quinta-feira, 12 de março de 2009

O Meu Curso

Sempre gostei de escrever, por isso, quando chegou a hora de decidir o que fazer, não tinha grandes alternativas. Ou enveredava por jornalismo, ou por um curso de letras que me daria apenas para ensinar, o que jamais em tempo algum conseguiria fazer.
Por isso optei por Direito.
Perguntam vocês, porquê? Pois, nem eu própria consigo responder. Pensei que com um curso de Direito teria bases para qualquer coisa na minha vida e assim foi.
Num país de afectados fui parar ao curso campeão de afectados.
Na minha turma do 1º ano tinha colegas que no primeiro dia de aulas foram com as suas pastinhas de pele, convencidos que já advogavam. À medida que o ano foi avançando era vê-los a aparecer de fato e gravata, pastas topo de gama, cheias de códigos lá dentro. E aqui a Ana com as suas eternas calças de ganga e caderno espiral na mão.
Sempre me senti terrivelmente deslocada, por isso, assim que consegui, mudei-me para a turma da noite. Aí sim, tinha colegas esforçados, sem peneiras. Que estavam ali para aprender e não para se exibirem. Ainda me lembro do Abner, que tinha vindo de Cabo Verde já com quase 60 anos tirar o curso. Muitas mães de família cheias de garra. Era um desfile de pessoas cheias de mérito.
Nunca tive um miligrama de espírito académico. Os bailaricos, as tunas, as praxes, o traje, a queima das fitas. Fugi disso tudo como o diabo da cruz. Só queria ir à Universidade para assistir às aulas e já era um tremendo sacrifício. Voltar lá para o convívio académico era pedir demais à minha pessoa.
Na faculdade onde andei não dispensávamos nunca das Orais. Eles entendiam que em Direito não podia haver abébias e assim perdi 10 anos de vida à conta dos nervos. Ficava doente e o esforço que implicava fazer orais a tudo era esgotante.
Quando fiz a última oral, Processo Civil II, saí da sala, sentei-me no primeiro banco que encontrei e chorei como se não houvesse amanhã. Foi o maior alívio da minha vida. Só fui buscar o diploma quase dois anos depois, tal era a minha vontade de voltar à faculdade.
Até aos dias de hoje, ainda acordo de noite com a sensação que afinal ainda me falta mais uma oral, que ainda não acabei o curso. Foi assim que fiquei, toda queimadinha da cabeça. E para quê? Para acabar a escrever novelas...
Mas sem sombra de dúvida que fiquei com uma ginástica mental que nenhum outro curso me poderia oferecer. Acho que posso até afirmar que o meu cérebro cresceu. Deve ser por isso que já nennhum chapéu me entra na cabeça.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Silêncio do Amor Parte 12 porque não consigo pensar num sub-título

Artur consumido por um misto de euforia e entorpecimento olha o seu filho Daniel, com a mesma t-shirt gasta e desbotada de todos os dias. Daniel está à porta, parado, como se tivesse medo de acreditar que é mesmo verdade. Os seus olhos enormes castanhos fitam a mãe, como se tentassem perceber se aquela mulher ali sentada é mesmo a mãe que ele recorda no seu coração.
- Entra filho, vem falar com a mãe. A voz de Artur está embargada.
Maria olha a janela, completamente abstraída.
Daniel movimenta-se devagar, como se não tivesse pressa de lá chegar. Finalmente consegue falar:
- Mãe?
Artur dá a mão a Daniel a aperta-a com força, transmitindo-lhe toda a energia que consegue pôr num aperto de mão.
Maria volta-se devagarinho e encara Daniel. Ele baixa-se ao nível da mãe e a única coisa que consegue fazer é abraçá-la, voltar a sentir o calor daquele corpo tão familiar. Que saudades que tinha de sentir os braços da mãe, o cheiro, ouvir a voz, sentir a presença dela pela casa.
- Mãe tive tantas saudades tuas, tantas...
Artur sente um nó na garganta impossível de desfazer e chora de pura comoção, de alívio, gratidão por ver o filho reunido com o seu porto seguro, a sua mãe. Porque ao longo deste tempo todo em que esteve sozinho com o filho, sabia no seu íntimo que não conseguira ampará-lo, protegê-lo, animá-lo como Maria faria se estivesse bem.
- Meu amor, meu filho. Daniel como é que tu estás? Tão crescido, a voz diferente... - Maria chora como se deitasse cá para fora tudo o que guardara nestes anos.
- Tu lembras-te de mim? O pai disse que não te lembravas de nada e eu pensei que...
- Como é que podia esquecer-me de ti.
Maria e Daniel não conseguem soltar-se, os dois choram, cheiram-se, olham-se. Como num reconhecimento mútuo.
Os médicos falam em amnésia parcial, que é um excelente sinal ela ter-se lembrado do filho. Que a pouco e pouco irá começar a recordar-se de tudo. Mas Artur ouve tudo muito ao longe, como um eco distante.
Daniel adormeceu perto de Maria e Artur está sentado numa cadeira perto deles, velando pelo seu sono. Ao vê-los assim, adormecidos e indefesos sabe que acabou de perder Alice para sempre. Pois jamais será capaz de os fazer sofrer de novo, seja porque motivo for.
Passaram 6 meses...
E agora o que é que aconteceu aos nossos fofinhos durante este tempo todo? Como está Alice? Como está o mundo, como está o planeta? Ah pois é Miguel fazes o favor de nos dizer?

