terça-feira, 23 de junho de 2009

Nunca Vos Aconteceu?

Nunca vos aconteceu pensarem muito em alguém que não encontram há anos e esse alguém acabar por vos aparecer à frente uns dias mais tarde? (Geralmente quando decidiram meter um trapinho em cima, não estão nos vossos melhores dias e até as olheiras decidiram aparecer só para dar uma ajuda quando vocês só queriam mostrar que a vossa vida e elegância estão sobre rodas desde a última vez que o viram)
Nunca vos aconteceu estarem sempre a esbarrar com um certo casal que não conhecem de lado nenhum? Como um casal de tugas que viajou atrás de nós no avião Lisboa/Estocolmo e passou o tempo inteiro a cruzar-se connosco como uma assombração nos locais mais improváveis, só para depois regressarem no mesmo voo à nossa frente.
Nunca vos aconteceu pensarem que alguma coisa importante está prestes a acontecer e acontecer mesmo? Geralmente no preciso momento em que deixam de acreditar que vai realmente acontecer alguma coisa.
Nunca vos aconteceu terem uma música antiga na cabeça e essa mesma música tocar no rádio do carro como se tivessem lido os vossos pensamentos?
É que a mim está-me sempre a acontecer...

A Tranquilidade da Idade



Antigamente quando viajava tirava milhões de fotografias e trazia não sei quantas lembranças, pois sabia que quando chegasse a casa viajaria tudo de novo quando mandasse revelar as imagens, ou andasse com as t-shirts do sítio.
Hoje em dia, deve ser da idade, preocupo-me muito pouco com o registo dos momentos e com a compra de recordações. Parece que me tira tempo para olhar com olhos de ver.
Gosto de me sentar numa esplanada, nos degraus de um qualquer local público e ver, sem obrigação de fotografar cada instante, de captar cada segundo da minha estadia naquele país.
A máquina é uma tremenda obrigação que nos impede de relaxar e absorver com os nossos próprios sentidos.
Não quero com isto dizer que não tiro fotografias, pois tiro muitas, mas já não com o mesmo prazer.
O mesmo se passa com as lojas. Posso entrar em muitas lojas, mas raramente trago alguma coisa para mim. Prefiro poupar o dinheiro para um jantar a dois num restaurante melhor.
Nesta viagem a Estocolmo a única coisa que comprei para mim foi esta placa que exibo com orgulho na parede da cozinha. Quando a vi pensei: Vou levá-la à minha mãe, mas depois caí em mim. Esperem lá, eu também já sou mãe. Posso oferecer-me este tipo de piadas caseiras.
E aqui me têm prestes a fazer 34 anos e cheia de uma maneira diferente de encarar as coisas. Isto da idade dá-nos realmente outra visão do mundo e dos outros. Nem sempre melhor, mas seguramente mais descontraída.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

À Beira de um Ataque Nervoso Central

E quando entramos numa loja desesperadas por um bocadinho de ajuda e a empregada fica ali a olhar para nós como uma sombra fantasmagórica? Nós fazemos as perguntas e respondemos por elas. Tiramos informação com um saca rolhas e um pé encostado à parede para fazer força:
- Ah quer dizer que não tem esta caneta...
- Não.
- E não estão à espera de mais?
- Não sei...
- E o que é que tem dentro do mesmo género?
Silêncio sepulcral.
- Pode ser outra marca. É que eu preciso mesmo de comprar este presente, sabe.
Ela olha em volta com uma total indiferença.
- Que cores é que tem mais?
- É o que vê.
- Já eras violada por um bando de 50 nativos dos Camarões, não?!!!!
Esta é a parte da resposta mental. Aquela que eu dou exactamente antes de virar costas e sair da bosta da loja dentro da qual não tenciono voltar a entrar.

Enganados Até no Peixe

Eu sou uma gaja preocupada com aquilo que mete no organismo através da boca. Por isso tenho uma aversão muito especial à Aquicultura. Sim, eu já sei que sou esquisita, mete nojo e tudo o que me quiserem chamar. Mas enfiei nesta cabeça primitiva que os peixes criados em viveiro são alimentados com merda humana ( como já li algures, acontecia num qualquer viveiro Norte Americano) e com antibióticos nocivos.
Por isso nesta boca só entra peixe de mar, que mesmo o de rio já me mete uma certa angústia, imaginar um inteligente a pescar no rio Trancão e ir vender os resíduos tóxicos a um restaurante.
Por tudo isto hoje tive dois ataques de fúria quando pego numa bonita embalagem de salmão cuja designação "Atlanti.Co" me deixou desde logo tranquila, ilustrada pela fotografia de um belo e vigoroso salmão a saltar nas ondas revoltas do oceano, leio as letras miúdas, daquelas que só com duas lupas se conseguem decifrar e vejo: Peixe de Aquicultura. Ora bem para quê o engano visual? O embuste do nome da empresa. Nem sei se esta indução em erro não dá direito a um par de murros legais.
Os consumidores são enrrabados diariamente. São os produtos quase em final de prazo na fila da frente, as etiquetas que mal mostram a proveniência da carne, a constante ameaça da compra de gato por lebre.
Eu já sabia de tudo isto, mas não deixou de ser triste constactar que somos enganados até no peixe...

O Mundo dos Blogs

O mundo dos blogs trouxe-me grandes surpresas, partilhas, cumplicidades. Fez-me descomprimir quando mais precisava, sorrir quando a neura parecia querer instalar-se, ver que existem pessoas em todos os cantos do mundo com sentimentos tão iguais aos nossos. Fez com que me preocupasse com amigos que nunca vi, que pensasse numa certa pessoa como se fosse conhecida de anos.
E nunca ter olhado dentro dos olhos de alguém tornou tudo um bocadinho mais mágico. Uma espécie de fé cega dos que se limitam a confiar nos seus instintos sem pistas físicas que ajudem a formar uma opinião.
Dei por mim a desejar partilhar momentos tão meus com alguns conhecidos incógnitos, imaginando apenas a expressão de alegria do outro lado do monitor, as gargalhadas libertadas sem que eu as escutasse.
Se por um lado sinto que teria aqui grandes amigos, por outro tenho um receio secreto de estragar tudo assim que os conhecer pessoalmente.
Cobardia, timidez, insegurança? Talvez tudo isso, ou talvez nada disso. Apenas a vontade de querer que as coisas permanecem por tocar, assim, perfeitas...

domingo, 21 de junho de 2009

Um Dia em Cheio

Todos os Sábados deveriam ser como o Sábado de ontem. Venceu-se a preguiça e encheu-se a piscina. Sob o sol já morno do final de tarde senti os teus braços molhados em redor do meu pescoço, escutei os teus gritos de alegria, olhei-te sem me cansar jamais da tua expressão de pura felicidade.
Jantámos no jardim numa espécie de piquenique improvisado (já que não pude ir ao do Tony). O teu olhar brilhava encantado com a nossa presença e exigias a nossa atenção a cada instante. Decidimos ir ver a Mariza que cantava em Cascais, mas o trânsito era tanto que acabámos repatriados no Estoril no velhinho Deck a escutar músicas dos anos 90. Tu dançaste na esplanada perdida de sono, mas com uma vontade férrea de aproveitares a noite prolongada.
No final quando regressavas no colo do teu pai um senhor sem muito juízo veio ter connosco e pediu-nos umas calças para poder entrar no Casino.
Bem sei que me queixo do calor a todo o instante, mas o calor de ontem acabou por trazer felicidade. Daquela simples que não precisa de muito para nos fazer acreditar que a nossa vida está cheia de momentos maravilhosos.

sábado, 20 de junho de 2009

A única Vantagem dos 34 Graus

A única, repito, única vantagem destes 34 graus infernais é poder estender a roupa e tirá-la do estendal passados exactamente 5 segundos.
Mas mesmo esta vantagem tem um pequeno senão. A roupa sai tão dura e ressequida que se segura sozinha em pé. Posso guardá-la a um cantinho do quarto que ela fica ali de pé a olhar-me com aspecto de múmia.
Depois quando a vestimos é senti-la raspar-nos na pele como uma lixa.
Nada é perfeito.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Aí Vou Eu Para o Concerto

Preparada para o maior piquenique do mundo e munida do meu garrafão de tinto estou pronta para enfrentar o calor e ouvir o Tony Carreira em todo o seu explendor, neste caso explendor na relva.
Há no entanto uma coisa que me recuso a fazer. Seja em concertos do Tony, dos Rolling Stones, dos Bate n'avó, ou até do Toy. Aquele balançar de braços para a esquerda e para a direita, esquerda direita, esquerda direita. De sovacos ao léu, qual limpa pára brisas em modo automático.
Faço qualquer coisa num concerto, moches, saltos, gritos, palmas, arrancar cabelos. Agora limpa pára brisas nem com o garrafão de tinto pela goela abaixo.

À Noite Morre-se Mais Devagar

À noite morre-se mais devagar, todas as dores se reproduzem como ecos no silêncio e olhamos os que dormem em sossego com uma inveja desmedida.
À noite o pouco barulho ensurdece-nos e propaga-se em ondas sucessivas no nosso corpo doente.
À noite tudo é nosso, nada é dividido, ninguém nos ajuda a suportar o peso da doença.
À noite chora-se baixinho para não perturbar quem não chora.
À noite sofre-se sem alguém que nos conforte.
À noite tudo assume a proporção de fim mesmo quando o final está longe.
Amanhece finalmente e caímos num sono profundo e reconfortante, longe do escuro que assusta. Podemos entregar-nos nos braços do conforto e fechar os olhos por um instante apenas, pois sabemos que ainda falta muito para voltar a anoitecer...

Penso que quem já esteve doente numa cama de hospital (graças a Deus nunca foi o meu caso), ou quem sofre de privação de sono sabe do que falo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Piaçaba Para Quê?


Estudei muitos anos num colégio de Jesuítas e entre as várias tradições monásticas que guardo até hoje na memória, as que se imprimiram com mais força foram a do papel higiénico-lixa e a dos piaçabas, tal como este da fotografia, que pingavam água urinada e continham no interior das suas agulhas vestígios de merda que nunca eram realmente limpos, pois desconfio que ninguém limpa piaçabas.
De cada vez que gemia de dor ao passar a lixa número 5 pelo rabo, ou vomitava de nojo ao seguir com o olhar o rasto que o piaçaba deixava pelo caminho, de mão no peito e olhar no infinito jurava para mim própria: Na minha casa haverá sempre papel higiénico suave e jamais entrará uma vassourinha-limpa-bosta.
Meus amigos posso não ter conseguido cumprir algumas promessas ao longo da minha vida, mas esta que fiz moça e ingénua naquela casa de banho jesuíta, não falhou.

Alguém me sabe dizer como é que se escreve esta palavrinha ternurenta? Piassaba, piaçaba, ou piaçá?

