quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Vou contar-vos uma história

Sabem que às vezes as frases mais impressionantes chegam de quem menos esperamos. E ontem, a minha avó veio aqui a casa, com ar compenetrado e sério e eu pensei que ela tinha já lido o livro. O livro que tem um padre que recebe cartas e sei lá mais o quê capaz de o lançar no Index da Opus Dei (sim, parece que eles têm essa lista fofinha).
Tinha lido o meu livro duas vezes (para melhor o entender, entenda-se) e, do alto do seu profundo catolicismo praticante, disse-me que tinha ficado muito comovida.
Do alto dos seus quase 90 anos, ela nunca tinha pensado nos padres (aqueles que são bons naquilo que fazem) enquanto pessoas, abnegadas, que vivem em função dos outros. Nunca tinha pensado na solidão profunda que eles poderiam sentir ao longo da sua missão.
"Exigem-lhes muito, exigem-lhes a perfeição constante e diária, os sermões pouco chatos e comoventes, mas não pensam neles enquanto seres humanos, enquanto pessoas."
- Este padre, coitado - Dizia ela, quase comovida - ao ler aquela primeira carta, sentiu-se confrontado com um sentimento que nunca tinha conhecido. Aquelas palavras, coitadinho, tocaram-no profundamente, porque nunca lhe tinham falado assim e ele sentiu, pela primeira vez na sua vida, amor. Ele sentiu amor.
E ela, a minha avó, de quase 90 anos-de-ir-à-missa-todos-os-dias, resumiu na perfeição o António e retirou-lhe toda a camada de "pecado", que pudesse surgir a um olhar pouco atento.
O António era a pessoa mais sozinha do mundo, por isso as cartas de Alice o emocionaram tanto. As cartas dela foram as palavras de amor que ele jamais escutara. Desde o António pequenino, ao António homem, nunca lhe tinham falado assim. E ele sentiu que tinha finalmente encontrado aquilo que buscara uma vida inteira.
O amor, seja em que sentido e reflexo for, jamais será pecado. É um dos sentimentos mais límpidos e imaculados do mundo.

4 comentários:

Naná disse...

A tua avó tem aquela sabedoria a que eu aspiro, tal como a minha tia Albertina.
Dizem-nos coisas tão simples e com uma naturalidade que nos choca, como se fosse óbvio para todos, mas nós andássemos cegas sem perceber uma coisa tão simples...

gralha disse...

Evidentemente! E orgulho de avó é quase tão bom como orgulho de filho :)

(mesmo assim, só quando acabar de ler o livro é que te confirmo se faço queixinhas à Opus Dei, ou não :P)

Melissinha disse...

Eh pá, queixas a Opus Dei é BEST PRESS EVER :D

(Só malucos pensariam mal do António, Casaca. É um cristão como poucos, como os teus leitores vão ver mais para o fim do livro).

Ana. disse...

Eu amo o António... e a tua avózinha também!
;)