o chamem fofinho, nem bebé. Aquele menino que tantas vezes finjo ouvir, quando estou noutra. Aquele filho capaz de ficar meia hora a olhar os pássaros a baloiçarem nos fios de electricidade, mas incapaz de se enfiar na nossa cama e dormir mais um bocadinho.
Aquele menino maravilhoso era meu e eu há tanto tempo que não o olhava assim, com olhos de amor absoluto.
Pode ser apenas um momento, uma mão a apanhar um punhado de relva, um pé descalço no meu colo, uma posição enquanto dorme. Mas é um momento que me lembra sempre, de forma quase brutal e dolorosa, o que é sentir amor imaculado, o que é tê-los dentro da minha vida banal.

14 comentários:

gralha disse...

Oooooooooohhhh :)

Tão bom. Tão bom! Um tesouro.

Xana disse...

É verdade! Por vezes deixamos escapar momentos únicos, em que meia hora de sono perdida pode ser mais meia hora de amor!

macaca grava-por-cima disse...

dos textos mais bonitos que já aqui li... a tua capacidade de pegar no banal (não gosto desta palavra, tem um sentido pejorativo associado), prefiro quotidiano e interpretar com tanto coração é surpreendente. Mais surpreendente é a capacidade de relatar isso por escrito, de uma forma tão comovente

Patrícia A. disse...

É verdade que estou mt sensível hoje, mas até me comovi...

Patrícia A. disse...

É verdade que estou mt sensível hoje, mas até me comovi...

Melissinha disse...

É delicioso voltar para eles. Delicioso!

Ana. disse...

Admiro a delicadeza desse pequeno homem (não lhe vou chamar nomes fofinhos) e a sensibilidade de quem fica quieto a observar passarinhos. caraças, pá! Estás a criar um homem à maneira!
;)

Luísa Livros disse...

Oohh.... Fiquei com o coração preso ao computador e talvez um bocadinho apertadinho por me ter feito pensar em como realmente tantas vezes momentos como estes nos escapam na rotina do dia à dia e no meu caso muitas vezes pelo "cansaço" de a minha pestinha só não estar na minha vida 3h por dia.... Adorei ler este texto e olha é caso para dizer que o teu filho fez-me pensar... ainda dizem que não aprendemos com as crianças!!;)

Ana C. disse...

Minhas queridas sentimentalonas :)

Maria João disse...

Que post bonito :) Conheço bem o sentimento com que o escreveste e compreendo cada palavrinha. Por vezes não os aproveitamos!

Naná disse...

É como que um novo apaixonar, como se o nosso amor por eles subisse uma nova fasquia!
Um texto lindo que podia bem ser o mote para um romance...

Naná disse...

É como que um novo apaixonar, como se o nosso amor por eles subisse uma nova fasquia!
Um texto lindo que podia bem ser o mote para um romance...

Raquel Ribeiro disse...

;) adorei o texto... tudo verdade!

triss disse...

tão bonito.