Dar uma Oportunidade ao Amor

Isto de lermos outros blogs às vezes faz-nos reflectir um bocadinho, por isso quando li ontem o post da Precis, no qual ela afirmava não acreditar em relacionamentos para sempre, mas sim em amor para sempre, a minha cabeça, depois de um longo jejum de neurónios, começou finalmente a carburar (obrigada por isso Precis).
Muitas pessoas pensam que o amor tem que ser sempre como no princípio. Por isso quando as coisas se modificam para a fase seguinte, sentem-se cair numa profunda decepção e milhares de perguntas começam a surgir: Será que o amo? Será que já não vai dar certo? Onde é que está o arrebatamento, a magia, a novidade que sentia no princípio? O facto de partilharmos o mesmo tecto fez desaparecer o encantamento inicial todo. Quem é este homem agora ao meu lado?
Nesse sentido entendo o que a Precis quis dizer, pois se não existir relacionamento, o amor será sempre perfeito dentro daquela caixinha que nunca chegou a ser aberta...
Abrir a caixa e deixar o amor crescer em todas as suas etapas, sem medo que ele azedasse, ou perdesse a validade, foi o meu grande desafio da vida adulta.
A exaltação cedeu lugar à serenidade. Onde havia inquietação há agora segurança. A incerteza passou a confiança. A novidade passou a uma doce previsibilidade.
Saber que vou chegar a casa e tenho alguém à minha espera. Saber que há alguém que se preocupa, que me pergunta como foi o meu dia, que me liga só para dizer olá, que partilha o meu silêncio, que enrosca os seus pés nos meus nas noites frias é a fase seguinte ao arrebatamento.
Tal como os filhos crescem e voam debaixo das nossas asas, também o amor cresce e evolui sempre para algo diferente, mas não necessariamente mau.
Há quem seja eternamente viciado nas borboletas no estômago, por isso quando estas deixam de esvoaçar partem em busca de mais sensações de começo, mas penso que a longo prazo se sentirão tremendamente desencantados com o amor.
É claro que há amores que morrem, que não evoluem, que se transformam em ódio, mas até para chegarmos a essa conclusão, ao fim do caminho, temos que ter dado um passo em frente, uma oportunidade ao amor...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

É impressão Minha?

Alguém está a ver a entrevista do Sócrates na Sic? É impressão minha ou ele está com um biquinho de piriquito, voz de S. Francisco de Assis, olhar de cordeirinho prestes a ser sacrificado? Até as mãozinhas estão em posição de prece...
O homem está um poço de humildade beatificada.
Quase me apetece fazer-lhe festinhas, como se faz a um cachorrinho abandonado.
Ó meu Deus!!!! Ele hipnotizou-me!!!!!
Acorda Ana, Acorda!!!!!

Como é Óbvio, mas Óbvio exactamente para quem?

Uma mulher, durante anos, vítima de maus tratos do seu querido e dedicado esposo foi morta a tiro pelo mesmo quando segurava nos braços o filho de 4 meses. O ternurento marido apanhou 17 anos por homicídio qualificado.
Até aqui podia ser uma notícia do Jornal O Crime exibida na Sic Notícias. Mas o que me fez saltar os olhos das órbitas e me transformou as orelhas em duas batatas quentes, foi ouvir a advogada de defesa a sair da leitura da sentença, com o seu cabelo oxigenado, malinha pindérica e pose de grande advogada de série americana dizer com o ar mais convicto do mundo:
Como é óbvio a defesa acha excessiva a pena aplicada e vai recorrer.
Ora bem, como é óbvio? Mas óbvio para quem?!!!!!

A Melhor Série dos Últimos Tempos


A Anatomia de Grey está tão, mas tão boa que dou por mim a não querer antecipar o grande final da 5ª temporada, como muitos já fizeram. Prefiro esperar pelas quintas-feiras à noite e programar a minha magic box para gravar o aguardado episódio. Espero até a casa estar finalmente mergulhada no silêncio, dirijo-me sem pressa para o sofá, recosto-me nas almofadas, ponho o meu puff super duro a jeito debaixo dos pés e carrego play.
Depois é só deliciar-me com uma das melhores séries dos últimos tempos. Em que cada episódio é uma espécie de bomba poderosa, capaz de abanar os mais frios de espírito.

*Excepção feita ao romance do Sheppard e da Grey que já enjoa um bocadinho...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Derretendo Suavemente nas Tarefas Domésticas

Tiro a loiça da máquina, guardo-a no armário, abro a gaveta dos talheres, tiro os talheres da máquina. Tiro os copos da máquina, guardo-os no armário. Abro a janela e atiro a loiça toda borda fora (Sonho com esta parte vezes sem conta).
Já estive mais longe de aderir definitivamente aos pratos descartáveis. Fazíamos as refeições em cima de uma toalha de papel com pratos, copos e talheres de plástico. No final era só fazer uma trouxa com a toalha e zás, lixo com a porcelana.
Quando está muito calor devíamos reduzir tudo às funções vitais.
Depois o tempo que uma pessoa perde a andar de um lado para o outro enquanto descarrega a máquina, só para mais tarde ter que repetir todo o processo, dava para fazer uma volta ao mundo a pé coxinho.

Homem e Mulher

Anteontem vi uma reportagem sobre uma comunidade cigana que me deixou à beira de um ataque cigano.
Entre outras coisas que agora não importam comentar seguia o casamento de um casal jovem, penso que primos, que estavam prestes a entrar na vida em comum.
O sogro falava de como os homens podiam comer as mulheres todas que quisessem que isso não lhes trazia má fama, mas as mulheres tinham que casar virgens. Ninguém queria uma vadia imprestável. Por isso a noiva era sujeita a um teste de virgindade por uma junta médica na noite da boda. Se não fosse pura não servia para casar. Ora isto, dentro daquela mentalidade e tradição, não me chocou por aí além. A única pergunta que não me abandonava a cabeça era: Mas que raio de junta médica é que se vai prestar a isto?
E então percebi que a tal junta era um bando de mulheres ciganas a salivarem por acção. A esfregarem as mãos quando viram a jovem noiva entrar no barraco.
"carne fresca" - Pensavam. "Ai filha que se não és virgem tás f... connosco"
E tive pena. Uma imensa pena daquela menina que saiu em lágrimas da tal junta médica. Que não conseguia parar de chorar de dor física e provavelmente psicológica. E pensei: Ser cigano é bem mais fácil que ser cigana.
Ser homem ainda é bem mais fácil que ser mulher em tantas, mas tantas partes do mundo...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um Calcante À Medida



Já que há tantas meninas na blogosfera que fazem posts com fotografias de sapatos Jimmy Choo, saltos agulha, sabrinas suaves e elegância de cortar a respiração, decidi que estava na altura de tentar fazer o mesmo.
Vou portanto falar sobre calcantes.
Porque é que as marcas de renome em termos de conforto do chulé não fazem igual aos grandes designers, só que confortáveis? Como a Zara que copia as grandes marcas, mas em preços pequenos. Assim a Hush Puppies podia fazer o mesmo com o conforto.
Porque é que todos os sapatos com fama de porem os pés nas nuvens têm que ser tão monstruosos?
É que uma gaja como eu sofre. Os meus pés não aguentam Jimmy choo's e o meu bom gosto não aguenta Hush Puppies. Mas que dilema, que catástrofe. Pensem em mim criadores de sapatos confortáveis!

Já Que É Para Buzinar...

Se conheço pessoas que não tiram a mão da buzina do automóvel, ao ponto da zona do volante usada para o efeito estar já sem cor e com uma espécie de sebo gorduroso, outras pessoas conheço que se recusam a usar o aviso sonoro, limitam-se aos sinais de luzes, mesmo quando o condutor de um pesado adormeceu e passou para a faixa contrária estando prestes a embater contra eles, são tão civilizados que lá vão fazendo sinais de luzes, como se estes despertassem o motorista do sono profundo.
Confesso que não ligo muito à buzina, mas quando a uso gosto que ela se oiça. Por isso nos dois Alfa Romeos que tive vibrava com os sustos que conseguia provocar nos transgressores. Os meus preferidos eram sem dúvida os que passeavam pela auto-estrada a 20 à hora a falarem ao telemóvel em zig-zag. Assim que colocava o polegar no botãozinho, que isto do carro italiano é a facilidade total em termos de acesso ao barulho, era vê-los saltar do assento e largarem o telemóvel pelos ares à beira do colapso cardíaco, tamanho era o susto. Foram as melhores buzinas da minha vida. Belos tempos em que com um simples toque conseguia pôr o trânsito na ordem, tal era o volume da coisa.
Agora reduzida à timidez de uma civilizada marca alemã, quase tenho vergonha de levar a mão à buzina. Aquele espirro de bebé que sai do meu carro é humilhante. Tenho sempre a mania que toda a gente vai olhar em volta à procura do condutor do triciclo...

domingo, 14 de junho de 2009

Eu não Tenho Terra

Gostava de ter uma Terra. De poder dizer que ia à Terra, como tanta gente diz quando ruma ao destino que os viu nascer e crescer.
Há quem tenha deixado o coração em África, quem recorde para sempre o cheiro do capim ou da chuva entranhada na terra. Acho tremendamente romântica esta nostalgia pelo Continente africano que tantos portugueses têm.
Há quem tenha deixado um bocadinho de si no interior, bem no fundo do mapa, onde tudo é verde e a civilização parece não ter tocado nada, nem ninguém. Deve ser maravilhoso poder levar os filhos a revisitar os locais onde fomos felizes. Debaixo daquela árvore dei o meu primeiro beijo, à beira deste rio fiz deslizar seixos sobre a superfície da água com os meus amigos. Aqui é onde o teu avô plantava tudo o que precisava para sobreviver. Poder mostrar aos filhos que se pode viver da terra, da nossa terra.
Há depois aqueles que emigram e que levam dentro do corpo a saudade física do que ficou. Há medida que o tempo passa Portugal vai perdendo defeitos e vão guardando dele apenas o que importa, o que os comove. O sol, a luz, a comida, o fado e entendem o que quer dizer saudade...
Mas eu não tenho Terra. Sou de uma grande cidade. Não digo que vou à Terra. Digo que vou a Lisboa. Não há uma árvore onde tenha gravado o meu nome, uma casa de família onde cheire sempre a pão acabado de fazer. Não me recordo da minha mãe à volta de um fogão atarefada, nem de refeições barulhentas à volta de uma mesa sem fim.
Eu sou de Lisboa e muito embora saiba que hão de haver sempre lugares nessa cidade muito meus, não tenho uma Terra para onde possa fugir de cada vez que me queira encontrar. De cada vez que sinta vontade de regressar ao essencial.
Há alturas em que sinto falta de raízes.

sábado, 13 de junho de 2009

Pesadelo de Ganga

Hoje estive a tentar lembrar-me (do fundo da minha preguiça mental e física) de um facto de importância vital: Qual tinha sido o país onde vira mais homens com calças de ganga pouco estilosas.
Talvez pouco estilosas seja ligeiro para definir a aberração da calça de ganga curta nas pernas e com a cintura até aos sovacos, deixando as bochechas do rabo separadas pela costura que entra por ali adentro.
É como se usassem as calças de ganga da década de 80 da mulher encolhidas por 20 anos de lavagens.
Eu sei que estive num país onde homens assim vestidos de calças até ao pescoço pululavam, mas onde, onde?
E agora que puxo pelo cérebro dormente lembro-me de outro pormenor que saltava à vista, logo ali, onde as calças terminavam pelas canelas, uma meia branca turca e felpuda enfiada à pressão no sapato brilhante.
Mas onde é que eu andei? Será que não passou de um pesadelo? Não, eu sei que estive num sítio assim e que não dava gozo nenhum estar na esplanada a vê-los passar...

