Trago por dentro, do lado de tudo o que costuma esconder-se para não se lembrar, as memórias daqueles dias em que não sorria. Em que tudo parecia insuperável e a minha vida um enorme vazio à espera que o completassem.
Foram precisos muitos anos para entender que ninguém viria preencher esse espaço temido por mim e que também não poderia continuar cega, fingindo que nunca tinha existido.
Há coisas que simplesmente temos que empreender sozinhos. Não vale a pena tentarmos levar outros a entender-nos lá atrás, ou puxarmos constantemente os personagens à razão bem aqui no presente.
Reviver tudo isso e perdoar o que passou é uma viagem solitária, uma viagem até à vida adulta, no final da qual podemos dizer que crescemos e aí sim, depois de tudo arrumado, darmos a mão a alguém e continuarmos em frente.
domingo, 16 de agosto de 2009
sábado, 15 de agosto de 2009
O Caminho da Maternidade
O que mais odeio neste meu estado de bomba hormonal em contagem decrescente é ter menos paciência para a Alice, pois ela é a que menos contribuiu para me deixar assim.
Sei que não sou perfeita, que tenho momentos melhores, outros piores e ela já aprendeu a conhecer-me também, mas quando decidi que ia enveredar por este caminho da maternidade, foi com plena consciência de que ia pôr no mundo alguém que não tinha pedido para existir.
Não foi um capricho, uma carência biológica, um ir na maré. Foi uma decisão com os dois pés na terra e o coração nas mãos. Uma decisão de peso que iria mudar o rumo dos meus passos para o resto da vida e eu sabia disso.
Com ela chegou tudo o que não sabia possível e uma capacidade quase infinita de me reinventar todos os dias. Em vez de um grunhido mal humorado às 7 da manhã quando a voz dela me acorda, sai-me um sorriso ensonado e forçado.
Em vez de um grito zangado quando quero simplesmente ficar sozinha, um pedido para que me deixe só mais cinco minutos antes de ir ter com ela.
Por tudo isto me tiro a mim própria do sério com este meu novo estado de impaciência crónica. Simplesmente porque ela não merece menos de mim, nem metade de mim.
Não merece uma mãe diferente só porque decidi empreender mais uma vez este caminho.
Sei que vai passar. Quando este calor infernal se for embora, também eu vou ficar mais leve. Mas até lá, apenas posso assegurar-lhe que a amo imensamente e que a culpa deste meu estado emocional não é dela... É do PAI!!!!!
Sei que não sou perfeita, que tenho momentos melhores, outros piores e ela já aprendeu a conhecer-me também, mas quando decidi que ia enveredar por este caminho da maternidade, foi com plena consciência de que ia pôr no mundo alguém que não tinha pedido para existir.
Não foi um capricho, uma carência biológica, um ir na maré. Foi uma decisão com os dois pés na terra e o coração nas mãos. Uma decisão de peso que iria mudar o rumo dos meus passos para o resto da vida e eu sabia disso.
Com ela chegou tudo o que não sabia possível e uma capacidade quase infinita de me reinventar todos os dias. Em vez de um grunhido mal humorado às 7 da manhã quando a voz dela me acorda, sai-me um sorriso ensonado e forçado.
Em vez de um grito zangado quando quero simplesmente ficar sozinha, um pedido para que me deixe só mais cinco minutos antes de ir ter com ela.
Por tudo isto me tiro a mim própria do sério com este meu novo estado de impaciência crónica. Simplesmente porque ela não merece menos de mim, nem metade de mim.
Não merece uma mãe diferente só porque decidi empreender mais uma vez este caminho.
Sei que vai passar. Quando este calor infernal se for embora, também eu vou ficar mais leve. Mas até lá, apenas posso assegurar-lhe que a amo imensamente e que a culpa deste meu estado emocional não é dela... É do PAI!!!!!
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
O Triângulo das Bermudas, ou Nas Bermudas
Venho aqui falar de um mal que acomete muitas mulheres por esses campos fora, um mal que decidi apelidar de Síndrome Triângulo das Bermudas, apesar de muitas vezes se dar nas próprias das bermudas.
Não é só a Dona Dolores que sofre do síndrome, ela apenas serve para ilustrar com detalhe aumentado esta, digamos, deficiência visual que toma conta das mulheres que saem à rua com o seu triângulo bem vincado pelas calças que envergam.
Será que não reparam mesmo que têm ali a sua coisa desenhada ao pormenor, ou simplesmente gostam de a vincar e a exibir aos olhares mais inocentes?
