sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Os Desgostos de Amor

Se me perguntarem do que mais tenho saudades no passado não é dos desgostos de amor.
De cada vez que os vejo bem lá atrás, enterrados às três pancadas, bem fundo, ou apenas à superfície sorrio pela paz, pelos dias sem atritos do presente.
Ainda lembro quando a dor me toldava a vida inteira, consumindo-me como uma espécie de sombra que me perseguia em cada música, filme, café, rua, perfume. Nada me trazia o esquecimento, nenhuma conversa era suficientemente anestesiante, nenhum filme suficientemente poderoso, nenhum livro ultrapassava o desgosto sentido bem nas entranhas de mim. Encarar os outros um martírio, explicar o que se passava uma tortura.
Nada, rigorosamente nada me esvaziava daquilo que me enchia o que precisava de espaço. Queria respirar e doía, queria conversar sobre outra coisa qualquer, mas na minha voz apenas habitava o desabafo, queria olhar um espaço em branco, mas tudo se preenchera com a sua imagem.
Os desgostos de amor consomem muito de nós e nada os aplaca além de um dia atrás do outro. Só mesmo o tempo, por muito lugar comum que possa soar, nos dá outra perspectiva de tudo.
Os desgostos de amor são como uma morte ao contrário, como ter que aprender a viver sem alguém que está vivo e ao nosso lado. Enterrar uma pessoa que vive é das tarefas mais hercúleas que se podem dar ao coração e o meu não tem a menor saudade de se sentir magoado.

33 comentários:

Tania disse...

"Os desgostos de amor são como uma morte ao contrário, como ter que aprender a viver sem alguém que está vivo e ao nosso lado." Acho que foi das melhores definições que já ouvi...e como custa...

HannaH disse...

custa tanto, mas tanto....só não sentiu isto quem nunca amou ou já se esqueceu do que era amar...
resta acreditar no tempo, sim, como tábua de salvação para a dor que não parece passar.

Mamã do Raúl disse...

"Enterrar uma pessoa que vive é das tarefas mais hercúleas que se podem dar ao coração" ...
Muito bom ler-te...
Obrigada

Lia disse...

qd eram as da adolescência, agora só dão vontade de rir! As outras, marcam fundo no coração e deixam cicatrizes. Mas cicatrizes é uma coisa boa: é sinal que esteve lá uma ferida, mas que já se curou!

Melissinha disse...

Pois Lia, as da adolescência, para mim, foram as mais mortíferas. Não estamos minimamente equipadas para fazer lutos com 14, 15 anos.

Quando o meu primeiro namorado a sério acabou comigo, pensei que ia morrer. Aliás, pedi para morrer. Em intensidade, não me lembro de dor igual na minha vida.

Mas sinto falta dos quilos perdidos à velocidade da luz quando tinha um desgosto de amor. Ai disso, sinto.
Felicidade engorda.

João Pedro disse...

Eu não conseguia explicar melhor o que estou a passar, neste momento. Tu explicaste por mim...
Adoro ler-te, Ana.

Ginguba disse...

Olha Ana, vou só ali fechar a tampa do baú das memórias e venho já...
Bolas!

Raquel disse...

Fizeste-me reviver uma dôr que senti em tempos... e que no fundo nunca deixei completamente de sentir. Deixas-me tantas vezes sem palavras Ana!... Obrigada amiga, adoro ler-te!
Bj xx

Joanissima disse...

É como dizia o MEC: "como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar?"

Dói muito, é verdade, mas tambem nos faz mais fortes e mais capazes.
São pedaços da nossa história que nos constroem 8e nos destroem) por dentro e é tambem disso que se faz a nata dos afectos.
Amo muito melhor hoje por causa dos meus desgostos de ontem.
Disto não tenho a menor das duvidas.

Um beijo para ti que es linda.

Only Words disse...