Esta é que é uma história de Bosta...

E porque podia passar um dia inteiro a divagar sobre a bosta e suas variantes e porque o Miguel C disse que este blog era muito arrumadinho, eu tenho que partilhar convosco uma história que nunca esqueci e já lá vão quase 20 anos...
Na minha adolescência conturbada, quando ainda morava em Lisboa, vinha sair para Cascais, porque tinha um grupo de amigos duvidosos por aqui, eu até era uma rapariga certinha, mas divertia-me mais com amigos de má fama, do que com os meus colegas de colégio. O mais inesquecível de todos era o Fred, menino de boas famílias de Cascais, era o gajo mais toxicodependente e bêbado que Deus na terra pôs.
Enganava os pais com promessas de cura e todos os meses frequentava um qualquer centro de reabilitação, para quando saísse, estar reabilitado aos olhos dos pais (coitados daqueles senhores) e conseguir mais uma semana de confiança paterna, logo, mais dinheiro.
Mas um dia os pais fartaram-se e decidiram pô-lo num daqueles centros com trabalhos forçados. Ele tinha que se levantar às 6 da manhã e cuidar da Quinta, dos animais, da natureza. Meu Deus e quem conhecesse o Fred, um gajo poluído e conspurcado pelos mais diversos tipos de produtos tóxicos, sabia que não podia haver pior castigo para ele do que estar em contacto com a natureza.
Um dia o monitor do campo foi acordá-lo pela fresca e disse-lhe: Fred, hoje vais limpar a fossa céptica. O Fred pensou que podia negar-se, fugir, quem sabe tentar o suicídio, mas já o campo em peso o rodeava com sorrisinhos cínicos e praticamente empurraram-no para dentro da fossa.
Bons companheiros, os outros agarrados, decidiram ir cagar de alto à vez. E de cada vez que um acabava de largar a sua poia, puxava o autoclismo e gritava pela janela: Ó Fred apanha lá esta!
Depois de ele me contar esta história, nunca, mas nunca mais me pôs a vista em cima, só a imagem de o ver a limpar a fossa e a ser soterrado em merda, foi capaz de me manter afastada dele para o resto da vida e a minha mãe agradeceu de certeza.