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Homenagem à Inércia

Os meus neurónios começaram a sua viagem para fora do meu cérebro. Sinto-me uma espécie de incubadora de estupidez. Parece que oiço em câmara lenta, que vejo mas não apreendo, que toco mas não sinto, que me deito mas não chego a dormir de verdade, que caminho com um único propósito: O de chegar ao sofá mais próximo. Conduzo o carro em piloto automático e pergunto-me como é que cheguei àquele local se nem me lembro de ter feito o trajecto.
Apetecia-me fazer um discurso de homenagem à inércia, mas até isso parece demasiado trabalhoso.

O Nosso Coração

O nosso coração cansa-se de várias coisas. Das decepções, dos desgostos, dos desencontros constantes, da falta de entendimento, da falta de espaço, de espaço a mais, do vazio, do cheio, do que não acaba, do que termina demasiado cedo.
O nosso coração sofre ao longo da vida um sem número de palpitações de toda a espécie, apertando e desapertando o nó consoante seja preciso arranjar lugar, ou desocupar um lugar.
O nosso coração chega a sair-nos das mãos só para nos mostrar que é possível deixarmos de o sentir por uns instantes.
O nosso coração ensina-nos dia após dia que o que estava dentro dele ontem, hoje não estará igual. Que haverá sempre espaço para qualquer coisa nova e que isso não é necessáriamente mau. Por vezes quer apenas dizer que crescemos...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Estratégia Sádica

De todas as estratégicas sádicas de marketing usadas nos hipermercados a que mais me tira do sério é a distribuição de balões, pequenos brindes, chocolates, chupas e toda a espécie de fura dentes nas filas da caixa.
Tudo para os putos serem aliciados durante a espera e os pais presos naquela armadilha terem que resistir às birras, gritos, pedidos insistentes sob o olhar crítico dos restantes mirones que sem mais nada que fazer fixam a cena com um olhar assassino...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Café com Livros


Devia haver café dentro de todas as livrarias. Nem que fossem sacos abertos cheios de grão de café, só para sentirmos o cheiro que se mistura com as páginas e capas das histórias.
Estou cada vez mais convencida que existe uma relação directa entre a vontade de permanecer para sempre dentro de uma livraria e o cheiro do café.
Por este motivo tão importante e por outro que não posso revelar gostava que me dessem sugestões para um nome que encerrasse esta ideia: Livros com Café...

Fazer a Diferença

Ontem ao ver um programa em que crianças com deficiências eram descriminadas, gozadas e maltratadas na escola pelos colegas, percebi mais uma vez que as crianças são capazes do melhor e do pior do mundo. Mas que pode estar nas nossas mãos tentar inverter desde cedo esta tendência para marginalizar pessoas diferentes.
Não podemos simplesmente lavar as mãos e dizer: Eles são pequenos é normal. Pois eu não acho normal este tipo de conduta.
Ser mãe/pai nos primeiros anos de vida de um pequeno ser encerra um poder fantástico. O poder de incutir a tolerância e respeito, até a defesa de alguém que esteja numa posição mais frágil.
Ser mãe não é apenas um acumular infinito de tarefas que nos deixam sem forças. É muito mais do que isso, é uma hipótese de contribuirmos para a formação de um ser humano fantástico.
Bem sei que tudo isto passa pela nossa própria conduta, mas como já disse mais de um milhão de vezes, a minha filha fez-me querer ser uma pessoa maior em muitos sentidos além do tamanho. E como isto de desejarmos o melhor para os nossos filhos não conhece limites, eu posso almejar à vontade.
Se isto não está próximo de um discurso do Padre Borga então não sei...

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Cérebro De Gaja


O meu cérebro é muito prático e racional em muitas coisas importantes. Eu consigo pensar no meio do pânico, sei como agir em situações limite, consigo cozinhar uma refeição com dois ovos, uma cebola e uma lata de leite em pó. Mas eu não sei caminhos. Peçam-me tudo, menos decorar precursos, olhar mapas, seguir as indicações do GPS, tentar decifrar os placards contraditórios, ou ausência dos mesmos, que pululam nas nossas estradas.
Hoje pedi o GPS ao Hugo, pois tinha que ir ter a uma morada no cú de judas e sem aquela ventosa mágica no vidro, decidi deixar-me conduzir pela voz da Karina Soraia que me dizia serena:
Saia na Saída. Daqui a 200 m vire à direita, depois vire à esquerda. Faça a curva apertada à direita, siga à esquerda. Depois de 70 m saia na terceira saída.
Mas o que é que são 70 metros??? Quando há 50 saídas, qual delas é a dos 70 metros? E o que é que este beco esconso e sem saída está a fazer à frente do meu volante? E porque porra vim dar a um beco com escadas? E porque é que ela agora não pia?
Tiro um momento para olhar o visor e leio: A calcular o percurso. O que é sinónimo de engano da minha parte.
Eu bem sei que há quem diga que os homens mudam lâmpadas, penduram quadros, arranjam telhados. Mas esqueçam tudo isso que não fazemos por pura preguiça, pois o verdadeiro pânico feminino surge quando estamos perdidas na estrada. Completamente sós. Ou melhor, nós e a voz da Karina Soraia.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Maior Pic-nic Do Mundo!!!!!!

Não contive a emoção quando passei por um daqueles cartazes que anunciam um evento a nível nacional, daqueles a não perder nem que chovam pedras. Tive até que parar o carro e limpar os olhos lacrimejantes.
É que é já no dia 20 de Junho que vai ter lugar no idílico Parque da Bela Vista (O Central Park lisboeta) o aspirante a maior piquenique do mundo, não fossemos nós os maiores em tudo o que importa, vamos tentar entrar para o guiness nesta categoria de mais gente a palitar os dentes no relvado.
E a cereja em cima do bolo é o Tony Carreira que promete oferecer conforto à digestão dos convivas, já que depois das chouriças, morcelas, feijoadas, pernas de presunto, garrafões de tinto, não há nada que chegue ao nosso Tony para acalmar a flatulência e gás acumulado.
Não tenciono perder este marco histórico nacional. Quero fazer parte do guiness. Já dormi à porta do maior Centro Comercial da Europa para ser a primeira a entrar. Estava no famoso grupo que correu pelo Túnel do Marquês quando este abriu ao público e agora lá estarei no Parque da Bela Vista com a minha geleira na mão, um chapéu no cocoruto da tola e uma dose industrial de palitos para não gritar: Tony!!! Cheia de tramoços nos dentes.
Ser portuguesa tem destas coisas inesquecíveis e eu sou portuguesa com certeza.

Just in cases: Tudo o que leram acima acerca da minha pessoa é pura ficção. Mas por quem me tomam?

domingo, 7 de junho de 2009

A Alice Mora Aqui

De todas as cedências que fiz, passar a máquina fotográfica para as tuas mãos foi a mais espantosa de todas. Já tiraste mais de duzentas fotografias e de cada vez que as vejo comovo-me, pois é como se viajasse através dos teus olhos.
Para além de já podermos contar com as tuas mãos para tirares fotografias de casal, sem termos que pôr a máquina em piloto automático, ou esticarmos o braço e tirarmos a nós próprios, podemos conhecer-te um bocadinho melhor através das imagens que decides terem importância, ou não.
Já nem ligo ao flash que dispara na minha direcção quando menos espero, pois este teu hábito também já faz parte de mim, tal como todos os barulhos, gritos, canções, abraços, birras, rotinas que lentamente foste introduzindo na minha vida.





sábado, 6 de junho de 2009

Cuidar da Ninhada Cansa

Hoje estive numa festa de putos. Um primo da Alice fez anos e lá fomos nós munidos de tampões para os ouvidos para quando os gritos dos miúdos começassem a enlouquecer-nos. Mas surpresa, das surpresas. Foi agradável. Ao ar livre, churrasco sempre a carburar sem grandes esperas, os miúdos selvagens ao ar livre de galho em galho e uma mãe que não via há muito tempo. Uma mãe divorciada com 3 filhas infernais que me dizia que estava a pensar comprar 3 bastões, com o nome de cada uma delas para afastar os rapazes que se aproximassem.
Uma mãe que cortou febras, fruta, encheu copos, gritou, bufou, avisou, desesperou, ouviu o seu nome ser chamado mais de mil milhões de vezes por segundo. Uma mãe que me deixou de rastos.
De tal maneira fiquei cansada com aquela guardiã da ninhada que quando cheguei a casa pus a roupa suja da Alice no micro-ondas.

Cerelac


Confesso-me viciada, agarrada, consumidora compulsiva do produto. Enfim, todos os adjectivos negros que consigam encontrar para definir alguém que não passa sem alguma coisa, encaixam-se na minha pessoa.
Podia ser droga, bebida, tabaco, calmantes mas não, o meu vício é bem mais antigo e entranhado que todos estes. Vem desde os 6 meses de idade e chama-se papa, papa Cerelac.
Não sei o que é que a Nestlé põe nos seus produtos, mas desconfio que alguma substância viciante, pois desde tenra idade que me apanhou bem apanhada nas suas malhas.
E depois não gosto dela fininha e bem passadinha, eu gosto dela espessa, cheia de grumos. Tão consistente que dá para unir tijolos como cimento. Tão poderosa que me sinto um pouco tímida em devorá-la à frente de mais alguém que não seja igualmente viciado, os chamados leigos da papa que a mexem com um garfinho e a comem quase líquida e com água.
Se alguém souber de um grupo de apoio que nos ajude a ultrapassar este vício com mais de 30 anos, eu agradecia que deixassem o contacto, pois por muito rígida que eu seja com a alimentação, este é o meu calcanhar de Aquiles. Posso até viver de grelhados e saladas, mas depois a Cerelac estraga tudo...


PP Fantasma eu disse que a Cerelac merecia um Post...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

És o Orgulho do Papá



Quando ouço as Cinhas da vida dizerem que têm muito orgulho na carreira de modelo da filha (Pimpolha, Pipi, ou lá qual é o nome) a propósito da aparição desta na capa de uma revista masculina rio-me a bom rir, pois imagino-as a olharem para as filhas com um grande sorriso de compreensão enquanto a sua menina lhes diz: Mãe vou posar para uma revista masculina, para que muitos homens se possam imaginar comigo na cama enquanto na intimidade da casa de banho contam os azulejos à minha custa.
- Ó que orgulho filha. Acha que também posso posar consigo? Foi para isto que a eduquei, que lhe paguei os estudos. Um investimento que deu frutos. É linda meu amor.
Vou ser terrivelmente franca, mas se algum dia a minha filha enveredasse por esta carreira promissora eu não ia agir como se ela tivesse ganho o Prémio Nobel da Química. Já sei que temos que respeitar a escolha dos filhos, blá blá blá, que lindo e poético. Mas imaginar fotografias de uma filha descascada nas mãos de milhares de homens não é propriamente a visão do paraíso para uma mãe.
Por isso quando vejo a Ana Malhoa do Bueréré na sua carreira de cantora erótica pendurada em motas com mamas que se confundem com bóias e as bochechas do rabo a pedirem tau tau só penso no pobre José Malhoa a ter que dizer com sorriso amarelo: És o orgulho do papá filha.