Não sou muito dada a falar de moda, de roupa, de fashion, de out-of fashion, mas definitivamente esta é uma coisa que me desagrada e muito. Só me apetece chegar perto delas e puxar-lhes as calças até aos sovacos, pois já que é para vincar que se vinque como deve ser.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Estado de Graça só Para quem Pode
Hoje sinto-me a pessoa mais velha do mundo. Quem inventou a idílica ideia que a gravidez é um perpétuo estado de graça nunca viveu comigo durante os 9 meses graciosos.
Cheia de afrontamentos, suspiro por tudo e por nada, impaciento-me quando não me entendem à primeira, encolerizo-me quando não me entendem à segunda, tremo quando estou mais de três horas sem comer.
As calças com aquele elástico que não aperta caem-me pelo rabo abaixo, fazendo-me sentir a mulher menos sexy que alguma vez caminhou no passeio das estrelas (tirando a MFL). A frase "Ó Mããããããe" ocupa todo o espaço sonoro dos meus minutos e odeio não ter paciência para ela.
Já troquei 3 pares de sapatos que acho maravilhosos na sapataria, mas depois de andar 200 metros percebo que foram a décima quinta má compra do mês.
Sinto que não sou suficientemente mimada e que ninguém aqui em casa me trata de forma mais suave e tolerante por estar a gerar um minúsculo ser dentro de mim.
Ninguém tem paciência para me aturar, mas toda a gente se queixa da minha falta de paciência.
Enfim, podia continuar, mas sinto que há pessoas com problemas a sério que iriam achar uma afronta estas minhas queixas quotidianas, por isso sigo em frente, sempre à espera de amanhecer de bem com o universo, mas com a certeza interior que a gravidez, pelo menos para quem não tem criados, é um estado muito próximo da terceira idade.
Cheia de afrontamentos, suspiro por tudo e por nada, impaciento-me quando não me entendem à primeira, encolerizo-me quando não me entendem à segunda, tremo quando estou mais de três horas sem comer.
As calças com aquele elástico que não aperta caem-me pelo rabo abaixo, fazendo-me sentir a mulher menos sexy que alguma vez caminhou no passeio das estrelas (tirando a MFL). A frase "Ó Mããããããe" ocupa todo o espaço sonoro dos meus minutos e odeio não ter paciência para ela.
Já troquei 3 pares de sapatos que acho maravilhosos na sapataria, mas depois de andar 200 metros percebo que foram a décima quinta má compra do mês.
Sinto que não sou suficientemente mimada e que ninguém aqui em casa me trata de forma mais suave e tolerante por estar a gerar um minúsculo ser dentro de mim.
Ninguém tem paciência para me aturar, mas toda a gente se queixa da minha falta de paciência.
Enfim, podia continuar, mas sinto que há pessoas com problemas a sério que iriam achar uma afronta estas minhas queixas quotidianas, por isso sigo em frente, sempre à espera de amanhecer de bem com o universo, mas com a certeza interior que a gravidez, pelo menos para quem não tem criados, é um estado muito próximo da terceira idade.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Beleza Desarmante

Em frente à bomba de gasolina onde costumo abastecer a viatura está o espaço reservado para os cartazes de campanha do PSD. Já repararam que cada partido parece ter o seu espacinho bem guardado?
Infelizmente a bomba tem bons preços e eu lá aguento estóicamente aquela senhora que me guarda enquanto enfio o pinchavelho do gasóleo na cavidade própria.
Mas ultimamente, desde que a Manela levou um not-so-extreme-makeover nas ventas, que aquilo me custa cada vez mais. Ao ponto de ter que abastecer de costas voltadas para o cartaz, aterrorizada, apavorada com aquela laca, aquele gloss labial, o blush, aquele colarzinho de pérolas sempre presente e aquela postura tão descontraída de quem está mesmo bem na sua própria pele, de quem se sente sexy, sensual e tudo o que uma mulher da política tem direito.
Não consigo evitar recordar aquela velhinha anedota de alentejanos em que o marido, ao ver a esposa arranjar-se com maquilhagem lhe pergunta:
- Ó melhere porque é que te estás pintando?
- Ó home p'ra ficar mais bonita.
- Ah, então porque é que não ficas?
Nota de Rodapé de extrema importância e vitalidade: Isto não quer dizer que seja, ou deixe de ser do PSD, pois sou uma verdadeira apartidária. Quer apenas dizer que tenho medo, muito medo da Manela e do seu carisma.
