
Ontem entrei numa livraria com a minha filha e fomos à secção infantil. Ela pegou num livro qualquer com princesas na capa e perguntou-me: Mãe este é giro?
Olhei o título do livro, incrédula e li-o duas vezes só para ter a certeza de que era mesmo um livro infantil e não um romance escaldante da Corin Tellado:
"Vou Casar Com o Meu Príncipe Amado". Não filha, ainda és muito pequena para este. Vamos ali ver os livros do Saramago que sempre são mais para a tua idade.
E assim se começa desde o berço a lavagem cerebral no sentido do príncipe encantado. Como é difícil criar uma filha longe dos cavaleiros andantes que aparecem para amar a sua donzela e são felizes para sempre, numa perfeição sem limites. Como é difícil não construir expectativas irreais no meio de tanta lavagem cerebral infanto-juvenil-adulta.
Se ao menos as histórias continuassem depois do Felizes Para Sempre. Elas veriam o príncipe desmazelado em casa, a dar arrotos depois do almoço, a coçar o umbigo, a deixar a roupa suja espalhada, mas não elas terminam bem ali, antes deles irem viver juntos.
Mas quando pensávamos que não podia piorar, eis que surge a verdadeira praga da lavagem cerebral (da qual confesso eu própria fui vítima): Toda a categoria de filmes no sentido de promover o príncipe. As conversas, as primeiras noites sempre fantásticas, cheias de gritos, arranhões e prazer desmedido.
As expectativas são tão, mas tão elevadas que só podem dar lugar ao divórcio, ou à infelicidade conjugal, ao exigir sempre do parceiro que seja como o Richard Gere e que nos veja como a Julia Roberts que de prostituta passou a mulher de sonho.
Alguém tem que dizer às nossas jovens que a primeira vez nunca é de gritos, é mais como um par de sapatos novos que na primeira caminhada nos lixam os pés todos, mas à medida que se vão fazendo ao pé, já não queremos outra coisa.
Alguém diz às nossas jovens que nenhum homem adivinha os mais íntimos desejos de uma mulher. Que muitas vezes temos que lhes dizer o que queremos com um cartaz à porta de casa, mas que isso não tem que ser uma coisa má.
Alguém diz às nossas jovens que não há homens perfeitos e que entre um tipo que nos oferece flores todos os dias com um sorriso colgate e um tipo íntegro que nos saiba ouvir e respeitar, o segundo é bem mais valioso que o primeiro.
E depois há uma coisa que sempre me fez uma certa espécie: Porque raio é que não há livros em que as princesas vão salvar os homens em apuros? Isto sim estaria bem mais próximo da realidade :)
