terça-feira, 20 de outubro de 2009

Saramaga Aqui e Depois Ali

Então e porque é que eu não gosto do Saramago?
Podia construir um discurso intelectual, pretenciosamente polido e criticar-lhe o estilo de escrita que me entorpece os sentidos até ao estado catatónico.
Podia simplesmente assumir a minha grandessíssima tacanhice de espírito e (que se lixe) dizer que nunca consegui acabar um livro dele.
Podia limitar-me a ficar calada como fazem muitos, porque não se diz que um Prémio Nobel nos faz dormir até a produção de baba nos afogar. O Prémio reveste-os de uma espécie de escudo invisível que os torna inatacáveis por nós não-membros da Academia e leigos em matéria de Prémios sejam eles Nobel, Pulitzer, Camões, ou Kinder Surpresa.
Mas eu sou um grande pedregulho e posso dizer mal dos Grandes com a ingenuidade dos parvos. Até me posso dar ao luxo de dizer que não gosto do Saramago-homem-além-do-escritor. Tenho medo dele, parece-me sempre o papão desterrado numa ilha vulcânica negra como breu, antipático, arrogante e a cagar sentenças biblícas do alto de um estranho pedestal.
Depois os verdadeiros comunas, pelo menos como eu os vejo, são malta simples, genuina, sem peneiras, tal e qual o Jerónimo Sousa. E ele não é assim, dá mau nome ao partido e acho isso um bocado indecente para os camaradas...
Perguntam-me vocês: Mas tu estás estúpida Ana? O que é que importa quem escreve, o que realmente interessa é como escreve. Pois, só que temos um pequeno-grande problema, como deu para perceber em cima, ele não me cativa por lado nenhum...
Resta-me dizer-vos que quando estive na Suécia e a pedido de um fã saramaguiano, corremos metade de Estocolmo em busca de um livro dele escrito em sueco (sim, há malucos para tudo) e ninguém, nenhum ser vivo funcionário de livraria sabia de quem se tratava. E esta hein?

21 comentários:

Joanissima disse...

Só te posso dizer, em vénia pelo teu texto do qual comungo, que os suecos são um povo cheiinho de sabedoria...

Precis Almana disse...

Ahahah - pela última parte.
Sabes, eu assumo o sacrilégio - giro no que ao Saramago diz respeito - de nunca ter pegado num livro dele. Tenho cá a Caverna e tenho sempre outros que passam à frente quando quero ler, ultimamente do mais ligeirinho que houver (o que eu preciso agora). Fico menos culta? Bah! Se tivéssemos uma vida infinita, muito bem. Assim, há que seleccionar o que nos dê prazer.

Disse disse...

Clap clap clap clap (ovação de pé). Tudo o que pode ser dito, aqui dito está!

Sílvia disse...

Bem, shame on me, eu li dois... E apesar de um bocadinho chatos conseguir ler e no fim mesmo no fim não desgostei (atenção que tb não gostei)

Daniel Monferrato disse...

Não me resta outro comentário, a não ser: concordo plenamente com tudo, sem tirar nem pôr!

Ana disse...

Subscrevo tudo. Detesto Saramago. Juro que tentei ler mas fico estafada, como se me faltasse o ar e ainda hoje fico perplexa como demónio foi ele ganhar o Nobel.

Jo Ann v. disse...

Só para ser do contra ;-)
Amo Saramago, amo o estilo dele. Quando abro um livro, não fico sossegada até a última página e ainda quero mais ♥

Ginguba disse...

Saramago tem tantas obras...Não se gosta de uma mas ama-se 2 ou 3. Não consegui lêr a Jangada de Pedra, mas adorei O ensaio sobre a cegueira e o Memorial...é difícil mas entranha-se... Enfim , não vou dizer que percebo o prémio Nobel mas também não digo que não gosto!
Mas a figura é antipática qb!!!

Melissinha disse...

"O Prémio reveste-os de uma espécie de escudo invisível que os torna inatacáveis por nós"

Olha que conheço mais gente que não gosta do que gente que gosta. Saramago é do menos consensual que há.

(Eu, por outro lado, tenho algumas birras literárias que essas sim me levariam a apedrejamento em praça pública, hehe)

Ana. disse...

