segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O contexto do amor

Disseram-me uma vez que o amor, por si só, não vendia.
Sentaram-me numa pequena mesa redonda, olharam-me nos olhos brilhantes de expectativa e disseram-me que era preciso um contexto. Não bastava uma boa história de afectos. Os afectos teriam que ter lugar no período de Salazar, na Segunda Guerra Mundial, no grande terramoto de 1755.
A culpa não era minha que o amor não fosse vendável por si só. A culpa era da dificuldade de vender uma história de amor sem contexto. A menos que eu fosse alguém estupidamente conhecido. O que não era, de todo, o caso.
Eu, que sempre acreditei que uma boa história podia passar-se numa carruagem suja de metro, num banco de jardim, dentro de uma casa no meio de lugar nenhum. Eu, que sempre acreditei que bastavam os afectos para tornar o contexto irrelevante, morri um bocadinho por dentro.
Vim para casa pensar num contexto onde pudesse passar-se a minha história. Um contexto que pudesse encher o olho, que pudesse atrair as pessoas para a sinopse.
Arranjei logo dois bons contextos, a minha cabeça fervilhou de ideias o dia inteiro. Mas à noite, quando tudo toma forma dentro de mim, quando os monstros entram e não consigo virar as costas à verdade. À noite eu quis que o contexto se fodesse.
Dois dias depois, enviava de novo a história de amor sem contexto para outra editora. Uma das poucas para onde ainda não tinha enviado.
Uma semana depois ligaram-me. Alguém tinha acreditado que o amor podia acontecer em qualquer lugar. Alguém tinha acreditado nas minhas palavras e tinha as ferramentas para fazê-las vingar.
E assim, posso dizer-vos, com as garantias de alguém sem importância nenhuma, que o amor acontece-nos sob todas as formas, todos os dias das nossas vidas, em todos os lugares. É só estarmos atentos e não deixarmos de acreditar.

17 comentários:

gralha disse...

É muito bom ver que ainda há quem aposte numa boa estória e não apenas no pacote comercial. Ah, editores com tomates! Ainda há esperança neste mundo :)

Naná disse...

Ainda bem que não acreditamos em tudo o que nos dizem, especialmente quando o instinto nos diz que eles é que estão errados!

saudosa disse...

Delícia.... OBRIGADA!!!

Silvina disse...

É como se fosse magiaaaa!

(quero acreditar que ele anda aí à espreita, mas... preciso de provas!)

Ana. disse...

Tu não és "alguém sem importância nenhuma"! Não és mesmo.

De resto, sim, acreditar no amor por si só, sem adereços, continua a valer a pena; ler sobre o amor, sobre todas as formas de amor, continua a ser dos melhores alimentos para a alma. Pelo menos para a minha, romântica incurável!
;)

Melissinha disse...

Queria ser uma mosquinha para ver certas e determinadas reações daqui a uns tempos, ai como eu queria.

PS - eu sou fã de contextos.

Melissinha disse...

Fui hermética: queria ver a reação de certos e determinados editores daqui a uns tempos, foi o que quis dizer :)

Gosto muito de contextos, de enquadramentos históricos, etc, ajudam-me a entrar na coisa. Mas acho que é questão de gosto, não é sine qua non de nada. O importante é que a magia, a telepatia escritor-leitor se dê e não se quebre até o último parágrafo. Isso é o que importa.

Ana C. disse...

Eu gosto de contextos, mas nem sempre são eles que definem uma boa história. Há histórias em que os contextos não estão lá a fazer nada.........

Ana C. disse...

E o nosso país não está fácil para as editoras e para livros sem contexto. Essa é que é a triste realidade.

triss disse...

Que coisa mais imbecil de se dizer (o do contexto), ainda bem que não foste na conversa:-)

Paulo Ferreira disse...

O contexto serve para esconder uma quantidade de falhas e pecados. Muito artista moderno está cheio de contexto. Se prescrutarmos tudo o que nos entra pelos olhos (e ouvidos) no nosso quotidiano é só contexto... e é por isso que estamos e ficamos tão ausentes e insensíveis.

ouvirdizer disse...

Na primeira parte do teu texto comecei a contextualizar o meu amor... triste que seria num país a meio de uma crise económica, porque o meu amor começou aquando da crise, mais coisa menos coisa...
No final, a esperança de que podemos acontecer sem contexto. Resta a história, por si, quando começou quando fomos apresentados pelo meu pai à porta do Júlio de Matos. Sim, é um comédia, com tudo à mistura.

ex ana disse...

Obrigada pela partilha da 'estória do contexto'.

Mas não é o nexo (sim com n) mais importante que o contexto?

Eu pelo menos gosto de ler coisas com nexo...quanto ao contexto até o podemos criar durante a leitura...

Mas são estes os tempos em relação a livros e editoras. Pois não foi uma 'top' de vendas em Portugal que declarou que: "Já fiz um 'downsizing' do meu 'lifestyle'!"

(para além do copy & paste como prática regular)

A. F. disse...

E quando é publicado o seu livro?

Ana C. disse...

AF, sai no final do mês. Espero que consigas fotografar alguém com ele na mão :)

Julieta disse...

Acreditar sempre...só assim as coisas acontecem. Parabéns!

sol disse...

Bonito texto!