Ó Mããããe!!!!!

Cometi o erro de emprestar o temporizador da cozinha (ou alarme inútil para a comida não se queimar) à minha filha. Não quer outra coisa. Regula o relógio e roda-o de volta até à campainha para me avisar que o que quer que está a fazer terminou.
Se estiver a ver o Winnie The Pooh na televisão, assim que termina o episódio roda aquilo e TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIM "Ó Mãe, já acabou o Pooh!!!", "Ó mãe já está na hora de sairmos!!!!", "Ó Mãe olha já tenho fome!!!".
Mas ontem teve a ideia do milénio que foi levar aquilo para a casa de banho enquanto satisfazia as suas necessidades sólidas. Passados uns minutos oiço a campainha tocar e a sua voz que me gritava:
" Mãe já está prontinho!!!"
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Em Agosto
Em Agosto não se pode encomendar um tecido para forrar o sofá, a fábrica está fechada.
Em Agosto não se pode marcar uma consulta, o médico está de férias.
Em Agosto não se pode parir, a nossa médica não está.
Em Agosto não se pode viver nos locais onde os outros estão de férias, por isso vai-se de férias para outro lugar qualquer.
Em Agosto a Quarteira e Armação de Pêra ficam ainda mais feias e o Algarve ainda mais parecido com um gigantesco dormitório sem infra-estruturas que o suportem.
Em Agosto não há ninguém que nos venha desentupir um cano, abrir-nos a porta quando nos esquecemos da chave dentro de casa.
Em Agosto a música que nos dão quando esperamos que nos atendam de um qualquer serviço telefónico prolonga-se ainda mais que o normal.
Em Agosto não se pode morrer, pois os serviços fúnebres estão a meio gás e não há homens suficientes para carregar o caixão.
Em Agosto há todo um ritmo inerente. Qualquer coisa que não se explica, que se aceita com um encolher de ombros resignado. Em Agosto há que parar faça chuva, sol, vento, trovoada, tufão, terramotos.
Confesso que a única coisa boa de Agosto é andar em Lisboa de carro.
Em Agosto não se pode marcar uma consulta, o médico está de férias.
Em Agosto não se pode parir, a nossa médica não está.
Em Agosto não se pode viver nos locais onde os outros estão de férias, por isso vai-se de férias para outro lugar qualquer.
Em Agosto a Quarteira e Armação de Pêra ficam ainda mais feias e o Algarve ainda mais parecido com um gigantesco dormitório sem infra-estruturas que o suportem.
Em Agosto não há ninguém que nos venha desentupir um cano, abrir-nos a porta quando nos esquecemos da chave dentro de casa.
Em Agosto a música que nos dão quando esperamos que nos atendam de um qualquer serviço telefónico prolonga-se ainda mais que o normal.
Em Agosto não se pode morrer, pois os serviços fúnebres estão a meio gás e não há homens suficientes para carregar o caixão.
Em Agosto há todo um ritmo inerente. Qualquer coisa que não se explica, que se aceita com um encolher de ombros resignado. Em Agosto há que parar faça chuva, sol, vento, trovoada, tufão, terramotos.
Confesso que a única coisa boa de Agosto é andar em Lisboa de carro.
Como Ganhar o Dia em 10 Minutos

Ontem enquanto fazia o almoço cheia de pressa deixei cair o pacote de arroz no chão e milhares de grãos barulhentos espalharam-se por tudo quanto era sítio, frincha, abertura, debaixo da máquina da loiça, no meu cérebro. Um verdadeiro pesadelo. Enquanto vociferava furiosa comigo própria e com a minha estupidez, a Alice entrou na cozinha alarmada pelo meu pânico e ao ver aquele gigantesco tapete de cereal no chão da cozinha:
- Espera aí mãe, não te preocupes.
E correu para dentro, regressando com uma panelinha de brincar. Ajoelhou-se no chão e começou a apanhar grão, a grão, com uma dedicação enternecedora.
Sem grande consciência da tarefa utópica que acabara de iniciar, dedicava-se de corpo e alma a ajudar a mãe para lhe tirar a aflição do rosto.
Não precisei de rigorosamente mais nada para ganhar o dia.
E quando de aspirador em punho lhe mostrei como afinal de contas não era assim tão dramático, ela sorriu com a sua panelinha cheia de arroz nas mãos e disse:
- Estás a ver não era preciso gritares, és mesmo tonta sabes?
