sexta-feira, 20 de junho de 2014

Mais árvores, menos pessoas

A cada ano que passa por este velho galho que é a minha pessoa, percebo que as pessoas são um bicho muito estranho e que as árvores o ser mais perfeito que existe.
Não enveredarei pelo caminho dos gatinhos e cachorrinhos fofos, mas pelos seres que nos dão tudo sem nada pedirem em troca.
Passarei o dia a abraçar árvores :)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em contagem decrescente para...



Não, não é para escrever mais uma sequela do Jesse e da Céline (infelizmente), nem para rever pela décima vez um dos filmes da minha vida.
Também não é para deitar-me no colo do Ethan Hawke e suspirar-lhe divagações sobre as banalidades da vida.
Mas eu caia já aqui redonda se não tenciono andar na roda gigante :)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

É nas coisas simples mesmo

E hoje, num dia particularmente patético e sem graça, duas coisas tão simples que até assustam trouxeram-me um raio de sol (além do sol propriamente dito, claro):
A minha querida Vânia, da editora do meu livro enviou-me este link
E a minha avó decidiu trazer-me ovos verdes para o jantar.
Agora digam-me se não é mesmo nas coisas simples que reside a felicidade. Só foi pena não ter uma cerveja para acompanhar os ovos verdes, porque de resto o meu coração sentiu-se sobreaquecido.
Espero nunca perder a capacidade de parar para valorizar as entrelinhas.

Ainda não li o livro da cocó sobre a culpa

que as mães sentem desde o útero até ao céu, mas sei que é mesmo assim e que, por muito que saibamos que somos boas mães, há sempre um insidioso complexo na parte de trás da alma que nos tolda o raciocínio.
Não podemos mostrar que nos vamos abaixo, que estamos à beira de um ataque de pânico, de nervos, ou de puro desespero por não conseguirmos gerir a nossa imperfeição.
Não podemos mostrar que somos simplesmente incapazes de fazer o jantar, porque nos apetece ficar a fitar um grão de poeira que se depositou na esquina da parede, ou que não estamos interessadas nos pequenos pulinhos ao pé coxinho que precisam de aplausos.
Não podemos mostrar que, depois de um dia cheio de emoções intensas e de trabalho que nos desgasta o cérebro, não temos mais cérebro para comandar sequer os músculos do nosso rosto para que sorria.
Não podemos mostrar que sentimos saudades de podermos simplesmente ficar tristes, ou doentes.
No meio de todo este turbilhão de culpas ancestrais que nos rege desde os primórdios dos tempos, tropecei nesta bela citação (sim, nem todas são do Einstein a falar de cachorrinhos) e que, de facto me amainou o desespero da culpa:



terça-feira, 10 de junho de 2014

Dos Desgostos de Amor em 2009 e Sempre

Hoje, ao andar para trás no tempo deste blogue,dei de caras com o post que teve mais buscas no Google e que mais pessoas conduziu a este humilde-a-puxar-para-o patético blog. Hoje, ao andar para trás neste espaço um bocadinho esquizofrénico, que nunca seguiu uma linha a direito e que tenho deixado ao abandono por tantos motivos que não mereciam a minha negligência, retomo a leitura das minhas parvoíces e sai-me este post na rifa. Não sei se ainda é aquele que traz mais gente através do Google, pois simplesmente deixou de me importar os feeds e estatísticas de coisa nenhuma, mas sei que é capaz de ter feito algumas pessoas sentirem-se menos sós, por isso aqui fica ele de novo, 5 anos depois e com banda sonora a acompanhar.

Os Desgostos de Amor
Se me perguntarem do que mais tenho saudades no passado não é dos desgostos de amor.
De cada vez que os vejo bem lá atrás, enterrados às três pancadas, bem fundo, ou apenas à superfície sorrio pela paz, pelos dias sem atritos do presente.
Ainda lembro quando a dor me toldava a vida inteira, consumindo-me como uma espécie de sombra que me perseguia em cada música, filme, café, rua, perfume. Nada me trazia o esquecimento, nenhuma conversa era suficientemente anestesiante, nenhum filme suficientemente poderoso, nenhum livro ultrapassava o desgosto sentido bem nas entranhas de mim. Encarar os outros um martírio, explicar o que se passava uma tortura.
Nada, rigorosamente nada me esvaziava daquilo que me enchia o que precisava de espaço. Queria respirar e doía, queria conversar sobre outra coisa qualquer, mas na minha voz apenas habitava o desabafo, queria olhar um espaço em branco, mas tudo se preenchera com a sua imagem.
Os desgostos de amor consomem muito de nós e nada os aplaca além de um dia atrás do outro. Só mesmo o tempo, por muito lugar comum que possa soar, nos dá outra perspectiva de tudo.
Os desgostos de amor são como uma morte ao contrário, como ter que aprender a viver sem alguém que está vivo e ao nosso lado. Enterrar uma pessoa que vive é das tarefas mais hercúleas que se podem dar ao coração e o meu não tem a menor saudade de se sentir magoado