Quando as Coisas Acabam

Às vezes lembro-me daquele casal amigo que teve um casamento de sonho e cuja vida parecia tão encaminhada. Tiveram um filho na mesma altura em que tivémos a nossa filha, viviam numa casa com personalidade e tinham sempre imensos amigos por lá.
Mas houve um dia em que senti que as coisas não estavam iguais. De cada vez que ela abria a boca para falar sobre o que quer que fosse, ele olhava-a de lado. Mais ninguém parecia reparar naquele olhar de desprezo que se instalara desde a última vez que tinha estado com eles.
Mais tarde o olhar passou a palavras e de cada vez que ela abria a boca ele prontamente a contrariava com uma voz impaciente.
Às vezes acho que até a maneira como ela respirava, andava, ajeitava o cabelo o irritava.
Todas as pequenas coisas do dia a dia se devem ter transformado num martírio para aqueles dois, pois ela não entendia o porquê da implicância e ele não percebia o porquê daquela morte. Da morte de tudo o que sentira em tempos.
Uma guerra cujo alvo a abater era a outra parte do casal instalou-se e tudo era motivo para mais uma batalha.
E eu fiquei triste. Triste e assustada, pois pensei que até aqueles dois que eu tinha como uma espécie de modelo não estavam livres da morte súbita do amor. De acordar um dia e sentir que aquela pessoa nos provoca nojo em vez de desejo, choro, em vez de riso, gritos em vez de conversas, incompreensão em vez de entendimento.
Tal como a vida tem um prazo de validade, há amores que também têm essa data limite finda a qual expiram. Há quem diga que são sete anos, há quem diga que é quando os filhos estão criados e deixa de haver motivos exteriores para permanecerem juntos, há quem diga que alguns amores nascem feridos de morte.
Quanto a mim apenas sei que antes de chegarem ao fim os sentimentos vão dando gritos de alerta, sinais, pistas que muita gente se recusa a encarar e quando finalmente falam sobre isso, já não há nada a fazer...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Descubra as Diferenças


The Ultimate Survivor



Sempre que apanho o programa deste javardo no Discovery fico presa a ele como uma mosca que não consegue largar a pestilência.
Algum de vocês já viu a quantidade de porcaria que este homem leva à boca no decorrer do seu programa?
O objectivo dele é ensinar-nos a sobreviver nos locais mais improváveis. Bastante útil para mim, pois aventureira como sou, nunca se sabe quando posso ficar presa na floresta, savana, ou pior do que qualquer uma daquelas hipóteses, no cú de judas.
Ora como estava a dizer, o nosso amigo mostra-nos que podemos comer desde entranhas de carcaças de zebra, a fezes de camelo, de rinoceronte, a larvas do tamanho de aviões, beber a própria urina. Ele faz festinhas carinhosas em tarântulas venenosas do tamanho de jipes e beija crocodilos no meio da água. Enfim, é um fartote.
Mas a única coisa que me prende verdadeiramente a atenção é vê-lo comer coisas que nem os abutres querem para eles, pois penso sempre na cara da namorada quando o vê atravessar a porta da rua a dizer: Querida cheguei, beija-me na boca!

Por Favor se acabaram de comer não vejam o Filme, correm o sério risco de bolsarem de seguida...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Aventuras no Reino do Lavabo

Eu bem sei que este blog aborda com alguma frequência temas eruditos relacionados com bosta. Portanto não querendo quebrar a tradição, este é apenas mais um post em redor desse tema profundo.
Há umas semanas atrás fomos os três almoçar a um belo restaurante no Pátio Bagatela e a minha filha com a sua pontaria afinada como sempre pediu-me para ir à casa de banho exactamente a meio da refeição. Olhando em volta para o conforto e elegância do restaurante, senti-me menos rabujenta por ter que a transportar a esse antro.
Mas desilusão das desilusões. Assim que ponho o pé na casa de banho das mulheres ali bem plantado no meio do chão, jazia morto e arrefecido um cagalhão monumental que deixara o seu rasto desde a sanita até ao meio do pavimento de mármore. Fui chamar uma empregada que não me deu solução para o caso. Limitou-se a fechar a porta da casa de banho, qual avestruz que esconde a cabeça debaixo da areia quando fareja perigo, neste caso merda.
Dou uma espreitadela para o wc masculino e dou de caras com o urinol cheio de gelo até acima. Será que é tradição? Será que é normal fazerem isto sei lá para arrefecer a canalização? A dúvida assaltou-me e de nada me adiantou o homem da família que se limitou a dizer. Acho que já vi fazerem isso não me lembro onde...
No meio de tantas andanças traumatizantes a Alice simplesmente recusou-se a usar os lavabos.
No final da refeição já um bocadinho estragada pelo incidente o empregado solícito traz-nos um digestivo amarelado cor de limonada a abarrotar de gelo. A minha cabecinha não demorou mais de um segundo a fazer a associação e a disparar as luzes vermelhas de perigo. Percebi então o que é que o gelo estava a fazer no urinol...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Procura-se

Mas alguém sabe o que é que aconteceu ao Refogado e Hortelã? Esse jovem médico cujas aventuras, desventuras, pensamentos, reflexões acompanhava fielmente? Em Fevereiro escreveu um post a informar-nos que estava doente e desde então nada, nem um pio.
Quando o último post de alguém é acerca de uma doença e se passam 3 meses sem que mais nada seja dito, o que é que uma pessoa pensa?... Pois, o pior.
Por isso tomei uma decisão: Vou deixar escrito no meu testamento (ah ah ah) caso me aconteça alguma coisa, como morrer por exemplo, que vos venham aqui dar uma palavrinha. Pode parecer mórbido, mas não vos quero deixar pendurados.

O que Podia Ter Sido...

Não sou uma daquelas pessoas que olham para trás e dizem banhadas de uma certeza poética: Não me arrependo do que fiz, apenas do que não fiz.
Ora bolas eu já sei que os nossos erros fizeram de nós o que somos, mas não posso dizer que não me arrependo de nada. É claro que me arrependo.
Às vezes paro para espreitar sobre o meu próprio ombro e ver-me lá atrás no passado e se pudesse voltar àquela encruzilhada onde tive que optar cedo demais. Sem a sabedoria que alguns anos colocados na soma da idade trazem, teria trilhado outro caminho. Menos sinuoso, menos sofrido.
Quando me contemplo daqui, da minha vida de agora, sei que não agi sempre bem com os outros, comigo própria e vejo com uma clareza assustadora que teria feito diferente sim.
Mas uma pequena mão desperta-me da viagem ao passado e outra mão um bocadinho maior descansa sobre o meu ombro. Olho-vos cheia de gratidão por estarem aqui no meu presente e então sinto que tudo, o bom e o mau, me conduziu até vocês. E desculpo-me pelo que podia ter feito diferente.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Macho que é Macho ou as Vantagens do Celibato

Uma das coisas boas de ter ficado bastante tempo no celibato foi ter aprendido a não depender do sexo oposto para pregar um quadro, conseguir abrir uma porta de casa encravada, desenrascar-me com as avarias do carro e cultivar-me até aos ossos. Pois o amor, pelo menos nos primeiros tempos, retira-nos a vontade de nos enchermos com o que quer que seja para além de sensação de enamoramento.
E por aqui andava eu, toda independente e senhora de mim quando me aparece o Hugo. Foi bom ter encontrado alguém com quem dividir a minha vida, só que com ele chegou também a queda do meu parafuso bricoleiro e a inércia de deixar de pregar quadros, de resolver pequenos problemas domésticos, pasmem, até de mudar lâmpadas de tecto instalou-se! Com o amor veio uma espécie de preguiça suprema para tudo o que era supostamente tarefa de macho.
- Ó Hugo o que é que o computador tem?
- Já viste se está ligado?
- Ah bem pensado!
- Ó Hugo quando é que penduras o quadro?
- Tem que ser hoje?
- Dava jeito que fosse ainda neste século.
E assim ia a nossa vida de casal. Eu cada vez menos independente no que tocava a bricolage, ele cada vez mais preguiçoso no que tocava à bricolage.
Mas de todas as coisas que era suposto um macho fazer para proteger a sua fémea a que mais me custou ter que abrir mão aqui em casa foi a da caça ao bicho:
De cada vez que dou de caras com uma aranha grito esganiçada com todas as forças das minhas cordas vocais. Ele corre aflito:
- O que é que foi Ana? Queres-me matar de susto?!!
- Um monstro! Olha aquela aranha nojenta ali, vai buscar um sapato, um martelo, uma caçadeira, um lança granadas, qualquer coisa, mas dá cabo dela!
Quando olho para o lado, estranhando o silêncio, ele já fugiu...
Regra geral é a Alice que vem em meu socorro munida de um sapato. Pobre inocente, já a transformámos numa assassina de aranhas profissional. Ou numa mulher independente, consoante a perspectiva.

domingo, 31 de maio de 2009

Ai que Prazer Não Cumprir um Dever

"Faz o que tens que fazer e só depois o queres fazer". Ouvi esta frase num filme e nunca mais me saiu da cabeça, pois identifiquei-me com cada palavra.
Sempre fui o tipo de pessoa que não consegue relaxar enquanto não terminar aquele trabalho. Ou que simplesmente não consegue ir abancar no sofá antes da cozinha estar arrumada. Que não tenta sequer começar a ver um filme antes da filha tratada e adormecida.
A sério que gostava de conseguir ser diferente, já tentei mais do que uma vez deixar para amanhã o que podia fazer hoje, mas nunca durmo bem quando isso acontece...
Será que isto tem cura?

sábado, 30 de maio de 2009

Para Não Esquecer Mais Tarde...

Tenho que ir deixando aqui as tuas frases, perguntas, gestos mais memoráveis, pois sei que o tempo é especialista em varrer certos detalhes deliciosos da nossa memória.
Hoje encaraste-nos muito séria e perguntaste:
- Vocês são casados?
- Sim Alice somos casados.
- E eu sou junta?

Nota de rodapé: Ela tem 3 anos...