Eu não gosto da escrita dele, da cadência das frases, da escolha da pontuação e de muitas escolhas lexicais. Já tentei ler, mas acabo sempre por adormecer, nenhum dos livros que tentei ler me despertou o menor interesse!
Paciência!

Lia disse...

Até agora só consegui ler o Ensaio sobre a cegueira (muito antes do filme ter saído), tentei ler o Memorial do Convento mas nunca passei da primeira página porque sinto falta da pontuação (manias minhas)! Não gosto dele enquanto escritor e aquela personalidade do "sou melhor que todos os outros, e se não concordam comigo são incultos" é coisa para não gostar também da pessoa!

HannaH disse...

concordo contigo em todos os aspectos... apesar de ter lido o Todos os Nomes e até ter gostado, já tentei ler mais uns 5 ou 6 dele e cansei-me antes da pagina 50...!! e a arrogância!? Meu deus... e o facto de o senhor estar smp a falar mal de portugal e nao saber do que fala visto k mora ha milhoes de anos noutro lado e desconhece a realidade k aki se vive?? grrr

Raquel disse...

FINALMENTE alguém que também diz o que já digo há séculos e ninguém parece concordar (como se fosse pecado admitir não se gostar da escrita do senhor que ganhou um prémio Nobel da literatura!). Acho-o chato até dizer chega e dos livros dele só aprendi uma coisa: um bom remédio contra a insónia!
(Ana, tens aí em casa um livrinho dele para essas noites que tens passado em claro!? ahahah)

Eva disse...

A criaturinha não me inspira qualquer simpatia e confesso que não consigo deixar de pensar que só uma personalidade esquisita escolhia voluntariamente aquela ilha para viver.
Durante cinco anos fiz várias (muitas)tentativas para ler a Jangada de Pedra, só o consegui (por pura teimosia) depois de ler o Memorial (a conselho do m/ marido), há pouco tempo li o Todos os Nomes porque me foi referido pelo Gonçalo Cadilhe quando aqui há uns tempos nos encontrámos por acaso na... Conservatória do Registo Civil!
Gostei de qualquer um dos livros mas não é daqueles escritores de quem faça questão de ler as obras que vão saindo; como alguém já disse há escrita que me dá muito mais prazer ler.

PP_FANTASMA disse...

No livros dele, ainda assim, o que mais me puxa ao interesse é mesmo a ideia. Mas como terei lido dois ou três livros, não sou nem fã confesso nem especialista.
Mas irrita o senhor, sim. Já teve mais piada.
Ks

Miguel disse...

Malta, malta, malta... eu gosto do Saramago Escritor. Confesso que estranhei a estranha estrutura do texto mas isso foi facilmente ultrapassado. Comecei pelo "Evangelho Segundo Jesus Cristo" que me conquistou e depois muitos outros até à obra-prima "O Ensaio Sobre a Cegueira". Leio e gosto do Saramago pelas permissas que dão origens aos livros. Seja contar a história de Jesus pelo seu lado humano e imperfeito, seja abordar a política e a natureza humana através de um vírus que deixa todos cegos, seja através de um homem que encontra o seu duplicado e decide que apenas um pode viver enfim, escolham. A verdade é que o homem tem umas ideias fascinantes! Depois se o "embrulho" está mal ou bem feito, isso é outra história! Quanto ao Homem Saramago: é antipático e arrogante e sobranceiro e isso irrita sempre muita gente...

InêsN disse...

Lê o "Todos os Nomes"...

really!

;)

InêsN disse...

e o Ensaio sobre a Cegueira, também..

Marina disse...

Olha eu ADORO, desde que li o memorial do convento no oitavo ou nono ano que passou a ser o meu escritor favorito. Adoro o estilo, a falta de ar que às vezes provoca, a cadência, os absurdos de algumas histórias, tudo! :)

Sónia disse...

Aqui fica o meu comentário só para ser do contra :) Sim, porque eu gosto de Saramago, para mim não há como não gostar e é precisamente a forma como escreve que me prenda na leitura de um texo que se entranha. Lê o memorial do convento... Aposto que não vais resistir aos encantadores Blimunda e Baltazar

Jo Ann v. disse...

Sónia, uma das minhas frases preferidas do Memorial: Baltazar não veio de mãos vazias porque uma delas perdeu na batalha e a outra segurava a mão de Blimunda.
Claro que a frase deve estar do avesso, mas adoro ♥