sexta-feira, 6 de junho de 2014

chuva

Hoje chove e as coisas mais importantes não estão.
Hoje chove e tudo aquilo que julgava certo é afinal feito do vidro fino da água.
Hoje chove e o calor insiste em manter-se arredado da minha janela.
Sim, o sol virá, porque é esse o movimento suposto das coisas da terra, que insiste na sua silenciosa agitação, apesar de nós estarmos quietos por dentro. Mas mesmo o sol será pouco para levar embora a água que ficou de tanta chuva.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Páginas Íntimas

"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de « lançar o Interseccionismo» — a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci."

Fernando Pessoa, 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Vida Interrompida

Ontem, ao folhear um livro juvenil, daqueles que estão nos escaparates e cuja capa é demasiado atractiva para não lhe pegarmos, percebi que estava cheio de letras de todos os tamanhos e cores, numa tentativa de apelar aos sentidos do jovem leitor. Não havia duas palavras com letras do mesmo estilo, nem cor. Desenhos, explosões, sublinhados, remetiam o texto para uma espécie de vómito sensorial, como se o livro precisasse de tudo aquilo para enfeitiçar o jovem leitor. Como se um texto de linhas limpas e tranquilas não bastasse.
Vendo bem, acho que podemos aplicar esta nova máxima de vómito sensorial a tudo na nossa vida.
Mil e uma dietas de todas as cores e feitios, que todos seguem e partilham, mil e uma fotografias de momentos nossos que não são verdadeiramente sentidos a menos que sejam partilhados por milhares de outras pessoas, mil e um pensamentos que não se realizam se não tiveram centenas de likes, ou comentários, mil e uma notícias, mil e um concertos ao vivo, mil e um livros cujas linhas fotografamos, mil e uma músicas que fazemos questão de mostrar que ouvimos, mil e uma vidas em que se transforma a nossa simples e não assim tão preenchida existência.
Já não sabemos estar no momento, a menos que o partilhemos. Já não sabemos confiar em nós próprios, a menos que uma falsa sensação de confiança nos seja incutida pelos seguidores virtuais.
Já não sabemos estar apenas a ler um livro, a ouvir uma música, numa fila de trânsito, num passeio por uma estrada à beira mar, sem sermos interrompidos pelo ruído virtual. Tal como nos livros juvenis, que interrompem constantemente a concentração, com explosões, cores e formatos desiguais, como se o jovem não pudesse, ou não conseguisse concentrar-se sem ruído, também a nossa vida caminha para o abismo do medo da solidão.
Estamos a perder a capacidade de estarmos num só lugar, dentro apenas de um único momento e de percebermos que a nossa vida não tem de ser constantemente perturbada para fazer sentido.
Os nossos melhores momentos não são para "guardar" junto de milhares de pessoas, mas dentro do nosso coração.
As melhores fotografias são aquelas que apenas o nosso olhar concentrado sabe captar e aqueles que amamos têm de estar à distância de uma conversa possível, de um olhar focado.
Até há uns tempos atrás achava as declarações do Miguel Sousa Tavares, sobre Facebook e afins, a roçar o extremismo islâmico, mas hoje consigo entender uma parcela do que ele proclama, do que ele visionou antes de tantos.
O facebook é uma ferramenta interessante e útil em muitas vertentes, sim, mas corre também o tremendo risco de nos fazer perder o foco e de nos fazer esquecer a vida tal como ela deveria ser, com cheiro, textura e arrebatamento concreto. Quando lhe atribuímos mais relevância do que ao chão debaixo dos nossos pés, quando entendemos mais importantes os elogios e mensagens públicas, do que as palavras ditas em privado, quando nos aventuramos a dizer em mensagens com conhecidos virtuais, o que não ousamos dizer olhos nos olhos e damos assim aso a aventuras que nos elevam, ainda que apenas virtualmente, o espírito, alguma coisa está terrivelmente mal na nossa sociedade e o facebook mais não é do que um patético palco de pessoas carentes de vida verdadeira.