- Sei Alice, por acaso até sei.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Cabelos ao Vento

Já vos disse que odeio praia no verão, mas aqui fica mais uma vez esta oração interior que rezo sempre no caminho para o areal:
Odeio Praia No Verão, odeio praia no verão.
Rezava eu esta oração sobre a espreguiçadeira naquela praia algarvia enquanto dividia uma Bola de Berlim com a Alice quando uma senhora de idade decide alugar a espreguiçadeira vizinha da nossa.
A esta altura estão vocês a dizer:
Ai que fina, na espreguiçadeira! Ai que tia!
Mas não meus queridos, eu sou é tremendamente comodista e sei que já não consigo aguentar com o lombinho no chão por muito tempo.
Continuando, a senhora de idade começa a sua lenta dança de strip-tease, deixando a nu toda a sua pele já um pouco encarquilhada debaixo de um ousado biquini e eis se não quando se agacha de traseiro na minha cara para compor a toalha. A bola de berlim pára a meio caminho, pois a minha boca paraliza-se de espanto ao ver que na minha direcção esvoaçam cabelos, mas não cabelos desses presos no escalpe. Cabelos das partes baixas, se é que me faço entender. Longos, muito longos, mais precisamente até ao joelho grisalhos, despudorados. Eles voam, voam e ela ali, a julgar-se a velhota mais sexy do planeta de rabo virado para mim. Só tenho tempo de proteger a Bola de Berlim de uma eventual largada de (perdoem-me) pintelheira sobre o bolo e virar-me para o lado cheia de vontade de vomitar as tripas.
O Hugo chega do mar e perante a minha expressão chocada na direcção da senhora bate os olhos na cabeleira púbica e exclama:
- Olha! Barbas de milho!
sábado, 8 de agosto de 2009
A Importância de Nos Sentirmos Assim
Acho que no fundo o que todos precisamos é de nos sentirmos importantes na vida de alguém. Pode ser na vida de um filho, de um marido, de uma mãe, de uma irmã, de um amigo, ou até de alguém que se cruza no nosso caminho por poucos minutos.
Porque quantificarmos aquilo que valemos vale mil vezes mais pelo olhar dos outros do que pelo nosso próprio olhar.
Posso até saber que faço bem o meu trabalho, mas um pequeno elogio do meu patrão é um incentivo melhor que gasolina.
Um médico pode sentir-se a pessoa mais competente do mundo, mas se alguém lhe agradece por lhe ter salvo a vida, ou até por algo mais pequeno, mas tão importante, como lhe ter aliviado a dor, tenho a certeza que se sentirá recompensado pelas horas de banco.
Uma mãe pode sentir que cumpre o seu dever, mas quando vê o sorriso nos lábios do filho, sente que valeu a pena.
Uma mulher pode até saber que é amada, mas se não ouvir de vez em quando que ainda importa, que ainda representa mais do que uma peça de mobília, acabará transformada nas suas próprias tarefas, perdendo-se.
Por isso enquanto importarmos para alguém vamos sempre amar-nos mais um bocadinho...
Porque quantificarmos aquilo que valemos vale mil vezes mais pelo olhar dos outros do que pelo nosso próprio olhar.
Posso até saber que faço bem o meu trabalho, mas um pequeno elogio do meu patrão é um incentivo melhor que gasolina.
Um médico pode sentir-se a pessoa mais competente do mundo, mas se alguém lhe agradece por lhe ter salvo a vida, ou até por algo mais pequeno, mas tão importante, como lhe ter aliviado a dor, tenho a certeza que se sentirá recompensado pelas horas de banco.
Uma mãe pode sentir que cumpre o seu dever, mas quando vê o sorriso nos lábios do filho, sente que valeu a pena.
Uma mulher pode até saber que é amada, mas se não ouvir de vez em quando que ainda importa, que ainda representa mais do que uma peça de mobília, acabará transformada nas suas próprias tarefas, perdendo-se.
Por isso enquanto importarmos para alguém vamos sempre amar-nos mais um bocadinho...
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Ouvir Para Lembrar
Água salgada, risos, areia da praia nos sapatos, praia à luz do luar, mais risos, cabelos ao vento, cheiro a mota nos cabelos, mais risos. Noites sem vento, imperiais, histórias iventadas ao sabor das horas sem pressa, beijos sonhados, mão dentro da mão, inocência, sonhos, Seagul, News, entrar em casa tarde em silêncio, risos, dores de cabeça na manhã seguinte.
Sempre que oiço o Don Henley a cantar Boys Of Summer sinto tudo isto em poucos minutos e sorrio sempre, sempre.