Começar do Zero


Às vezes abro o armário e tenho vontade de o arrancar da parede e atirar todo o seu conteúdo pela janela. Deixando-o assim livre e com espaço para o que vier de novo.
Mas a inércia fala mais alto e dou por mim a ver-me livre de algumas peças de vestuário com a calma que só uma preguiçosa conhece.
É bom fazermos limpezas gerais. Estou farta de me deitar à noite e pensar no que deveria ter feito. Cansa muito menos fazê-lo do que levar dias a pensar que não se fez...
A Melissa outro dia dizia-me que até os livros levavam guia de marcha, que odiava tralha desnecessária na sua casa e na sua vida.
Mas eu tenho uma relação diferente com os livros. Uma relação que não tenho com rigorosamente mais nada. Quando gosto de um certo livro, fecho-o, digo-lhe até qualquer dia e ponho-o a dormir numa prateleira de onde o possa contemplar.
Quando não gosto do livro atiro-o pelo ar e recuso-me a dar-lhe abrigo debaixo do meu tecto.
Pode dizer-se que é uma relação amor-ódio, daquelas que tendem a piorar com a idade. Mas tirando os livros dos Cinco e da Condessa de Segur que povoaram a minha infância, vivem comigo os livros mais importantes da minha vida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Derreter

Eu não sou definitivamente uma pessoa de calor.
Primeiro: Porque me sinto burra. Vejo os neurónios a escorrerem por mim abaixo, juntamente com a água que destilo. Percebo agora porque é que em países como a Suécia o grau de produtividade é muito superior.
Segundo: Porque nem que esteja nua em cima da cama continuo com calor, ao passo que no Inverno, um bom edredão de penas resolve a coisa.
Terceiro: Entrar no carro que ficou parado ao sol tira-me anos de vida, mais precisamente cinco anos, até o ar condicionado começar a surtir efeito.
Quarto: Sinto-me capaz de ficar estendida no sofá o dia inteiro com uma intra-venosa de soro para não desidratar, mas nunca me posso dar a esse luxo.
Quinto: Gostava de me sentar muito sossegada dentro do frigorífico, mas não quero dar ideias à minha filha.
Sexto: O leite que tinha guardado na cozinha azedou todo...

Questões de Princípio


Numa das minhas idas aos Estados Unidos trouxe uma caneca com umas frases famosas de Thomas Jefferson.
Usava-a para beber o meu café matinal, mas cedo iniciei uma relação de amor com ela. Gostava mais de a ter à minha frente do que a servir de recipiente para a minha bebida de eleição, por isso de vez em quando trago-a para perto de mim enquanto trabalho no computador e leio-a vezes sem conta, como se aprendesse uma lição de cada vez que sigo as linhas de letras na superfície circular.
Hoje ao olhar para a minha companheira senti que devia partilhar aqui as pequenas lições nela impressas:
- Em questões de estilo, nada com a corrente; Em questões de Princípio permanece firme como uma rocha.
- Nunca incomodes ninguém por algo que podes fazer sozinho.
- Quando estiveres furioso conta até 10 antes de falares, quando estiveres tremendamente zangado conta até 100.
- Os meus afectos devem ir em primeiro lugar para o meu país e só depois para toda a humanidade.
Esta última frase é extensível a um sem número de coisas na nossa vida. É um lembrete para que nunca se invertam prioridades. Para mim enquanto houver uma única criança a sofrer, jamais gastaria as minhas energias a defender animais.
Enquanto alguém da minha família precisar de ajuda, essa pessoa terá sempre prioridade sobre desconhecidos.
Às vezes precisamos de uma mão cheia de princípios para mantermos os pés bem assentes naquilo que importa.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Vocação

Às vezes sinto que nós portugueses sofremos de falta de vocação crónica.
Vejo estudantes de medicina que tiram o curso pelo prestígio. Jovens que seguem a magistratura pelos privilégios e pelo satus da coisa. E vejo cada vez menos profissionais com coração, com amor àquilo que fazem.
Talvez o passar dos anos lhes roube um bocadinho a inocência, a paixão do inicio de tudo, mas não pode de maneira nenhuma roubar-lhes valores. Pois eles detêm dentro das suas mãos o poder de salvar vidas, de lhes dar conforto, de decidir nessa linha ténue da consciência o que é melhor, ou pior para a vida daquela pessoa naquela circunstância. Médicos e Juízes deveriam ser as profissões mais nobres (não roubando a nobreza de muitas profissões) e não as mais prestigiantes. Deveriam ser exercidas com igual dose de sabedoria médica e humanidade. Pela letra da lei e pela letra da consciência. E acima de tudo com muita humildade.
Seguirem estas carreiras por vaidade, por satus, por prestígio é talvez o mais perigoso de todos os passos.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cá se Fazem...

Prometi à Alice que lhe fazia uma papa Maizena para o lanche. Ela foi dormir a sesta e meto a mão na massa (neste caso na Bimby) para preparar essa recordação de infância chamada Maizena.
Despejo-a para o prato e fico ali a vê-la, a saliva mistura-se com as lágrimas que engoli. Eu olho a papa Maizena e ela olha-me a mim num flirt mais do que sensual. Pode ser que a minha filha se esqueça que lhe prometi e mesmo que se lembre posso sempre fazer outra a correr.
Pego no prato, numa colher de sopa e sentindo-me tremendamente culpada por roubar o lanche da minha filha abanco-me no sofá. Mas espera aí Ana falta uma coisa fundamental: Canela!
Levanto o rabo do sofá e corro à cozinha onde despejo à pressa o frasquinho da canela em pó. Volto a sentar-me, olhos vidrados na televisão. A verdadeira alarve. Atesto a colher de sopa e detenho-me a meio caminho só a antecipar o sabor maravilhoso. Levo a colher à minha boca salivante e...
O vómito chega, à ultima hora consigo evitar que saia tudo a jorros pela boca fora. Olho o prato e aquilo não parece canela. Aquilo não é canela... Aquilo é caril em pó...

O Pânico Instalou-se

Será normal pôr gotas nos olhos e engoli-las?
Vou explicar melhor, quando ponho as gotas nos olhos acho que elas passam para a garganta.
Será possível, ou estarei toda rota com os canais em curto circuito?
O pânico apodera-se de mim a um ritmo galopante.
Acho que vou experimentar pôr as gotas na boca e ver se elas saem pelos olhos só para confirmar.

Esquecer-me de Mim no Meio de Nós

Eu sei que há casais que fazem absolutamente tudo à frente um do outro e que algures na vida em comum se esqueceram até onde acaba um e começa o outro.
O tempo vai passando e o que antigamente era escondido com pudor à sua cara metade, agora é exibido sem qualquer espécie de vergonha.
Toca de se bufarem, limparem os salões de baile enquanto vêem um filme na televisão, coçarem a micose com um ruído tal que acordam os vizinhos, partilharem o mesmo espaço enquanto um deles despeja a sua matéria orgânica.
Entre eles já não há barreiras de qualquer espécie, já não há mistérios por desvendar e absolutamente nada a esconder.
Pois eu acho que este é o primeiro passo para o suicídio do romantismo.
Há simplesmente coisas que devemos manter só nossas e por muitos anos de convivência que se tenha, não devemos desvendar tudo, tudo, tudo.
Eu continuo a ser eu mesmo depois de casada, não nos fundimos num único e indistinto ser. Por incrível que pareça a alguns casais ouvir isto, eu ainda tenho a minha conta bancária e ele tem a conta bancária dele. A única conta que partilhamos é a da nossa filha.
O Hugo tem os seus amigos e eu tenho os meus. Não passaram subitamente a ser os nossos amigos.
O mais aberrante de tudo é eu ter uma operadora de telemóvel e ele ter a dele. Aqui sim já fomos alvo de olhares incrédulos, torcidelas de nariz e até críticas mais severas.
Mas eu continuo a achar que nos temos safado bem assim. É que eu não queria esquecer-me de mim algures no meio de nós :)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Diálogos a Duas

Desde que a minha filha começou a falar que as minhas viagens de carro nunca mais foram as mesmas:
- Mãe o que é aquilo?
- É uma antena Alice.
- O que é uma antena?
Cansada tento responder da maneira mais cobarde:
- É aquilo que está ali.
- Mas o que é?
Sentindo-me culpada faço um esforço:
- Aquela em cima do prédio serve para ajudar os telemóveis.
- O quê? Não percebo nada mãe!
Em desespero de causa tento desviar a atenção dela:
- Porque é que não ouvimos a música? Vamos cantar vá lá lá lá.
- Mãe o que é uma antena?
Estratégia Bomba Nuclear:
- É um objecto que permite emitir, ou receber ondas electromagnéticas.
- Ah! Está bem.

- Mãe porque é que a lua vem sempre atrás dé nós?
- Porque é enorme e está em todo o lado.
- Não, porque é que ela vem sempre atrás de nós?
- Porque gosta imenso da nossa companhia.
- A sério? Eu também gosto muito dela.

Cinco Em Câmara Lenta

O João Pedro e a Hannah desafiaram-me para apontar 5 momentos na minha vida que gostaria de ver repetidos em câmara lenta. E como fico sempre com a sensação de que é indecente da minha parte esquecer-me de tantos desafios, vou respirar fundo e lembrar-me. Às vezes é bom lembrar para não esquecer o essencial.
1- Podia dizer que queria ver repetido em câmara lenta o dia em que a minha filha nasceu, mas vou antes dizer que gostava de voltar àquela manhã de inverno em que me deitei ao lado dela e adormecemos a olhar bem nos olhos uma da outra. Foi como se finalmente pudesse descansar e ceder ao amor que sentia.
2 - Gostava de reviver em câmara lenta o dia do nosso casamento. Não a cerimónia em si. Mas à noite, quando tudo tinha terminado e ficámos apenas os dois como marido e mulher.
3 - A viagem que fiz a Itália com a Rita e a Diana. Sem histórias de amor nas nossas vidas. Tudo era possível, tínhamos a vida inteira à nossa frente e uma amizade cheia de cumplicidade.
4 - A primeira vez que vi Veneza. Até hoje lembro o nó na garganta, o arrepio de emoção quando o comboio entrou em Santa Lúcia.
5 - Quando segurei o exemplar do meu livro nas mãos e senti que os sonhos também se tornam realidade.

O que Não Devem Oferecer A uma Mulher

Só para o caso dos poucos membros do sexo oposto que lêem este blog estarem interessados, vou-vos dizer o que é que uma mulher não gosta de receber como presente e por favor mulheres que me lêem, confirmem, ou desmintam se estiver errada:
Electrodomésticos.
Há qualquer coisa na oferta de um ferro de engomar última geração, ou numa picadora 1,2,3 que faz passar a mensagem:
-És boa como tudo... Boa doméstica!
Nós gostamos de sentir que ainda há uma mulher por baixo das tarefas caseiras que nos consomem. E precisamos de vocês para nos puxarem da pilha de roupa por passar, para nos dizerem que somos muito mais do que isso. Já para não falar que quando nos oferecem um electrodoméstico, dão um presente para a casa e não para a vossa mulherzinha.
Voluntariarem-se para passar a roupa já é de considerar como presente de sonho.
Sei que não fazem por mal. Aliás, tenho a certeza que quando o Hugo me ofereceu aquela máquina de iogurtes num dos meus aniversários, foi apenas porque eu andava a sonhar há meses com iogurtes caseiros e ele decidiu fazer-me aquela surpresa fantástica. Mas quando abri o embrulho e vi uma iogurteira, qualquer coisa dentro de mim quebrou e dei o meu melhor para me mostrar fascinada com aquela surpresa.
Mas não era o presente de anos que queria...
E agora vou confiar na minha tremenda sorte que me diz que ele não vem aqui ler isto :)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Ódios de Estimação (Desabafo número 9)

Casais de namorados sentados românticamente em bancos de jardim a espremerem pontos negros um ao outro. Não existe explicação possível para tanta intimidade cutânea. Só me dá vontade de lhes vomitar em cima.

