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sábado, 4 de abril de 2009

A Vida Como ela É

- Hoje fazes o jantar?
- Porquê?
- Para variar.
- Pode ser.
Passam-se duas horas. Ele permanece sentado em frente ao computador.
- Então?
- Já vou.
- Quando?
- Porque é que és tão chata?
Suspiro muito profundo e chantagem emocional em acção:
- Deixa estar, eu faço.
Ele lá se levanta com bastante esforço e eu transmito a informação:
- O lombo de porco está no frigorífico, é só fazeres arroz e cozeres legumes.
- Está bem.
Subo para ir dar banho à Alice. Passados 15 minutos ouço os passos dele escada acima. Sei exactamente o que vou ouvir.
- O que é que disseste que era para fazer?
Respiro fundo. Isto é só um pequeno atrito doméstico, não é de todo o que o define. Ou é precisamente o que o define? Preparo-me para praguejar. Mas ele antecipa-se.
- Tu hoje estás muito rabujenta.
- Porque é que nunca ouves o que te digo?
- Sem dramas, diz lá o que é que me pediste para fazer?
Depois desço, oiço-o na cozinha. Fico ali na soleira da porta a ver sem ser vista. De meias, olhar ensonado, a fazer tudo no seu ritmo muito próprio, sem pressas. Esquece sempre alguma coisa e volta atrás, depois lembra-se de outra coisa qualquer e apressa-se. Sorrio e penso para mim: Não o trocava por nada deste mundo. E talvez não fosse má ideia dizer-lhe isto mais vezes.