mais do que inspirada aqui

segunda-feira, 26 de maio de 2014

X

Ontem era suposto haver eleições e o soberano povo, confrontado com as seguintes hipóteses:
Voto nulo, desenhando pequenos pénis, ou maminhas na quadrícula.
O Partido dos Animais e da Natureza, enquanto se apaga o charro antes de penetrar na urna.
Marinho Pinto e os seus modos sexys de homem do talho, de cutelo na mão a mandar todos para o grande pénis nigeriano.
O senhor de quem não recordo o nome, mas que tem uma cremalheira implantada e diz que faz parte da oposição.
Dois homens e um destino-que-foi-foder-o-trabalhador-em-geral-e-o-funcionário-público-e-reformados-em-particular.
Ganharam dois:
Os que disseram "que se fodam todos, vou continuar com o rabo alancado no sofá a ver a season completa do Game of Thrones e Marinho Pinto.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

trabalhar por gosto também cansa

Trabalhar por prazer também cansa, mas é no cansaço que encontro um prazer que andava arredado da minha vida: O gosto de descansar do meu trabalho em vocês.
Filhos chatos, tantas vezes refilões e exigentes, filhos que não me proporcionam folgas, nem fins de semana, filhos que me despertam antes das sete e me têm derreada antes das oito, mas de cheiro doce e sorriso brilhante.
Pudesse eu descansar de todas as fadigas limitando-me a encostar o meu rosto no vosso peito sereno e tudo seria sempre simples para mim.
Levei-te a ver o Concerto da Violleta ao cinema e surpreendi-me ao gostar de partilhar contigo aquele momento de pura cumplicidade. Olhei-te e vi uma menina crescida e sensível, já com gostos de pré adolescente. Deste-me a mão e cantaste as espanholadas todas que te encantam e eu achei-te aquela graça parva que acham todos os pais a coisas que mais ninguém entende.
Levei-te depois a um espetáculo maravilhoso no CCB, cheio de sombras e dança e mais uma vez descansei no teu olhar de pura rendição. Caminhámos de mão dada por Belém e disseste-me que não querias voltar para casa, que se estava bem ali comigo e descansei mais uma vez do trabalho e do resto do mundo apenas por te ter ali e por partilhar contigo o mundo pelos teus olhos de menina.
Quanto a ti, António, estás cada vez mais exigente, cada vez mais crescido e independente, fazes questão de assoar-te sozinho, deixando um terrível rasto de gosma pela cara toda, mas empunhando um sorriso de vitória pela pequena conquista de independência. Gostas de fazer tudo sozinho e de ter os teus momentos a sós, mas sei que ainda precisas de mim, quando te vens deitar ao meu lado no sofá só para me perguntares se está tudo bem comigo. Quando sorris tudo o resto parece assumir relevância pequena e quando me abraças, esqueço-me de como é complicado gerir tudo quando a vida não é só vocês.
Trabalhar por gosto também cansa e tenho andado cansada, demasiado. Mas espero que esse cansaço nunca me retire a capacidade de vos olhar como vocês me olham.

domingo, 11 de maio de 2014

Todos os Homens

Têm um pequeno talibã dentro deles.
Mais, ou menos adormecido, mais, ou menos disfarçado por camadas de anos e de gerações de suposta democracia e igualdade de direitos, mas ainda assim um talibã.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

impunidade

Depois de muito esmiuçar a lista de defeitos esmiuçáveis de um Estado de Direito, cheguei à conclusão de que o defeito que mais abomino é a impunidade.
A impunidade inerente a uma Justiça merdosa é um dos grandes factores que nos arrastam para o fundo do lodaçal em que nos encontramos.
Quem é que quer investir num país onde a justiça não funciona? Que tipo de pessoas atrai um país onde a justiça é uma anedota? Pessoas obviamente merdosas e sem escrúpulos.
Que tipo de pessoas forma um país onde a Justiça é uma piadola?
Pessoas que se calam, que não acreditam no poder de uma reclamação, de uma acção, de um grito para fazer valer os seus direitos. Pessoas que engolem e não choram (nada de analogias porcas), simplesmente porque não vale a pena chorar.
Pessoas que se esquecem que têm direitos, pois, na prática, é como se não os tivessem.
Pessoas que sabem e visualizam todo o percurso tortuoso que as espera se intentarem o que quer que seja contra quem os injustiçou.
Pessoas resignadas, chatas, taciturnas, com úlceras.
E tudo isto é triste, tudo isto é fado.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Consideração sem grandes variáveis

