sexta-feira, 22 de março de 2013

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Sempre que passo naquela pequena estrada, de manhã bem cedo, vejo-o.
Uma mão pendurada e sem vida, baloiçando ao som dos passos hesitantes. Inclinado para a frente, como se fosse cair a qualquer instante.
O rosto deformado por uma paralisia e uma das pernas mais frouxa do que a outra.
Óculos de massa preta, boné de feltro preto.
Com o esforço, o seu rosto adquire uma expressão aflitiva que não consigo definir, como se lutasse por cada lufada de ar conquistado, por cada centímetro de chão pisado com o pouco vigor que possui.
É um homem idoso que caminha todas as manhãs por aquela estrada sem passeios, sem abrigo dos carros que passam indiferentes, sem apoio de bengala, nem de braço alheio.
É um homem idoso que caminha só. Mas que continua a caminhar, como se parar significasse morrer, ou ter que pensar na morte.
Também ele foi um jovem bonito, também ele teve sonhos, também ele namorou, sorriu e julgou poder ficar assim eternamente.
Também ele foi o filho, o marido, amante, pai, avô de alguém.
Também ele sente.
Dizem que o que mais assusta nisso da idade que avança, é o envelhecer mal.
Eu digo que o que mais me assusta nisso da idade que avança, é o envelhecer mal e só.

3 comentários:

Naná disse...

Numa das últimas conversas que tive com o meu pai a dada altura ele disse-me: "não penses que é fácil a vida dum homem só..." e eu bem sei que ele se referia a si próprio.

Moimême disse...

A solidão é pior que doença. Mata-nos aos poucos, a cada dia. E há tanta gente só, que vive acompanhada!

M.P. disse...

É talvez o meu maior medo. O de envelhecer mal e só.