É definitivamente uma música que está bem marcada dentro de mim.
As minhas Aventuras em Duas Rodas
Existe um complot algures escondido na camada de ozono contra a minha pessoa, tenho a certeza disso, pois sempre, repito, sempre que estou atrasada para chegar a algum sítio, aterra à minha frente, vinda sabe-se lá de onde, uma cafeteira destas.

O seu condutor convencido que ninguém o apanha e que ninguém atrapalha com a sua velocidade absolutamente estonteante, fica bem no meio da estrada de curvas, onde é impossível ultrapassar. Costas para a frente rasgando o vento, apesar de se encontrar dentro daquela cápsula de lata, cotovelos levantados, qual homem bala e olhos semi-cerrados para que os golpes de vento provocados pelos 200Km hora não o ceguem.
Atrás dele lá sigo eu olhando o relógio de segundo a segundo e com uma vontade louca de encostar o meu carro à traseira daquela chaleira, dando-lhe um empurrãozinho.
E enquanto percorro os quilómetros que me separam do meu destino longínquo, lembro-me da minha primeira mota, uma Target e nas figuras tristes que também eu fazia sobre ela.
Quando atingia os 70 Km/hora, vento na cara, altamente convencida que ninguém me apanhava naquela bomba e subitamente olhava para trás e via a fila que se formara atrás de mim. Tolhida pela vergonha, encolhia-me toda à direita e reduzia-me à minha insignificância. Não, eu não tinha uma CBR 600 (tão na moda que estava), eu tinha uma Target 50. Lembro-me quando no meio de tanta vergonha não vi aquela curva cheia de areia e me espatifei numa longa derrapagem.
Recolhi a acelera riscada do chão de alcatrão e toda dorida segui para as aulas. Não entendendo de todo a cara de espanto dos meus colegas quando entrei na sala.
- Então Ana o que é que aconteceu?
- Nada, porquê? (jamais admitiria o espeta estúpido e nada heróico)
- Já viste as tuas calças?
E olhando para trás percebi que no lugar dos bolsos traseiros estavam agora dois buracos. Pena não darem para me esconder dentro deles...

O seu condutor convencido que ninguém o apanha e que ninguém atrapalha com a sua velocidade absolutamente estonteante, fica bem no meio da estrada de curvas, onde é impossível ultrapassar. Costas para a frente rasgando o vento, apesar de se encontrar dentro daquela cápsula de lata, cotovelos levantados, qual homem bala e olhos semi-cerrados para que os golpes de vento provocados pelos 200Km hora não o ceguem.
Atrás dele lá sigo eu olhando o relógio de segundo a segundo e com uma vontade louca de encostar o meu carro à traseira daquela chaleira, dando-lhe um empurrãozinho.
E enquanto percorro os quilómetros que me separam do meu destino longínquo, lembro-me da minha primeira mota, uma Target e nas figuras tristes que também eu fazia sobre ela.
Quando atingia os 70 Km/hora, vento na cara, altamente convencida que ninguém me apanhava naquela bomba e subitamente olhava para trás e via a fila que se formara atrás de mim. Tolhida pela vergonha, encolhia-me toda à direita e reduzia-me à minha insignificância. Não, eu não tinha uma CBR 600 (tão na moda que estava), eu tinha uma Target 50. Lembro-me quando no meio de tanta vergonha não vi aquela curva cheia de areia e me espatifei numa longa derrapagem.
Recolhi a acelera riscada do chão de alcatrão e toda dorida segui para as aulas. Não entendendo de todo a cara de espanto dos meus colegas quando entrei na sala.
- Então Ana o que é que aconteceu?
- Nada, porquê? (jamais admitiria o espeta estúpido e nada heróico)
- Já viste as tuas calças?
E olhando para trás percebi que no lugar dos bolsos traseiros estavam agora dois buracos. Pena não darem para me esconder dentro deles...
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Acende o Meu Fogo, ou Já Acabavas Não?
Não vos acontece estarem a ouvir uma música que até gostam bastante e de repente uma má disposição tomar conta da vossa mente? Como um martelar de fundo, a princípio ténue, quase inaudível, depois agudo, enlouquecedor, gritante. Sentem cada prego a ser cravado na mona com a precisão de um bisturi e perguntam:
Mas o que é isto? Estava tão bem e agora... Agora só me apetece desatarrachar a cabeça!!!!!
