sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Importância de (saber) Estar Só


Agora que olho para trás, do topo dos meus 33 anos, vejo como uma das escolhas inteligentes da minha vida, foi ter sabido permanecer só durante uns tempos.
Os desgostos de amor dão muito trabalho. Retiram-nos neurónios, capacidades intelectuais, disponibilidade para o que quer que seja para além daquela angústia que corrói por dentro e por fora. Tornam-nos pessoas ausentes, preocupadas apenas em libertar aquela dor tão funda que nos incapacita para a vida.
Conduzimos o carro e pensamos nele, vemos um filme e vemos a nossa história nele, fazemos uma viagem e pensamos como ele faz falta ali, ouvimos as conversas alheias sem qualquer poder de concentração, porque aquela nossa história mal resolvida, tem que ser resolvida. Olhamos o telefone à espera que ele toque, olhamos o e-mail 1250 vezes na esperança vã de que ele tenha mudado de ideias, passamos noites mal dormidas a pensar no que é que correu mal. Em suma, deixamos de existir como pessoas do mundo e o mundo fica restringido apenas a uma única emoção, a dor.
Aprender a ler um livro no conforto do silêncio, a ver um filme sem angústias, a partilhar uma pizza com uma amiga e ouvir de facto o que ela tem para nos dizer, desligarmos o telefone porque queremos dormir. Dormirmos para nos recompormos e não para não querermos acordar. Viajarmos com amigos e levarmos na bagagem apenas a vontade de conhecer e de enriquecer o espírito.
E parar de esperar. Porque o amor, esse acontece quando menos o procuramos e quando tivermos finalmente aprendido a ficar sós.

22 comentários:

McSleepy disse...

Presumo que tenhas visto o "Love Actually" ou, em português, "O Amor Acontece".

raquel disse...

Post lúcido :)

Revejo-me na inteireza do texto...

Beijinho

Ana C. disse...

McSleepy, só cerca de 325 vezes, porquê?

Cristina disse...

Gostei muito deste post. Muito importante, aprender a estar sozinha...

Cristina

Ana C. disse...

Raquel, às vezes é difícil manter a lucidez, mas faço os possíveis :) volta sempre!

Ana C. disse...

Cristina, porque é que temos tanto medo de nós próprias? De nos vermos através dos nossos próprios olhos e não através dos olhos do outro? Seremos assim tão terríveis? Não me parece...
Obrigada pela visita!

margarida disse...

Tudo verdade.
Não há nada neste post que esteja fora do sítio.
Aprender a voltar a viver é difícil e dói muito, mas temos mesmo que voltar ao Mundo!

Parabéns!

Ana C. disse...

margarida e quando voltamos finalmente ao mundo, libertas de tudo o que nos consumia é tão bom...

Melissinha disse...

Há que dar algum crédito aos desgostos de amor: são a única coisa que me emagrecem nesta vida! Sempre se notou como estou de amores pelo meu rabo. Neste momento, por exemplo, é perfeitamente visível o quão feliz sou ao lado do meu marido. E não é pelo brilhozinho dos olhos, é pela amplitude das ancas.

(Sou sempre eu a avacalhar isto, está visto.)

Na verdade, Carneiro como sou, quase morri de amores algumas vezes. O meu primeiro desgosto foi aos 5 anos, quando o Sami, da pré-primária, não aceitou o meu lanche que lhe ofereci. Tive um ataque de febres e diarreia e fui recambiada para casa.
Aos 10 foi o Napoleão, e quase me afoguei numa piscina.
Aos 15, foi um namoradinho holandês e fui mandada de férias para o Brasil, pois pensavam que eu ia morrer a sério.

Depois desses, a coisa foi melhorando e o último desgosto durou coisa de dois, três dias. Como dizes, há na solteirice um lado de reencontro com o que somos que é muito positivo. Por exemplo, além de emagrecer, sempre escrevi lindamente depois de levar com os pés. Entrava numa onda "quem não me quer, não me merece" que era extremamente frutífera em termos criativos, inventava umas heroínas fantásticas, cínicas e independentes. Quando voltava a apaixonar-me, voltava a "bovinice".

Mas pesando tudo, entre as duas coisas, prefiro a "bovinice". :)

Ana C. disse...

Melissa, mas tu cada vez estás melhor!!! É claro que toda a gente tem que sofrer por amor. Faz parte do crescimento de qualque ser que se preze. Mas chega uma altura da nossa vida em que O QUE É DEMAIS ENJOA!!! Tal como tu o meu estado de paixão media-se pelos meus quilos e a minha veia criativa sempre bombou muito mais quando estava sozinha. Encontro-me agora na fase da bovinice e meu Deus, como também tem sido bom :)

KILGORE disse...

Vamos acreditar que tudo faz parte da vida:)

Ana C. disse...

Kilgore e não é que tens razão? O bom e o mau fazem parte da vida. Mas chegamos a uma altura da nossa vida em que nos cansamos de sofrer por amor. Ou estamos com alguém que nos dá tudo, ou mais vale sofrer pela fome no 3ºmundo...

Joanissima disse...

Concordo em absoluto. Aé porque, sofrer de amor, prepara-te para um próximo amor e, normalmente, ele será mais rico e mais pleno por causa do que te foi dado a aprender na relação anterior.
No entanto, há coisas que eu, acho, nunca conseguimos realmente aprender. Mas que até já nos rimos delas... : )

C disse...

Brilhante o post!

Quem não esta bem consigo mesmo não poderá estar bem com ninguém.

Ana C. disse...

Joaníssima, eu tenho um magnet no meu frigorífico que diz: Nunca cometo o mesmo erro duas vezes,mas sim 6, ou 7 vezes :)

Ana C. disse...

C é bem verdade. Primeiro temos que estar bem sozinhos para sabermos viver acompanhados :)

Eumesma disse...

É, "desparecemos" enquanto pessoas durante e depois na fase do "luto", e que que nos reencontrarmos, através da valorização pessoa, dar tempo ao eu, para que o eu se restabeleça e voltamos a estar equilibrados para uma nova paixão...
Mas ás vezes esse processo todo é muito complicado de se levar a bom porto...
Excelente post e a fazer todo o sentido, menina Ana! :-)

Bjs

Undutchable disse...

E eu do topo dos meus 35 e já com passagem pela inevitável fase descrita no post, partilho inteiramente desta perspectiva.

Ana C. disse...

Undutchable, sabes o que é que eu acho? A barreira dos 30 dá-nos uma sabedoria do caraças...

banita disse...

Não digo que depois dos 30 venha a sabedoria... acho que vêm as estrias, as rugas, a flacidez, a celulite, etc.
LOL
Gostei do post e admiro as mulheres que conseguem estar sós. Eu nunca consegui...
É preciso muita, muita coragem.
Parabéns pelo post e pela coragem!

Ana C. disse...

banita acho que é preciso mais coragem para continuar a querer embarcar vezes sem conta em desgostos de amor. isso sim dói :)

kel disse...

Grande verdade. Enquanto não conseguimos estar sós, não conseguimos voltar a estar acompanhados. Apenas quando estamos de bem com o nosso "Eu" e com a vida, podemos encontrar o amor, sem o procurar.

Bjos*