

Vivi muitos anos em Lisboa e quando tive que me mudar para Cascais senti que parte do meu mundo se perdia irremediavelmente. O meu mundo de amizades, de ruas, de sabores, de cheiros, de barulhos, de confusão com que sempre cresci.
Os primeiros meses foram de grande angústia por ter deixado a minha cidade. Bem sei que estava a uma distância de poucos quilómetros, mas para uma jovem ainda sem carta de condução, significavam uma espécie de fosso que me separava do sítio que mais amava. Porque a nossa relação com as cidades é qualquer coisa de muito íntimo e inexplicável, só posso compará-la a uma relação com um amigo que está lá mesmo sem nada dizer, que se faz notar apenas como um extenso pano de fundo para tudo aquilo que fazemos. É o nosso palco.
Mas a pouco e pouco esta nova terra onde morava foi entrando dentro de mim. Não tinha o rio, mas tinha o mar. Não tinha Belém, mas tinha a Estrada do Guincho, não tinha o Chiado, mas tinha as suas ruas antigas e caladas, onde as árvores nos dão sombra e sempre o mar. Atento, avassalador, calmante. Sempre o Mar...
Ontem peguei em ti e fomos sentir o sol. Rimos quando vimos a praia solitária e ventosa e tivemos o nosso momento de felicidade. Porque a vida é feita disto, de momentos que nos fazem sorrir, de momentos em que percebemos que fomos tomados de assalto. Ontem esta terra era já a minha terra e Lisboa, uma recordação boa e antiga...
