Às vezes abro o armário e tenho vontade de o arrancar da parede e atirar todo o seu conteúdo pela janela. Deixando-o assim livre e com espaço para o que vier de novo.
Mas a inércia fala mais alto e dou por mim a ver-me livre de algumas peças de vestuário com a calma que só uma preguiçosa conhece.
É bom fazermos limpezas gerais. Estou farta de me deitar à noite e pensar no que deveria ter feito. Cansa muito menos fazê-lo do que levar dias a pensar que não se fez...
A Melissa outro dia dizia-me que até os livros levavam guia de marcha, que odiava tralha desnecessária na sua casa e na sua vida.
Mas eu tenho uma relação diferente com os livros. Uma relação que não tenho com rigorosamente mais nada. Quando gosto de um certo livro, fecho-o, digo-lhe até qualquer dia e ponho-o a dormir numa prateleira de onde o possa contemplar.
Quando não gosto do livro atiro-o pelo ar e recuso-me a dar-lhe abrigo debaixo do meu tecto.
Pode dizer-se que é uma relação amor-ódio, daquelas que tendem a piorar com a idade. Mas tirando os livros dos Cinco e da Condessa de Segur que povoaram a minha infância, vivem comigo os livros mais importantes da minha vida.