Então dão-se conta que a gaja a cantar no rádio ainda não se calou, prolonga a música como um moribundo que quer viver por mais um instante. E geme, geme, geme, adiando o final, como se cada minuto extra lhe fosse valer um Grammy.
Aconteceu-me hoje com uma música da Nely Furtado no rádio do carro (Try).
E agora que penso a fundo na coisa, há centenas de músicas que podiam terminar mais cedo e que se arrastam por minutos que parecem dias, por dias que parecem anos.
Quem não conhece o Light My Fire dos Doors? Digam-me com toda a sinceridade. Sou só eu que acho que aqueles 8 minutos de órgão só se aguentam com uma grande dose de ácidos na caixa craniana?
Não acham que eles estavam tão, mas tão cheios de LSD quando compuseram aquela música que se não fosse um deles ter desmaiado durante as gravações aquela merda teria ficado com 24 horas de órgão?
Mas o que é isto? Estava tão bem e agora... Agora só me apetece desatarrachar a cabeça!!!!!
Então dão-se conta que a gaja a cantar no rádio ainda não se calou, prolonga a música como um moribundo que quer viver por mais um instante. E geme, geme, geme, adiando o final, como se cada minuto extra lhe fosse valer um Grammy.
Aconteceu-me hoje com uma música da Nely Furtado no rádio do carro (Try).
E agora que penso a fundo na coisa, há centenas de músicas que podiam terminar mais cedo e que se arrastam por minutos que parecem dias, por dias que parecem anos.
Quem não conhece o Light My Fire dos Doors? Digam-me com toda a sinceridade. Sou só eu que acho que aqueles 8 minutos de órgão só se aguentam com uma grande dose de ácidos na caixa craniana?
Não acham que eles estavam tão, mas tão cheios de LSD quando compuseram aquela música que se não fosse um deles ter desmaiado durante as gravações aquela merda teria ficado com 24 horas de órgão?
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Gôdo e Fiél Escudeira
Tlim-Tlão Tlim-Tlão.
- Quem é?
- Correio!
Mais uma multa por carta registada, penso eu enquanto me encaminho para o portão.
- Bom dia!
- Gôdo Casaca e Fiél Escudeira Alice é aqui?
- WTF???? Hmmm, acho que sim.
Enquanto seguro o envelope na mão e vejo o remetente faz-se luz: "De Mel, Gabi e Hugo".
Melissa sua grande maluca! Foste responsável pela primeira carta de um feto!!!!
A Alice pulou de alegria enquanto abria o envelope e descobria um bâton da Hello Kitty, escusado será dizer que já se besuntou toda com ele, enquanto dizia:
- A Melissa é querida mãe!
E não é que é mesmo?
Obrigada Melissa, querida é pouco. Depois de uma manhã a aspirar era só isto que eu precisava. Melhor só se te tivesses lembrado da mãe do Gôdo e da Fiél Escudeira e em vez do carteiro me tivesse batido à porta uma empresa de limpezas:)
Em Limpeza
Depois de mais uma noite de porrada com a minha almofada. Acordei e decidi que estava na altura de aspirar a casa. Afinal de contas a rapariga de nacionalidade ucraniana que vem uma manhã por semana, decidiu algarviar, deixando-me na mão por alguns dias e eu tenho que provar a mim própria que sou capaz de domar o bicho chamado tarefa doméstica tão bem como uma ucraniana boazona qualquer.
Por isso aqui a grávida que tudo faz mesmo estando grávida, pegou no aspirador e aspirou. Como fazer mais do que uma tarefa no mesmo dia é missão utópica para os meus ossos preguiçosos decidi ASPIRAR no sentido lato do termo.
Aspirei a mesa de jantar, a mesinha de centro, a secretária, o teclado do computador, as capas dos livros, as portas, acidentalmente os pés da Alice. Chiça que me saí mesmo bem. Só não sei como não me aspirei para dentro do saco.
Sou tão esperta que até dói.
Agora só tenho que arranjar um método de limpar as casas de banho neste esquema. Pensei pegar numa esfregona e arrumar o assunto desde as sanitas às banheiras.
A propósito de limpezas, já repararam na quantidade de merda que se esconde no teclado de um computador? Acho que aspirei um bife lá de dentro.
Por isso aqui a grávida que tudo faz mesmo estando grávida, pegou no aspirador e aspirou. Como fazer mais do que uma tarefa no mesmo dia é missão utópica para os meus ossos preguiçosos decidi ASPIRAR no sentido lato do termo.