Ler, ou não Ler no WC?

Ler, ou não ler no WC, ou water closet para os mais eruditos, eis a questão.
Durante muito tempo achava quase um sacrilégio levar boa literatura para me entreter durante o acto de... Como é que lhe hei-de chamar? Durante o acto de libertação orgânica.
E como sempre fui rápida, indolor e inodora (é claro) durante a coisa, nunca achei necessário munir-me de um livro para me acompanhar nas horas mais solitárias.
No entanto sabia de pessoas que se não tivessem mais nada à mão levavam as Sagradas Escrituras para o poleiro. Outras que levavam a chamada literatura de bosta, como as revistas da fofoca. Outras que eram até capazes de levar os Miseráveis de Victor Hugo para as ajudar na árdua tarefa de parirem um calhau.
Confesso que sempre me ri à socapa só de imaginar a cara do Saramago se soubesse que era lido em tais circunstâncias. Se bem que para mim o Saramago (e atirem-me pedras se quiserem) é literatura de insónia. Resulta melhor do que um Valium 10.
Mas avançando na minha divagação. Como já devia ter aprendido há muitos anos, não devemos gozar com nada na vida dos outros, pois um dia pode-nos calhar a mesma sorte e assim foi. Grávida de poucas semanas, comecei a ser assolada pela mais grave crise de prisão de ventre da minha existência.
Nada resultava. Por mais fibra que enfiasse pela garganta abaixo, a Alice foi a responsável pelo maior número de horas sentada na sanita de que tenho memória.
Nessas minhas horas solitárias dei por mim a ler os rótulos dos Shampôs, Gel de banho, pasta de dentes, até bulas de medicamentos. Tudo servia para me abstrair daquela tarefa tão dura em todos os sentidos e timidamente comecei a levar às escondidas umas revistas da cusquice para me acompanharem. Não havia melhor do que ler as aventuras da Lili Caneças naquele ambiente. Mas cedo me entediaram as aventuras do nosso Jet7. Eram sempre as mesmas caras, as mesmas festas, os mesmos eventos. Por isso essas revistas cederam lugar aos livros.
Depois da minha filha nascer e consumida pelo choro constante daquele bebé absorvente. O único tempo que tinha para ler era de facto na casa de banho. E muito embora já não sofresse de qualquer dificuldade a esse nível, dava por mim a ler entre o sossego daquelas quatro paredes. Acreditem que cheguei a ler um livro inteiro apenas nos momentos em que me sentava na sanita.
Hoje em dia atribuo a esse hábito que sempre critiquei um nome bem mais pomposo do que é na realidade. Eu digo que é a paixão pela leitura.
Mas há quem certamente diga com a mesma rapidez que me estou é a cagar para a leitura.
Tenha o nome que tiver, digam o que disserem, eu prefiro continuar a pensar que é tremendamente intelectual levar um bom livro para qualquer parte da nossa vida.

domingo, 24 de maio de 2009

O Meu Puff


E porque o mais giro num blog é podermos escrever desde os temas mais profundos, aos mais parvos. O meu tema de hoje é tão válido com qualquer outro e é parvo que se farta.
Comprei um puff para a minha sala. Não é um puff qualquer, é de pele castanha e cheira a vaca cremada (juro).
Comprei um puff porque adoro enterrar-me dentro daquela superfície envolvente a ler um bom livro e só conseguir sair lá de dentro com a ajuda de uma grua, ou da força braçal do Hugo.
Confiei na Alice que se atirou para cima dele com o ar mais relaxado do universo e me implorou que o levasse para nossa casa. E então eu trouxe-o para nossa casa.
Depois de o colocar estrategicamente num sítio onde pudesse observar tudo sem ser observada decidi ceder ao impulso infantil que ainda tenho dentro de mim e atirar-me para cima dele. No caminho entre o voo em que me lancei e a superfície de pele de vaca cremada imaginei-me a ceder à preguiça durante a programação da tv e fechar os olhos. Era o início de uma longa relação de amizade...
Só que quando aterrei a única coisa que senti foi a minha espinha a partir-se.
Devo ter comprado a porra do puff mais duro da história dos puffs.
De maneira que agora serve para estender as pernas enquanto leio, neste caso um bom livro.
Nesse sentido foi um bom investimenro, mas apenas e só nesse sentido, as minhas pernas agradecem...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

E Quando as Coisas Simplesmente Terminam?

Quando oiço dizer que aquele namoro de 10 anos chegou ao fim. Que aqueles dois que pareciam pertencer um ao outro desde sempre seguiram caminhos diferentes pergunto-me o que é que correu mal.
As coisas não evoluiram e estagnaram, pendentes de tudo à sua volta simplesmente bloquearam no tempo. Não há ainda condições para um casamento, ou vida em comum, para filhos, para uma casa e ficam naquele eterno namoro de jovens que parece retê-los, prendê-los numa época, congelando tudo à sua volta.
Um dia acordam e decidem que a sua vida está em pausa há 10 anos e que não vai passar daquilo.
Depois o mais estranho sucede. Eles separam-se, muitas vezes ficam grandes amigos. Coisa que nunca entendi, pois eu não seria capaz de ficar grande amiga de uma ex-relação gigantesca. Conhecem alguém novo, casam e têm filhos a correr.
Porque é que não o fizeram com aquela pessoa durante 10 anos? O que é que não sentirá o outro quando vê o parceiro de tantos anos recompôr-se tão rapidamente e arranjar alguém com quem finalmente dá o passo seguinte? Foram 10 anos de quê? De um tremendo engano? Ou foram 10 anos necessários para cada um seguir uma vida completamente oposta à que viviam?
É um mistério para mim. Mas imagino que deva doer para quem assiste ao recompôr veloz da vida de quem pensou durante tanto tempo ser a sua alma gémea.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Não Me Pertences

Bem sei que não posso ser eternamente a protagonista na tua vida.
Apesar dos nossos dias em conjunto se assemelharem a uma longa metragem, os papéis vão brilhando mais, ou menos, consoante o desenrolar da história.
No episódio de hoje entraste aflita na casa de banho enquanto eu tomava banho e gritaste: Mãe não podes molhar os olhos, tem cuidado!
No episódio de ontem sabias onde estavam as minhas gotas e assim que disse que estava na hora de as pôr apareceste com o frasquinho na mão.
E eu senti um conforto inexplicável por te saber atenta, preocupada comigo e pedi secretamente para que esse instinto nunca te passasse.
Pedi em segredo que nunca me visses como um fardo pesado demais na tua vida quando começasse a revelar-me menos jovem.
Pedi em segredo para que nunca me visses envelhecer mal. Pois mais do que a morte física, tenho pavor da morte pelo olhar dos outros. Quando os filhos deixam a pouco e pouco de ouvir os pais, de dar importância à sua palavra. Quando os pais se tornam invisíveis. Quando a companhia não passa de uma obrigação cumprida com enfado. Tenho muito medo de envelhecer assim.
Depois olhei para ti e senti que a cada minuto que passava eras menos minha mais um bocadinho, mas que apesar de tudo, eu seria tua incondicionalmente até ao último dos meus dias. Simplesmente porque é esse o destino de uma mãe.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Minha Primeira Míele


Eu não sou uma dona de casa exemplar. Não gosto da maior parte das tarefas. Aliás, encaro-as como um trabalho que tenho que cumprir o mais rapidamente possível para me poder entregar a outras coisas mais importantes.
Lembro-me que há uns anos atrás ouvia uma conversa de mulherio sem intervir e elas falavam de como esticavam a roupa toda antes de a pendurar no estendal. Parece que assim a roupa ia impecável para passar a ferro. Os meus olhos deram uma volta completa nas órbitas como se tivesse saído do exorcista.
- Fazes o quê? Pergunto eu.
- Ah a minha roupa não se estraga. Há pessoas (leia-se mulheres) que estragam a roupa toda na máquina. Isto tudo dito num tom de cumplicidade, de mistério feminino. Como se fosse uma realidade paralela que me andava a passar ao lado há anos a fio.
Tendo esta mentalidade pouco doméstica nunca investi em electrodomésticos topo de gama. Ia sempre para as marcas mais baratas. Pois podia jurar que faziam exactamente o mesmo que as mais caras.
Fazer o mesmo até faziam, mas durante quanto tempo era a verdadeira questão...
O primeiro a padecer foi o meu frigorífico americano LG . Com apenas 1 ano e meio morreu de um dia para o outro levando consigo toda a comida armazenada no seu interior. Esteve 3 meses para voltar cá para casa. 3 meses longos e duros em que eu repeti para mim mesma que o barato sai caro.
Depois foi a máquina da loiça que deixou de secar a loiça.
E least, but not last, a máquina da roupa que de cada vez que centrifugava nos obrigava a fugir de casa devido ao barulho de explosão eminente.
Foi então que me passei da cabeça. Acho que se pode dizer que tive uma epifania de Dona de Casa Perfeita e decidi comprar uma máquina Míele. Esse mito, esse ícone do mundo do electrodoméstico.
Ao penetrar no interior da loja disse apenas: Eu quero uma Míele.
- Mas tem preferência por algum modelo? Costuma lavar sedas, roupa delicada? Temos a nova tecnologia do tambor com favos e...
- Sedas eu? Favos? Não, eu só quero uma Míele.
Olhares estupefactos da empregada.
- Eu quero a mais barata de todas. Só tem que durar como uma Míele.
E continuei a repetir a mesma frase para a empregada que me deve ter rotulado de lavadeira ignorante assim que me pôs os olhos em cima.
E assim meus queridos, esta dona de casa imperfeita acabou de adquirir um mito de fazer roer de inveja o mulherio mais preocupado com as questões da lavandaria doméstica.
Eu também tenho uma Míele.