Alguém publicou um excerto de uma entrevista a Vasco Graça Moura e nessa entrevista ele dizia qualquer coisa como: O Estado não deve subsidiar cinema que apenas o próprio autor entende.
A pessoa que partilhou o excerto da entrevista mostrava a sua indignação. No meu caso, tive vontade de aplaudir de pé.
Chega de arte para próprio gáudio, ou para gáudio das elites crítico intelectuais às nossas custas.
Escrever para o público em geral e agradar-lhe. Esse sim é o grande desafio de quem deseja subsídios.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

desabafo ligeiro-como-quem-não-quer-a-coisa

Andamos todos calados, conformados, desinquietados, medrosos, neuróticos.
Andamos todos agradecidos pelos tostões que recebemos, pois que enfim, não podemos queixar-nos por ter tostões, já que tantos não os têm.
Andamos todos em vénias por termos ainda trabalho, ainda que esse trabalho seja um profundo excremento, e deixamos de reivindicar coisa melhor, pois que o melhor é agora muito pouco, nesta baixa de expectativas que nos injectaram durante o profundo coma troikiano.
Andamos todos acorrentados uns aos outros, correndo em maratonas, como gado, mas sem o objectivo de encontrarmos pastagem melhor, e partilhando frases virtuais de incentivo, cuja autoria é sempre de origem dúbia.
Andamos todos tão atormentados com as dietas detox, glúten free, enriquecidas com magnésico, anti oxidantes e laxantes. Andamos todos tão compenetrados no que fazem todos, no que leem todos, no que comem todos, que toda a nossa vida se transforma numa gigantesca e absurda obstipação.
E pronto, agora voltarei para a minha caverna, onde me refugío do universo social lá fora, e vou continuar a trabalhar, enquanto sorvo avidamente o meu sumo de espinafre com cebola, mas quente e em modo sopa.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Rita

Somos muito mais do que a data em que nascemos e o dia em que deixámos de viver.
Somos muito mais do que os números que marcam o dia em que chegámos e o dia em que partimos. Por isso hoje,tal como no resto de todos os dias, não me lembrei que era uma data tua. Talvez por ser a mais triste de todas as datas,talvez por me recusar a acreditar que agora não és mais do que o princípio e o fim, ficando o meio inteiro entre eles tolhido pela tristeza dos aniversários que se choram.
Farei questão de imaginar-te ainda um futuro, longe destes calendários que dão o compasso para a nossa tristeza e de celebrar todos os outros dias em que exististe.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O meu rapaz

De todos os meninos, calhaste-me tu. Sensível, meigo e tremendamente agarrado a mim.
De todos os meninos, calhaste-me tu, porque seguramente levaste contigo tanto do meu feitio, quando te formaste aqui dentro de mim.
Não sou daquelas mães que gosta de se rever nos filhos, pois sei-me carregada de coisas de que não gosto particularmente. Gosto de vê-los diferentes naquilo que não tenho de bom, mas também sei que nem sempre isso é possível e tento aceitá-lo, sem dramas.
Ainda não acertei bem no tom para que não fiques sentido quando quero que voes sem a minha ajuda, para que não me julgues dura, ou mil vezes pior, para que não penses, nesse teu peito pouco racional, que te gosto menos. Porque o meu amor por ti é directamente proporcional às minhas vãs tentativas de te ensinar que o mundo é um local seguro sem mim.
O meu amor por ti não se nota aos teus olhos, quando te deixo na escola a perguntares-me dezenas de vezes se te vou buscar, não se deixa ver quando pensas que já não te dou tanta importância. O meu amor por ti estará, agora, maioritariamente nos gestos que não compreendes e isso deixa-me sempre sem fôlego. Mas sei, ou quero acreditar que sei, que amanhã poderemos respirar fundo finalmente.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Não faz mal serem "vencidos"

Sou só eu que já vomito estas trampas?

