Lá porque a minha mãe espreita o meu blog não é por isso que vou deixar de escrever sobre ela. Afinal de contas é uma personagem digna de nota, como todas as mães do mundo.
Esqueçam tudo o que pensam que sabem sobre freeks da limpeza. Porque tudo o que já possam ter lido, ou visto em algum lugar não chegará nunca ao patamar do que a minha mãe considera limpo.
Se estou sentada na cozinha lá de casa a beber um copo com água, basta-me pousar o copo por breves instantes, segundos apenas, que quando me viro para lhe voltar a pegar, o copo já desapareceu para dentro da máquina de forma silenciosa e misteriosa.
Ainda mal terminei a refeição, já o prato e tudo o que o rodeava foi varrido da superfície da terra a uma velocidade acima do cagajésimo de segundo. Nem tenho tempo de cruzar os talheres. Por vezes sinto que se não tiver cuidado, ela me envolve em papel aderente e armazena-me na prateleira dos frescos, mesmo ao lado das saladas no frigorífico.
Quando era pequena lembro-me do mistério que envolvia o desaparecimento dos meus brinquedos para um qualquer lugar de onde nunca mais regressavam. Só mais tarde percebi que esse lugar escuro e frio, longe de mim, mais não era do que o contentor do lixo, bem mais acolhedor para bonecos sujos e velhos.
À medida que os anos foram passando fui-me resignando ao facto de que a mania nunca iria passar, mas como já não vivíamos na mesma casa, tudo se tornou perfeitamente tolerável. Aceitei-a, tal como ela me aceitou a mim com todas as minhas casmurrices, maus humores e afins.
Até ao dia em que... Até me custa contar isto. Mas até ao dia em que descobri que o vestido de noiva que lhe pedira para mandar limpar e guardar em casa dela, tinha levado o mesmo destino que os brinquedos da minha infância.
Com o sorriso mais plácido do mundo e o ar mais natural que um rosto pode expressar respondeu-me, quando inquirida sobre o mesmo:
- Para que é que o querias guardar? Não tencionas voltar a casar, pois não?
Acho que pela primeira vez na minha vida fiquei sem resposta.
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Há 1 semana