A Venda Agressiva

Eu sei que já falei sobre isto, mas eles "andem aí" e eu não consigo controlar a minha vontade de mal dizer.
Os vendedores de cartões de crédito no meio dos centros comerciais, as barraquinhas com campanhas de ajuda para tudo o que mexe nos corredores dos hipermercados que me obrigam a caminhar com o meu olhar pregado no infinito, ou a atender uma chamada imaginária de cada vez que passo por eles são já um dado adquirido na minha existência.
Mas há um pesadelo que não consigo superar. Aquele que me dá vontade de gritar de cada vez que me assediam:
- Deixa ver sua mão! Querida venha cá, há quanto tempo não cuida da sua mão? Olha para mim, não vai embora!!!!
De cada vez que vejo um desses quiosques de venda de produtos para as mãos o meu olhar no infinito não resulta, as chamadas imaginárias são irrelevantes, o meu ar mais antipático deve ser visto por elas como sorriso cativante. Pois as mulheres não vão desistir enquanto não conseguirem enfiar-me uma mistela nas mãos e juro-vos já estive mais longe de fazer uma queixa à direcção do Shopping. Que merda é esta? Tenho a sensação de caminhar por uma rua de Calcutá com uma fila de crianças famintas atrás de mim a venderem caricas, garrafas de água contaminada, tudo o que consigam impingir ao turista. Só que eu não estou na Índia, estou numa superfície comercial em Portugal. Mas pelos vistos apostada em querer dar a imagem do 3ºmundo a quem por lá se passeia.
Eu já decidi a estratégia: Vou enfiar um tijolo na carteira e da próxima vez que elas correrem atrás de mim para que eu lhes mostre as mãos, eu mostro-lhes o poder do tijolo na face (que é para não dizer na tromba).

terça-feira, 19 de maio de 2009

Ódios de Estimação (Desabafo número 8)

Pais de Criancinhas insuportáveis que nada fazem para corrigir o filho.
- És velha e feia! - Diz a criança na direcção da avó.
Sorriso amarelo da avó. Mãe em voto de silêncio.
- Tens uma barriga enorme, porque é que és tão gordo? - Fala a criancinha na direcção do avô.
Mãe ainda é capaz de sorrir como quem diz: Ai que gracinha que ela tem. Mesmo já com 9 anos continua encantadora, cheia de espírito.
Penso que aqui estão os futuros putos bullings, se é que este nome existe. Os miúdos a quem tudo é permitido, a quem não é incutida uma réstia de sensibilidade para com o próximo. Miúdos em que a javardice, porque é o único termo que me ocorre depois de passar 5 minutos com uma criança assim, é aplaudida como uma graça sem fim pelos pais babados por tudo o que o filho faz.
Nesta espécie de anarquia em que o pai insiste em ser compincha em vez de pai, a mãe melhor amiga em vez de mãe. Neste marasmo em que não há deveres, apenas direitos, em que o mau comportamento não é travado porque dá muito trabalho, ou simplesmente porque se tem medo de dizer não ao menino é que se criam monstros infelizes.
Se pensam estar a fazer o melhor por eles ao sorrirem com todas as "gracinhas" preparem-se para o maior choque da vossa vida...

A Passagem do Tempo

Hoje queria abrir o armário e ter só coisas perfeitas para vestir. Olhar-me ao espelho e ver apenas um reflexo que me fizesse sorrir. Hoje queria deixar de olhar para aquela nódoa na minha camisa preferida e concentrar-me em tudo o que não está manchado. Hoje queria deixar de olhar a loiça suja à espera das minhas mãos e olhar apenas a loiça nos armários. Perfeitamente arrumada.
Hoje queria poder abraçar-me e confortar o meu corpo tenso demais.
Hoje queria poder viver de amor, chegar-me a ti e inspirar-te como um remédio milagroso.
Hoje sei que tenho que me sentar aqui e ganhar inspiração. Hoje de todos os dias tenho que fechar os olhos e sentir-me tocada por aquele sopro invisível que nos lança as mãos numa correria inexplicável para se manterem ligadas ao pensamento.
Hoje sinto-me pequena e logo hoje que tinha que me sentir gigante.
Às vezes o tempo range quando passa e conseguimos ouvi-lo sussurrar em cada recanto de nós.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

E Quando o Toque do Telemóvel Estraga Tudo

Não acham que um toque de telemóvel diz muito acerca do seu dono? Não que eu goste de pôr rótulos, mas eram capazes de se apaixonar por alguém cujo toque de telemóvel fosse "Para bailar La Bamba"?
Ou fechar um negócio importante com um sujeito cujo telemóvel começasse a entoar umas gargalhadas desenfreadas de bebé?
Só eu é que perdia o apetite se estivesse num jantar e começasse a ouvir no volume máximo a Ana Malhoa a cantar?
Sempre que compro um telemóvel (ao longo da minha vida tive 2) a primeira coisa que faço é procurar um toque que se pareça com um telefone. Mas isso sou apenas eu, uma conservadora incorrigível no que toca às telecomunicações.
Tirando o alerta de mensagens que é uma campainha da porta a tocar, o meu toque chama-se trim-trim.

O Amor à Primeira Vista

Todos somos ensinados a procurar um grande amor desde cedo.
Há quem diga que basta um olhar para sabermos que estamos destinados. Outros defendem que quando as palavras encaixam magicamente naquilo que sentimos e se antecipam a nós encontrámos o filão do amor.
Há ainda quem acredite que é quando os corpos se conhecem e se encaixam como uma roupa feita à medida que teremos chegado ao fim da nossa busca e a nossa vida pode rumar para dentro da outra pessoa como uma corrente imparável. Podemos deixar-nos ir, podemos esquecer-nos de nós, de quem somos, de quem queríamos ser e passarmos o resto dos nossos dias a dedicar-nos ao outro com um náufrago que acabou de encontrar uma embarcação que o socorreu.
Esta pode ser, ou pode não ser a minha opinião. Mas o que eu gostava mesmo de saber é se acreditam em amor à primeira vista? Se acreditam que ainda existem amores para sempre que começaram assim com um olhar, um toque, uma carícia suave...

domingo, 17 de maio de 2009

Quando a Pachorra Atinge o Nível do Guiness

Pior que o genérico da nova novela da TVI, pior do que ver as criancinhas a cantar em tudo o que é canal, pior do que aquele mágico cobarde e com uma máscara do filme Haloween a cobrir-lhe as ventas, que põe a nu todos os truques de magia, apostado em deixar o Luís de Matos no desemprego. Pior, mil vezes pior do que tudo isto junto, só mesmo o World Guiness Book Of Records.
Ainda hei-de ver por lá alguém a tentar a proeza de conseguir tirar 5 quilos de cotão do umbigo em cinco segundos. Ou mais macacos do nariz do que aqueles que consegue engolir em 10 segundos. Pessoas lutadoras que treinaram anos a fio da sua vida só para atingirem este nível de perfeição. Até me comovem.
Haja pachorra para a programação televisiva em Portugal. Mas haja pachorra redobrada para a programação televisiva de fim de semana.
Se não fosse a minha Power Box o que seria de mim?

sábado, 16 de maio de 2009

Morder a Língua

Sabemos que andamos a falar demais em frente da nossa filha quando entramos na sala e ela nos diz:
- Então Bitch?

Diz-me a tua matrícula dir-te-ei quem és


A L criou este desafio no mínimo original. Quantas vezes não passo por carros cujas matrículas me fazem rir, pensar, imaginar, dar seguimento às letras.
Lembro-me quando há alguns anos atrás, a minha irmã foi buscar um carro novo a um stand e veio toda vaidosa, sorriso de orelha a orelha a conduzir o seu brilhante Honda Civic. Passou cá por casa para me mostrar aquela máquina reluzente, em contraste com o meu Renault 5 em sétima mão, mas muito estimado e amado. Quando a vi dobrar a esquina, cheia de si, o meu olhar caiu sobre a matrícula e o riso começou numa crescente incontrolável, até tomar conta de tudo à minha volta. Ela incrédula perguntou:
- O que é que foi, não gostas?
- Vais-me dizer que não viste? Ah Ah Ah
Ela começou a ficar verde, já a imaginar que ia tecer uma qualquer crítica invejosa ao bólide novo.
- A matrícula! Ah Ah Ah Ah
- O que é que tem a matrícula?
- PU, não viste? Não reclamaste? Ah Ah. A tua matrícula é PU!!!!!!
Ela ficou na mesma, mas se fosse comigo tinha esperado mais um mês só para não andar ao volante de um carro com tamanho estigma. Só eu é que via as iniciais daquela palavra de beira de estrada?
Passando esta memória de juventude e voltando à matrícula do meu carro. Vocês que me conhecem e que sabem um bocadinho acerca das coisas mais importantes na minha vida vão perceber o que senti quando bati os olhinhos (na altura com óculos) nesta pérola da literatura automóvel.
De cada vez que olho a matrícula do meu carro é e será sempre Alice, o nome da minha filha :)
Quem se sentir motivado a fazer este desafio é favor matricular-se à vontade.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Tirem-me deste Filme

Estou proibida de deixar entrar água nos olhos durante um mês. Ora bem em termos de lavar o cabelo pensei em óculos de mergulho. Mas na primeira semana dei o desconto e resolvi entrar num cabeleireiro ao acaso só para lavar o cabelo:
- Boa tarde é só para lavar e secar rapidamente.
O cabeleireiro estava às moscas, senti-me a primeira e última cliente do dia.
- Ai mas qual rapidamente, vai fazer mãos?
- Não, só mesmo lavar e secar.
- E pés?
Começo a olhar a porta da saída, mas já fui empurrada e conduzida a um dos lavatórios onde uma mulher de meia idade histérica e oxigenada me empurra. Fica-me com o casaco e com a carteira e faz com que desapareçam algures num armário embutido.
"Porra que fui emboscada". Penso já com a toalha aos ombros.
- Só lhe pedia que tivesse cuidado com os olhos para não entrar água.
Mas a mulher já me enfiou a mão no escalpe como se não houvesse amanhã e diz-me:
-Relaxe querida que eu vou cuidar de si. Ai tanto stress que estou a sentir.
"Pudera", penso eu.
E as manápulas impiedosas lançam bocadinhos de espuma em todas as direcções, mas principalmente para os meus olhinhos vermelhos e aterrorizadamente fechados. Depois segue-se o que me pareceu uma cena de filme de ficção científica. Ela massaja-me o craneo com tal força que me preparo para morrer de traumatismo ucraniano (como diria a minha empregada).
- Está a sentir o stress a sair?
"se continuas assim sai-me o cérebro pelo rabo, disso podes estar certa" pensei.
E toca de me espremer mais a cabeça, convencida que estava a caçar uma cliente para toda a vida. Quando dei por ela estava com as mãos no meu pescoço a pressioná-lo até ao limiar da fractura exposta.
- Sabe é que estou com um bocadinho de pressa.
- Mas que pressa, deixe que cuidem de si para variar.
Acabou a lavagem e levantei-me com a massa encefálica a sair pelo nariz e o cabelo dormente.
- Uma secadela rápida, não quero brushing.
- E sai assim desarranjada? Nem pensar meu amor.
E toca de me enfiar as molas no cabelo, me repuxar com a escova, mandar-me com o bafo do secador para os olhos que parecem post-its de tão secos.
Saí de lá com menos 22 Euros e o orgulho feito em fanicos. O que é que me aconteceu ali dentro? Como é que me deixei levar daquela forma? Só pode ter sido a massagem mortífera que me assassinou uns quantos neurónios.
Cabeleireiros ao acaso nunca mais na minha vida. Óculos de mergulho venham eles. Ou então peço ao meu marido que me lave o cabelo no jardim e faça de Robert Redford que eu faço de Meryl Streep.

E Quando as Notícias da Vida de Alguém São Boas Para Variar


E quando ficamos anos sem ouvir falar daquela pessoa que marcou uma altura do nosso passado e de um dia para o outro descobrimos que compôs e interpreta (como percursionista) a música que nos vai representar no Festival Eurovisão da Canção?
Não que esse evento me diga alguma coisa, ou que sequer me dê ao trabalho de verificar se ficámos em último, ou penúltimo lugar. Mas este ano podes crer que vou torcer por ti . Quem sabe não perco a cabeça e até assisto ao evento pela televisão? E daí acho que prometo o impossível, tenho uma ideia melhor, gravo na power box e depois meto em Fast Foward até chegar à vossa interpretação.
É que tu, apesar de tudo, nunca desististe da música e eu prezo muito quem corre atrás dos seus sonhos.
Força Pedro Marques!

