quarta-feira, 8 de maio de 2013

o intumescimento provocado pelo facto de se ter um blogue

Ter um blogue, no sentido de possuir um espaço onde se escreve para um número potencialmente ilimitado de almas, pode levar (e muitas vezes leva) a uma erecção descontrolada do ego. Quanto mais as pessoas se convencem que um blogue é um palco, o seu palco, mais a erecção pulsa, produzindo descargas de adrenalina que auto motivam o autor a acender mais holofotes sobre a sua pessoa.
O autor do blogue faz passar a imagem que vive bem na sua própria pele, que não almeja mais do que aquilo que possui, ainda que aquilo que possui seja nada. O autor do blogue é crítico literário, fazendo perninha no goodreads, escritor, dita tendências de moda, guru das dietas, ou de outro palco qualquer. Enfim, o céu é o limite, pois no palco virtual ele pode apelidar-se do que quer que seja. Garanto-vos que haverá centenas de almas dispostas ao elogio.
Só que um blogue é apenas e só isso. Uma página em branco. Um espaço virtual onde cada um escreve o que deseja escrever. Não é muito diferente dos caderninhos perfumados que tínhamos na primária, em termos de relevância.
Uns entendem que ter um blogue não representa motivo para grande alarido. Outros entendem empolar o seu espaço, conferindo-lhe cariz de jornal de letras, ou revista de moda, provavelmente porque era esse o seu sonho profissional, não sei.
Cada um faz aquilo que quer e, nesta época de crise económica, até consigo entender a necessidade de poupar nos antidepressivos e apostar num espaço de auto masturbação elevada ao extremo. É que sempre é mais em conta.

13 comentários:

Alice disse...

esta tua reflexão está fantástica!
mas as pessoas - bloggers- gostam pouco de ser ver ao espelho e assobiam para o lado, como se este alerta não fosse para elas.

é o que há; cabe-nos a nós como leitores, querer ser voyeurs e assistor a estes actos masturbatórios.

Ana. disse...

Eu estou a um post de explicações gramaticais de apagar do meu reader a porra do blogue mais masturbatório e mais hipocritamente "pobrete mas alegrete" da história da blogoesfera!!
;)

Julieta disse...

Todos os blogues são actos masturbatórios. Todos sem excepção. Depois há uns com que nos identificamos mais e outros menos, nada mais que isso.

Ana C. disse...

Verdade, Julieta, verdade, mas há uns que se masturbam mais do que outros. Aliás, masturbam-se tanto que chegam a convencer-se de que fazem amor de verdade.

Julieta disse...

É fácil deixares-te "fascinar" pelo número de comentários, em tempos passei por isso. Acho que me apercebi a tempo e pus travão à coisa. Mudei de espaço e identidade e agora gosto verdadeiramente de saber que tenho no máximo meia duzia de leitores. Escrevo muito para mim e gosto que assim se mantenha. No entanto tenho consciência de que se não quisesse qualquer tipo de feedback escrevia em documentos word que guardava-os no meu disco rígido.

De qualquer maneira, sei do que falas. Nalguns casos mais extremos são mesmo graves carências afectivas e necessidades brutais de chamar a atenção.

Julieta disse...

correcção: "e guardava-os" e não "que"

Sílvia disse...

Eu escrevo sobre o que me apetece, quando me apetece, não vivo obcecada com comentários ou seguidores ou o que seja. Sei que há quem me leia à muito, quem ache que o meu blog é uma merda, mas quero lá saber. Enquanto andar feliz por aqui escreverei (também já houve alturas em que não me apetecia escrever nada e o blog parou, mas o bichinho vai ficando).

Dulce disse...

Reflexão muito interessante que nos faz (re)pensar nesse exercício diário de nos deleitarmos com o que escrevemos. Porém, há muitas diferenças entre os autores de blogues que povoam a nossa blogosfera...

Recorrendo à terminologia que usaste, diria que há os que só atingem o prazer quando alcançam elevados números de visitas/seguidores/comentários; e por outro lado os que têm prazer nas pequenas coisas, nos detalhes, na escrita em si, na partilha de factos/ideias/devaneios que podem ser banalidades do quotidiano, mas que não deixam de ser um espelho daquilo que realmente são. E só nestes últimos podemos encontrar pessoas que nos cativam, pelo que são - ainda que mais ou menos banais - e não pelo que pretendem ser à mercê de publicidade e graves dependências de rankings de visitas.

PS - Se eu fosse a contabilizar os textos que publiquei que não estimularam um único comentário e vivesse em função disso, provavelmente já tinha cortado os pulsos ;) Pelo contrário, até agradeço pouca visibilidade porque só assim consigo interagir genuinamente com os que me lêem e não tenho a infelicidade de me deparar com milhentos comentários mono'palávricos' estilo "adoro"; "uau"; "que giro"; "também acho"...

Naná disse...

Todos os blogues, em maior ou menor grau, encerram alguma forma de narcisismo! Alguns há que são verdadeiramente dotados para a representação teatral, outros são mais terra-a-terra.

Quanto aos contadores de comentários e afins, apraz-me dizer que um tolo terá sempre sucesso na medida em que houver outros mais tolos que o apreciem e achem inteligente!

gralha disse...

Ainda um dia gostava de ter 100 comentários num post para ver se me fazia uma coceguinha boa. Tenho de perguntar às pros qual é a técnica para chegar lá (provavelmente envolve deixar de escrever para mim própria).

Ana C. disse...

Meninas, a estupefação surge-me em catadupas, mas é mais quando alguém que provavelmente passa o dia a meter carimbos em impressos, ou a limpar a própria sanita como hobby incorpora uma certa profissão de sonho.
A malta ainda não descobriu a Kidzania.

disse...

Nua e crua :)

Há tempos um anónimo deixou-me um comentário em que dizia que não acreditava em nada do que se escrevia nos blogues.

Falando do meu, só surgiu porque um dia quando não pensava voltar a ser mãe eis que o universo nos surpreendeu a todos enquanto família...resolvi então escrever sobre este amor incondicional. Pode não interessar a ninguém mas eu gosto de escrever e o que ali vou gatafunhando é para a M ler um dia...se ela quiser.
Bj

Maria disse...

Precisamente meu anjo, precisamente. :)

bjos