Chavões que são fáceis de dizer, mas infinitamente complicados de empreender, frases feitas, que meio mundo parece seguir, publicar e aplaudir, mas que a nós, comuns mortais, nos custam realizar.
Não se preocupem com isso de fazerem tudo na perfeição e de conseguirem viver apenas no presente, sem expectativas e aura budista. Não se preocupem se acharem, de vez em quando, que a vida é fodida, porque a vida é fodida, de vez em quando, mesmo quando não existem verdadeiros dramas sobre nós , mesmo quando, aparentemente, temos tudo para sermos felizes. Não podemos controlar as emoções, ao ponto de não sentirmos um pequeno drama por coisas banais de vez em quando, ou por não sabermos lutar contra o quotidiano instalado, com a pose irrepreensível de tantos endeusados que parecem rodear-nos.
É que isto de ter ligações à internet e ver a vida editada dos outros, em fotografias idílicas e sempre felizes, sobe muito a fasquia. A malta das fotografias felizes tem uma vida normal nas entrelinhas, também chora, também grita com os putos, também se exalta e acha tudo uma valente merda de vez em quando.
Desculpem-se mais e vão andando em frente, com a única certeza de que voltarão atrás várias vezes e que se angustiarão com o futuro outras tantas, porque isso de viver apenas no presente é uma rebarbada utopia.




quarta-feira, 12 de março de 2014

A minha rua

tem nome de poeta, mas nela não há poesia, apenas merda, por canídeos polvilhada e simetricamente distribuída.
De tantos em tantos metros há um cagalhão, ora esborrachado pelas rodas dos carros, ou pelas solas de um ingénuo caminhante solitário, ora espalhado aos sete ventos, quando a caca é seca pela pobre alimentação, ora depositado com carinhoso afinco em montículos artísticos sobre a calçada de fronte da minha porta.
A minha rua podia cheirar a relva e a orvalho, podia cheirar a sol e a campo, sonhemos alto, a maresia, mas cheira a fétida bosta das entranhas e isso aborrece-me.
Apanho esporadicamente senhores e senhoras vestidos para correr, despachando os pós digeridos de seus animais de estimação na minha rua e, ante a estupefacção espelhada nas suas estúpidas faces, intervenho, mas de nada adianta, nada soluciono desta praga de merda que se apoderou da minha rua com nome de poeta.
Cada novo cão que chega, atraído pelo fétido fedor de outros cagadores, é um novo cagalhão que se acumula e juro-vos, com toda a poesia que respeito, até pelo nome da minha rua, que um dia deixo-me de poemas e recolho uma a uma, as poias infectas e fumegantes de excremento, para espalhá-las, qual botox capilar, nos escalpes de seus donos corredores de maratonas.
Declamarei então poemas de júbilo, receberei e desferirei socos, mas serei livre de toda a bosta que tenho entalada na glote.
Quem sabe até, no final desta guerra fria, não pedirei ao Nuno Markl que me desenhe cagalhões caninos, a fim de estampar t-shirts e oferecer a quem de direito. Não terão, porém, batom, nem aspecto fofinho, prometo.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A todas as mães de meninas



Cujas filhas padeçam desta enfermidade.
Estou convosco nessa luta inglória contra o cravanço de merchandising relacionado com esta merda.
Para quando papel higiénico da série? Aí sim, compraria com gosto.

quarta-feira, 5 de março de 2014

pedantismo

Ontem falava com a Melissa sobre pedantismo e como é importante, tantas vezes, o autor, tradutor, jornalista, ou o diabo que o carregue, conseguir desaparecer em prol da história.
Quanto menos se notar dele, mais sublime fica o trabalho.
Mas sei que é complicado despirmos o ego e desaparecermos, em prol do que quer que seja, pois gostamos sempre de enfiar uma qualquer bandeira que diga ao mundo inteiro que fizemos aquilo, que sabemos daqueloutro, que dominamos mais outra coisa qualquer e vamos enfiando pistas, deixando marcas de nós por todo o lado, quais canídeos marcando território.
Nos dias que correm, a "invisibilidade" é tarefa praticamente impossível de levar a cabo, pois a vaidade está sempre ali a querer saltar por todos os lados. Assim, é vinte vezes mais gratificante quando descobrimos apenas a ponta do véu, o latente, o guardado com recato.