terça-feira, 10 de março de 2009

Conversa de Bosta

E porque aquilo que se aproxima mais do pecado para a Alice é falar de cócó, dizer que sabe a cócó, que cheira a cócó e que se chama cócó quando uma visita de cerimónia lhe pergunta o nome. Também em homenagem ao Gabriel da Melissa que só faz cócó em fraldas limpas (és cá dos meus). Impunha-se um post sobre este assunto mítico, ou sobre a mítica cagada.
Quanto a isso e, ao contrário de muita gente (inclusivamente da blogosfera) que faz onde quer que a vontade aperte, eu não consigo fazer em praticamente lado nenhum, tirando o meu próprio poleiro caseiro, limpo, brilhante, maravilhoso, cheiroso, o meu intestino simplesmente bloqueia perante a visão de uma sanita menos limpa, pingada, mijada, cagada.
O mesmo acontece quando ando a viajar, o meu organismo percebe que estou noutro país e dá ordens expressas ao intestino que bloqueie quaisquer transmissões para o exterior. Só após 3 dias de adaptação ao país é que ele decide começar a dar sinais de vida.
Também acho de mau tom chegar a casa de alguém e largar o que de mais íntimo tenho na canalização alheia. Não sou capaz, acho indecente.
Quando a Alice nasceu tivémos a visita de um amigo em nossa casa, que pediu licença para ir à casa de banho e ficou horas enfiado lá dentro. Nós não queriamos acreditar, mas sim, confirmou-se, ele estava definitivamente a cagar em nossa casa. Com direito a selo postal e tudo. É o chamado cagar sem remorso, sem olhar para trás e tentar ao menos limpar o vestígio da sua passagem por ali.
O meu querido marido nisso é ímpar, quando começámos a viver juntos eu reparava que ele nunca se demorava na casa de banho mais do que o tempo de uma mijinha. Um dia perguntei-lhe: Mas Hugo, tu nunca tens vontade de ficar mais tempo? Resposta dele: A fazer o quê? Ao que respondo: Dahhh, Cocó por exemplo. Hugo no seu melhor: Mas meu amor, por quem me tomas, eu não cago.
Ora querem melhor marido do que este?
Lamento a falta de chá deste post, mas tinha que falar nisto, pelo menos uma vez. Há coisa mais divertida do que falar de cócó? A Alice acha que não...

Parte 10 O Silêncio do Amor


Caminharam de mão dada até ao velho prédio onde morava Alice. O silêncio entre os dois era tão reconfortante quanto as palavras que haviam trocado.
- Tens a certeza que queres que suba Alice? Não quero que te sintas obrigada a nada, só porque te ajudei ontem...
Alice pousa uma mão sobre a boca de Artur, como se assim pudesse impedi-lo de falar mais.
- Sabes há quanto tempo ninguém olhava para mim como tu olhas?
Artur sorri.
- Sabes há quanto tempo eu me sentia invisível aos olhos dos outros, aos meus próprios olhos? - Alice tem o olhar molhado por tudo aquilo que sente.
Artur faz-lhe uma festinha no rosto, cheio de doçura.
- Saber que alguém passava tardes inteiras naquele café, só para poder ver-me, quando eu própria não me via. Nunca pensei que estas coisas pudessem acontecer comigo. De alguma forma sempre achei que estava destinada a menos do que os outros.
- Não fales assim, tu estás destinada a grandes coisas. És uma mulher, uma mãe especial Alice. Percebi isso assim que te vi. - A voz de Artur era de uma total transparência e Alice sentiu bem dentro de si que ele era sincero.
- Olha para mim, a sorrir, a chorar. Obrigada por me teres dado esta manhã contigo. nunca vou esquecer.
- Eu quero ter muitas mais manhãs contigo Alice.
Os dois olham-se. Um olhar tão intenso que dispensa palavras. Alice encosta o seu rosto sobre o coração de Artur e deixa que ele a envolva num abraço.
- Porque é que as coisas boas terminam sempre? - A voz de Alice sai enrouquecida.
- Nós não temos que terminar. - Artur afasta-a daquele abraço e beija-a suavemente, quase com medo de partir qualquer coisa dentro dela. Alice corresponde e entrega-se àquela sensação que já havia esquecido. A sensação de se sentir amada.
Quando finalmente conseguem separar-se um do outro, surge Maria na entrada do prédio, de braços abertos para a mãe. Alice rasga um sorriso e pega na filha ao colo sob o olhar comovido de Artur.
- Maria, este é o Artur, Artur esta é a minha luz, a minha filhota.
Artur sorri para aquela pequena cópia de Alice, mas antes de conseguir dizer o que quer que seja, o seu telemóvel toca. Artur, um pouco atrapalhado atende. Alice vai olhando a sua expressão que se altera, vai ficando pálida. A voz de Artur sai num fio, como se já não tivesse dentro de si força para se projectar:
- A minha mulher acordou?!!
Alice, como que para se proteger da dor que acabou de a rasgar ao meio, aperta a sua filha contra si com todas as forças...