Torrada com Manteiga

Quando penso na melhor forma de decidir se aquele é um amor de verdade uma única imagem chega de rompante e afoga-me o coração em mil sentidos.
A forma como ele faz com que ela se veja.
Não são as palavras, os beijos, os abraços, os presentes. Se bem que também é tudo isto, mas agora, para o que importa, não é nada disto.
Ela vê-se reflectida no olhar dele, pelo olhar dele e isso faz com que volte a resgatar o amor por si mesma. Pois nunca se tinha visto assim. Nunca se imaginara pelos olhos de ninguém que não os dela própria e esses eram demasiado injustos, exigentes, negligentes até.
Mas agora que aprendeu a ver-se pelo olhar do amor sente que afinal até merecia uma coisa assim.
Quando alguém consegue amar-se e comover-se através do olhar que lhe lançam de si própria. Quando alguém vê relfectido na emoção do outro tudo o que jamais imaginou possuir, não terá que procurar muito mais. É como torrada com manteiga. Completam-se.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Quando o Luxo do Repouso se Torna Uma Miragem

A indiferença dos filhos pequenos ao nosso mal-estar é talvez das coisas mais cansativas que alguma entidade superior inventou apenas com o propósito de nos torturar.
Eu só queria poder estar um bocadinho com os olhos fechados, pois eles estão tão, mas tão secos que se sair à rua com o vento que está fico com a paisagem inteira colada nos olhos. Autocarros e tudo.
As palavras de conforto que recebo:
- Mãe, ó mãe olha para mim. Não quero que tenhas os olhos vermelhos, não gosto. Mãe, ó mãe olha aqui, não gosto quando fechas os olhos. Mãe, ó mãe, olha só o que eu estou a fazer. Olha as minhas pulseiras mágicas, queres ver a magia? São perfeitas! Mãe, ó mãe estás melhor e agora já melhoraste? Já podes olhar? Mãe querida fofinha eu adoro-te e tu? Agora estás bem? Mãe nunca mais vais ao médico dos olhos, nunca mais!!!!!!!

Mais um Cheirinho do Primeiro Mundo

Na Suécia quem nos atende nos restaurantes e atrás dos balcões são suecas descomplexadas de olhos azuis fluorescentes e cabelo muito loiro. Verdadeiras betinhas surfistas da linha. Uma pessoa até se sente assim constrangida quando aquelas meninas todas cheias de estilo nos enfiam com o salmão em cima da mesa. A nossa vontade é convidá-las para se sentarem connosco como velhas/novas amigas.
É claro que também há emigrantes atrás dos balcões, mas a maioria é assumidamente e sem qualquer tipo de vergonhas, sueca.
O que me leva à questão: Onde estão os nossos empregados de mesa? Aqueles que conhecem as caras, os nomes dos nossos filhos, nos perguntam pelo trabalho, sabem o que mais gostamos de comer. Aqueles que fazem do servir à mesa uma arte, um prazer para quem é atendido?
Sim, estão a envelhecer e nos restaurantes mais típicos, aqueles que insistem em manter algumas tradições, como a dos empregados de mesa-família como eu lhes chamo.
Ainda vou a alguns restaurantes onde me tratam por menina e sabem exactamente o que vou pedir, ainda que fique anos sem aparecer por lá.
Mas infelizmente os portugueses têm cada vez mais vergonha, ou idiotice ainda não percebi bem, de trabalharem no que quer que seja que não tenha Dr. antes do nome. Por isso é vermos esta arte tão querida em vias de extinção e cada vez mais empregados de outras nações, ou mesmo da nossa nação a atirarem-nos com pratos em cima do topo da sua arrogância. A não perceberem os pedidos à primeira, à segunda, ou à terceira e a fazerem o favor de nos porem a comida à frente sem um sorriso, sem um bom dia, sem nada que nos dê sequer vontade de lhes deixarmos 1 cêntimo de gorjeta.
Qualquer dia temos que os tratar por Dr. Em vez de: "Faxavor Garçon" (ah ah garçon) passará a ser: "Faxavor Sr.Dr! Podia mandar passar mais um bocadinho o bife?"
- Ah se eu sou Dra.? É mesmo preciso saber o meu grau académico para mandar passar o bife? Então sou Doutora por extenso, Arquitecta, Engenheira e quero isso bem passado!
Na Suécia não se tem vergonha do trabalho, qualquer que ele seja. E cá? hmmm acho que não é preciso pensar muito.

*Perguntinha idiota: Já vos aconteceu pedirem-vos para preencher um estúpido cartão de fidelidade de uma loja rasca de bijutaria e uma das perguntas ser: Grau académico? Só mesmo cá...
E os cartões que nos impingem nas lojas davam outro post...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Mulheres da Blogosfera e da Vida Real

Achei que o tema do post anterior merecia uma continuação. Por isso aqui venho completar alguns pensamentos que tenho acerca do sexo oposto e da mente feminina.
Sempre fui muito resguardada em relação a mostrar-me por inteiro logo à partida. Se queremos que alguém nos conquiste não podemos dar-lhes de mão beijada todas as chaves para o sucesso. Gosto de deixar as pessoas agirem sem saberem bem o que dizer para me conquistarem. Sem lhes dar muitas pistas.
Só quem me conhece realmente bem tem acesso aos meus meandros interiores.
Mas por algum estranho motivo. Quem sabe para compensar um pouco a minha retracção, tal como uma irmã de alma que puxa por nós, a escrita sempre me obrigou a mostrar-me tal e qual como sou, não me deixando travar, calar, conter, guardar. Na escrita sou plena de mim. Simplesmente porque não consigo escrever o que não sinto.
Essa dualidade sempre me manteve equilibrada, por isso, tal como alguém que precisa de uma terapia qualquer para não descarrilar, a minha terapia são as letras que me espelham e me limpam.
Quanto àquelas mulheres que se denunciam logo à partida a um homem em fase de conquista não as critico. Mas eles são muito mais espertos do que aparentam ser com aquele olhar que nos absorve. Enquanto vocês falam dos amores falhados ao longo da vossa trágica vida amorosa, dos que já vos levaram para a cama, da vossa carência doentia pelo sexo oposto, eles já vos estão a pôr uma cruz vermelha em cima.
Enquanto vocês falam acerca da necessidade que têm de ser surpreendidas já eles estão a magicar a forma como no dia seguinte vos vão surpreender. E depois ficam nos céus porque ele simplesmente adivinhou o que vos faz felizes, quando simplesmente se limitou a ouvir as vossas dicas todas.
Não digo que não se dêem a conhecer, mas façam-no com calma meninas. Penso que este jogo da conquista deve ser feito de igual para igual. Dêem quando ele der. Carta a carta, dia após dia vão lançando mais um bocadinho de vocês e quando sentirem que se podem realmente mostrar, que aquele homem é de facto merecedor de entrar no lado de dentro da vossa vida, força.
Nós temos realmente o coração perto da boca e acho isso um dom maravilhoso. Mas é também uma faca de dois gumes. Penso que devemos ter o coração perto das palavras só para quem o merece...
Sei que há homens que se soltam na escrita e que se emocionam quando escrevem. Penso que o exemplo mais real que tenho desse tipo de homem é o Miguel Sousa Tavares que quando escrevia para a Máxima me fazia chorar e quando o lia no Público nas suas críticas mordazes me fazia aplaudir o espírito acutilante e corrosivo com que lançava as suas farpas ao país. Por isso é que pergunto: Onde é que está esse espírito partido em dois aqui na blogosfera? Vá, toca a mostrarem os dois lados de vocês.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Homens da Blogosfera

Porque é que na blogosfera e na vida real também temos mais mulheres a falarem de sentimentos do que homens? Será uma táctica de defesa pessoal?
Na vida real nada dizem, pouco se expõem e deixam a tontinha desbroncar-se toda acerca do que sente, do que gosta, do que queria de um homem e depois zás, dão-lhe o golpe de mestre encarnando subitamente tudo aquilo que ela já deixou no ar. De seguida temos aquela amiga que vem ter connosco sonhadora e diz: Ele adivinha-me antes de mim própria. E nós não querendo magoá-la, soltamos um: Mas exactamente o que é que lhe falaste de ti?
Só que na blogosfera não há estas regras de retracção/ataque (pelo menos eu acho que não há). Então porque não mostrarem mais um bocadinho do vosso avesso? Sem estarem refugiados no humor, na política, no sarcasmo que, repito, adoro, mas às vezes sabe a pouco...
Eu sei que eles também os têm, aos sentimentos e fundos que se farta. Então porquê esse medo de se exporem, esse pé atrás sempre que têm que ligar o coração à boca, ou à escrita?
Adoro os blogs sarcásticos, cheios de humor, despreocupados dos meus companheiros de blogosfera. Mas adoraria que um dia eles se passassem todos da cabeça e desatassem a polvilhar a sua escrita com um bocadinho deles.
As mulheres sem dúvida são bem mais corajosas nestas coisas do coração, entram nisto de peito aberto. Ou então são tremendamente parvas ainda não percebi bem...

Novidades da Retina

No meio da névoa que ainda povoa o meu olhar (por isso não consigo responder aos vossos comentários de ontem) venho dar-vos notícias dos meus olhos.
A coisa correu bem porque eu ia pedrada a conselho do médico. E parece que me comportei lindamente. Sim porque no meio de olhos com separadores, pálpebras com fita cola, gotas e cotonetes a passearem-se sem pudor pela minha retina, ainda me era pedido que olhasse um milímetro para trás, para a direita. E, hipnotizada pelo calmante milagroso lá fiz tudo o que me era pedido.
Confesso que houve um detalhe que me pôs um bocadinho apreensiva. Na parte do laser começou a cheirar-me a esturro...
Quando me levantei da marquesa consegui ver as horas no relógio de parede, apesar do nevoeiro britânico que ainda me envolve, consegui dar um grande beijinho ao médico por aquele pequeno milagre que ele tinha acabado de operar na minha vida.
À parte disso tenho os olhos tremendamente, para não dizer assustadoramente vermelhos e hoje volto lá para ver se a coisa ficou mesmo bem.
Quando o nevoeiro abandonar estas paragens volto em força ;)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Santini


Se algum dia fizesse uma lista das 10 coisas que qualquer pessoa deveria fazer antes de morrer. Uma delas seria certamente comer um gelado do Santini.
Pegar num daqueles copos a transbordar de peças de fruta em forma de gelado, arrastar os meus pés e os da Alice para um qualquer recanto onde possamos saborear em conjunto aquele sabor incomparável é sem dúvida um dos meus momentos de felicidade.
É que a minha filha também já é um bocadinho viciada no Santini. Ou seja, sabe o que é bom.
Outro dia partilhávamos as duas um gelado de tangerina e o sabor era tão incrível que só me faltou mesmo cuspir os caroços dos gomos sumarentos.
O de avelã é um dos meus favoritos, mas quando provei o de canela era tão real que estive mesmo para ir buscar um arroz-doce para acompanhar.
Se estivesse no corredor da morte e me perguntassem qual a última refeição que queria consumir antes de ser tostada, adivinhem lá o que é que eu pedia...