Aspirei a mesa de jantar, a mesinha de centro, a secretária, o teclado do computador, as capas dos livros, as portas, acidentalmente os pés da Alice. Chiça que me saí mesmo bem. Só não sei como não me aspirei para dentro do saco.
Sou tão esperta que até dói.
Agora só tenho que arranjar um método de limpar as casas de banho neste esquema. Pensei pegar numa esfregona e arrumar o assunto desde as sanitas às banheiras.
A propósito de limpezas, já repararam na quantidade de merda que se esconde no teclado de um computador? Acho que aspirei um bife lá de dentro.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
A Almofada Perfeita
Ando num estado tal de irritação sonolenta que ofereço um prémio a quem me trouxer a almofada perfeita, qual sapatinho de cristal que servirá na minha carola.
Já tive Tempur, de penas, de micro-fibra, de polyiester, da colunex, da molaflex, da merdex, altas, baixas, médias, arredondadas, quadradas, rectangulares, circulares.
Acreditem já tive de tudo na cama e nenhuma, repito, nenhuma me satisfaz.
Quando me viro de barriga para cima prefiro sem almofada, para o lado esquerdo apetece-me uma certa textura, quando me viro para o lado direito, uma mais cheiinha convinha-me mais.
Eu dou pancadinhas, ajeitando melhor a forma, dobro-a em dois para um croquete mais a jeito, espalmo-a para não me dobrar tanto o pescoço, atiro-a para o chão quando simplesmente me apetece deixar o gasganete estalar de exaustão, enfio o braço dobrado debaixo da bochecha, abraço-me a mim própria buscando consolo e no meio de tudo isto acordo partida, de pescoço dorido e a gemer de sono.
Já implico com o colchão, com o Hugo, com a cabeceira da cama, com a própria cama, com o quarto. Acho que temos que mudar tudo, a culpa é do contexto.
Ai o meu pescoço!!!!!!!!!!!!!
Por isso fica aqui a promessa, quem conseguir a almofada que me sirva em todas as posições recebe um prémio: Todas as minhas almofadas antigas e olhem que dá para abastecer dois hotéis de 12 andares com 1200 quartos cada um.
Já tive Tempur, de penas, de micro-fibra, de polyiester, da colunex, da molaflex, da merdex, altas, baixas, médias, arredondadas, quadradas, rectangulares, circulares.
Acreditem já tive de tudo na cama e nenhuma, repito, nenhuma me satisfaz.
Quando me viro de barriga para cima prefiro sem almofada, para o lado esquerdo apetece-me uma certa textura, quando me viro para o lado direito, uma mais cheiinha convinha-me mais.
Eu dou pancadinhas, ajeitando melhor a forma, dobro-a em dois para um croquete mais a jeito, espalmo-a para não me dobrar tanto o pescoço, atiro-a para o chão quando simplesmente me apetece deixar o gasganete estalar de exaustão, enfio o braço dobrado debaixo da bochecha, abraço-me a mim própria buscando consolo e no meio de tudo isto acordo partida, de pescoço dorido e a gemer de sono.
Já implico com o colchão, com o Hugo, com a cabeceira da cama, com a própria cama, com o quarto. Acho que temos que mudar tudo, a culpa é do contexto.
Ai o meu pescoço!!!!!!!!!!!!!
Por isso fica aqui a promessa, quem conseguir a almofada que me sirva em todas as posições recebe um prémio: Todas as minhas almofadas antigas e olhem que dá para abastecer dois hotéis de 12 andares com 1200 quartos cada um.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
A Tua Mão Na Minha
Tudo parece parar à minha volta quando seguro a tua mão na minha, quando te tenho presa por essa sensação passageira de segurança.
Tudo parece deixar de importar quando os teus cinco pequenos dedos se esticam na palma da minha mão pedindo-me que não os solte enquanto o medo não passar.
Nenhum outro gesto me faz sentir mais próxima do que dar-te a mão enquanto atravessamos aquela rua movimentada pela vida dos outros.
Nenhum outro gesto simboliza tão perfeitamente esta nossa união, a minha mão estará sempre aqui e a tua estará quando precisares de mim...
Tudo parece deixar de importar quando os teus cinco pequenos dedos se esticam na palma da minha mão pedindo-me que não os solte enquanto o medo não passar.
Nenhum outro gesto me faz sentir mais próxima do que dar-te a mão enquanto atravessamos aquela rua movimentada pela vida dos outros.
Nenhum outro gesto simboliza tão perfeitamente esta nossa união, a minha mão estará sempre aqui e a tua estará quando precisares de mim...