Gostei da metáfora que usaste: "enterrar uma pessoa que está viva". Ao longo das minhas três décadas já o tive que fazer 3 vezes. Foi horrível, porque a dor que se sente é inexplicável. O bom, depois do luto feito, é conseguirmos viver com a pessoa/sentimento enterrado, sem mágoa. Naturalmente que nos meus casos tive a "sorte" de conseguir dar a volta por cima, de continuar a preservar a amizade, o que nem sempre acontece!

Jo disse...

adorei cada palavra e nunca vi alguem expressar um desgosto de amor tao bem como aqui foi escrito
obrigado pelo texto

Izzie disse...

ainda bem que em determinadas circunstâncias da vida somos todos quase iguais!

Maria disse...

E custa tanto "enterrar" essa pessoa..!
bjnho.

Precis Almana disse...

Nunca me conformei com o maior desgosto de amor que tive com a pessoa que mais amei (ou a única que realmente terei amado). De alguma forma tinha razão porque, com o tempo, que como dizes cura tudo, esse amor transformou-se e nunca desapareceu.

Nicole disse...

Gostei tanto, mas tanto, tanto deste post. Há tanto tempo que não lia um post assim tão bom.

Bom fim de semana.

Custa muito, mas o que não nos mata, torna-nos fortes.

Ana C. disse...

Tania custa muito mesmo, não tenho a menor saudade...

Ana C. disse...

Hannah a dor passa sim, algumas vezes dá lugar a outra coisa qualquer, mas não doi para sempre...

Ana C. disse...

Mamã do Raul bom mesmo é saber que me lês ;)

Ana C. disse...

Lia eu estou com a Melissa na adolescência também dói como tudo, pensamos que morremos. O nosso cérebro não descobriu o que é esperar na adolescência, tudo parece definitivo demais...
É bom poder olhar algumas cicatrizes sim. Mas só algumas ;)

Ana C. disse...

Melissa tal como disse à Lia na adolescência tudo é dramatizado ao extremo, tudo é uma questão de vida ou de morte. Adolescente SOFRE!!!!

Ana C. disse...

João Pedro ler os teus desabafos fez-me recordar...
É sempre bom sabermos que outras pessoas estiveram lá e sairam.

Ana C. disse...

Ginguba não feches, encosta ;)

Ana C. disse...

Raquel há histórias que ficam por contar, mas temos que continuar a escrever a nossa vida na mesma, não é? E provavelmente com um final bem mais feliz :)
Obrigada...

Ana C. disse...

Joaníssima aqui na distância confortável dos anos posso dizer que se não tivesse passado por alguns desgostos não seria como sou, mas não os desejava outra vez, NO WAY ;)

Ana C. disse...

OnlyWords eu admiro sinceramente quem fica amigo de alguém que amou muito ;)

Ana C. disse...

Jo agora fiquei muito muito vaidosa ;) Obrigada!

Ana C. disse...

Izzie concordo contigo, saber que não somos os únicos e saber que alguém já passou exactamente pelo mesmo e saiu pode confortar sim...

Ana C. disse...

Maria sem dúvida que custa...

Ana C. disse...

Precis pelo menos passou a dor...

Ana C. disse...

Nicole muito obrigada, volta sempre...

Blue C disse...

Ana C, a tua escrita continua maravilhosa. "Enterrar uma pessoa que vive é das tarefas mais hercúleas que se podem dar ao coração e o meu não tem a menor saudade de se sentir magoado. " - fizeste-me pensar da energia que tive que investir para o fazer... há 10 meses e 12 dias e parece que ele ainda estrebuccha de vez em quando... mas eu esforço-me para não o ouvir.

GaNgStAgIrL disse...

Sorri ao ler este texto, nao pq seja assunto para rir, mas porque simplesmente é a das melhores descrições que ja li...parabéns e obrigada...neste momento fze-me mt bem ler isto. Abraço

Ines Martins disse...

neste momento estou a passar por um e dói que se farta. preciso de ajuda, mas não a procuro, sofro com se nao houvesse amanha... A VIDA JA NEM TEM SIGNIFICADO PERANTE TANTA DOR.
vou procurar tratar-me deste mal.
Quanto á descrição é linda, palavras de sabedoria. Quem me dera estar de bem e em paz.