Como tu me Entendes Filha
- Mãe sabes que te adoro?
Bochechas vermelhas, olhar brilhante e convencido da mãe, neste caso eu.
- Eu também te adoro, um abraço vá.
E no meio do abraço o elogio continua:
- Sabes porquê?
- Porquê Alice?
- Porque tu és a minha criada.
*Não consegui rebater esta parte do elogio. É que tenho dias em que me sinto precisamente assim. Uma criada, mas sem a parte do trabalho remunerado...
Bochechas vermelhas, olhar brilhante e convencido da mãe, neste caso eu.
- Eu também te adoro, um abraço vá.
E no meio do abraço o elogio continua:
- Sabes porquê?
- Porquê Alice?
- Porque tu és a minha criada.
*Não consegui rebater esta parte do elogio. É que tenho dias em que me sinto precisamente assim. Uma criada, mas sem a parte do trabalho remunerado...
domingo, 2 de agosto de 2009
Paneleirices Másculas
Porquê a paneleirice de tantos homens pelo seu carro? Será que é mesmo uma extensão da sua virilidade como dizem por aí?
Como, cruzes, como são eles capazes de enfrentar filas domingueiras intermináveis na estação de serviço só para lavarem o bólide nesse dia dedicado ao fato de treino listado de nylon e ao brilho do automóvel?
Porque carga de água me decoram a carripana com almofadas, naprons, folhas de eucalipto estonteantemente bem cheiroso, mais as árvores com essência enjoativa no retrovisor?
Porque é que o mais macho dos machos massacra a mulher de cada vez que lhe toca no membro, quer dizer, no carro e inspecciona a pintura, a pele do estofo, a manete das mudanças que ficou lassa depois da mão pouco delicada da esposa sobre ela ter trabalhado.
Porque é que o maior dos javardos dentro de casa é o maior do picuinhas no interior da sua viatura?
Alguém que me esclareça por favor, porque aqui em casa ninguém me soube explicar. Até porque o espécime masculino que por aqui habita tem papéis gordurosos de Cheeseburguer do ano passado dentro do porta luvas.
Como, cruzes, como são eles capazes de enfrentar filas domingueiras intermináveis na estação de serviço só para lavarem o bólide nesse dia dedicado ao fato de treino listado de nylon e ao brilho do automóvel?
Porque carga de água me decoram a carripana com almofadas, naprons, folhas de eucalipto estonteantemente bem cheiroso, mais as árvores com essência enjoativa no retrovisor?
Porque é que o mais macho dos machos massacra a mulher de cada vez que lhe toca no membro, quer dizer, no carro e inspecciona a pintura, a pele do estofo, a manete das mudanças que ficou lassa depois da mão pouco delicada da esposa sobre ela ter trabalhado.
Porque é que o maior dos javardos dentro de casa é o maior do picuinhas no interior da sua viatura?
Alguém que me esclareça por favor, porque aqui em casa ninguém me soube explicar. Até porque o espécime masculino que por aqui habita tem papéis gordurosos de Cheeseburguer do ano passado dentro do porta luvas.
sábado, 1 de agosto de 2009
No Silêncio
E aqui estou eu. Sozinha num dos inúmeros recantos deste hotel à beira mar. A Alice na piscina interior com o pai, os hóspedes atarefados nos seus chinelos molhados e barulhentos, os empregados do restaurante a levantarem as mesas do pequeno-almoço e eu aqui, a desfrutar do meu silêncio no meio do ruído dos outros.
Cada vez mais estes momentos são uma benção para o meu corpo cansado da cabeça que por vezes pensa em demasia.
É como se me restabelecesse para o que passou e para o que aí vem.
Todos deveriamos ter estes momentos de puro silêncio, em que só nós importamos para depois tudo ser relativizado.
Nós mulheres, mães, provedoras de bem estar temos obrigação de nos sentarmos pelo menos 10 minutos por dia e não fazermos rigorosamente nada, além de ficarmos neste silêncio que nos enche.
Cada vez mais estes momentos são uma benção para o meu corpo cansado da cabeça que por vezes pensa em demasia.
É como se me restabelecesse para o que passou e para o que aí vem.
Todos deveriamos ter estes momentos de puro silêncio, em que só nós importamos para depois tudo ser relativizado.
Nós mulheres, mães, provedoras de bem estar temos obrigação de nos sentarmos pelo menos 10 minutos por dia e não fazermos rigorosamente nada, além de ficarmos neste silêncio que nos enche.
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