Ah Ah Miguel, por esta não esperavas... Ora aqui os tens mais uma vez do teu lado. Desta vez a batata não está quente, está a escaldar.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Quem São Vocês Para Mim?

Vocês já fazem parte da minha vida, da minha rotina diária, até dos meus pensamentos.
Enquanto trabalhava em casa nestes últimos meses, fizeram-me companhia, ajudaram-me a descomprimir, em alguns sentidos a sentir-me menos só. Porque isto de trabalhar em casa e escrever sobre a vida de outras pessoas, pode transformar-nos em verdadeiros bichos-do-mato. Vocês ajudaram-me a manter a minha sanidade mental. E agradeço-vos por isso. Escrever para nós é muito bom, escrever quando sabemos que vamos partilhar com alguém é maravilhoso. Se me dissessem há uns tempos atrás que me preocuparia com um bando de desconhecidos da blogosfera, acho que soltaria uma sonora gargalhada. Mas o que é certo é que dou por mim a imaginar as vossas vidas, os vossos anseios, preocupações, expectativas, como se fossem meus amigos de verdade.
O Miguel C, um dos meus primeiros seguidores, será que está no hospital a ser sovado por um bando de ciganos? Será que acabou de ver alguém morrer? O Miguel C que imagino teimoso, obstinado, com sentido de humor, certeiro, com a sua sensibilidade guardada para ocasiões especiais, é sem dúvida alguém que poderia muito bem ser meu amigo.
A Sílvia, que imagino como uma irmã mais nova, a quem me apetece dar colo quando as suas angústias a invadem e dizer-lhe que vai ficar tudo bem... Que tudo aquilo que sente há-de fazer sentido um dia mais tarde.
Eumesma, minha querida, com os teus filmes, na tua casa que gostavas tanto de partilhar com alguém. Torço todos os dias pelo teu príncipe encantado e sei que ele vai chegar. Mas esquece a parte do cavalo que complica sempre tudo.
JS, uma mãe que gostava de ter mais tempo para si e para aqueles que ama. Que adorava ter mais espaço para as suas magnólias e quem sabe, um atelier onde pudesse dar asas à sua criatividade. Imagino-te aqui em casa a conversares sobre tudo e sobre nada comigo e a encheres a minha filha de histórias que a tua avó te contava.
Socas a viver na Holanda. Também senti logo uma grande empatia contigo, daquelas que não se explicam. Somos muito da mesma geração.
Mariinha, uma mulher com filhos já fora das suas asas que decidiu tirar o curso que eu tirei. Direito. Na faculdade sempre estudei no horário pós-laboral, porque adorava os meus colegas maduros que com a vida feita, decidiam que queriam tirar Direito. Eu pensava sempre, caramba, que coragem! E tu és uma delas. Na tua mansarda, já me imaginei a tomar o chá das 5 contigo.
Precis Almana adorava poder arranjar formas de te distrair, pois não quero imaginar o que seja estar doente e sentir-me diminuída. Acho que te tens safado muito bem e o teu blog é uma das formas que encontraste de manter a tua sanidade.
banita sobrinha neta do Alves Redol. A viver no México. Porque é que te imagino uma Granda Maluca? Porque é que me imagino a rir à gargalhada contigo, ao sabor de umas Margueritas? Não sei, fica a pergunta.
Ana minha recente companheira de Blogosfera, partilhamos algumas coisas e contigo foi uma relação de flash. Soube logo que tinha empatia contigo...
Joaníssima minha querida desbocada, sentimental, confusa, bem humorada, mal humorada mulher. Por favor, continua sempre assim, sem medo que a tua vida ande em sentido contrário das restantes, porque todos nós precisamos de uma bússola para nos guiarmos de vez em quando.

Parte 8 O Silêncio do Amor


Artur estacou à porta do quarto e alguma coisa o voltou a impelir para junto da sua companheira. Voltou-se. A expressão serena dela não deixava transparecer qualquer emoção, apenas o monitor lhe dizia o que se passava dentro do seu peito. Aproximou-se de novo da cama e beijou-a suavemente na boca:
- Amo-te muito Maria. Vais ser sempre a minha mulher... Passou uma mão pelo seu rosto e despediu-se daquela forma terna.
Virou-se para sair e ali, encostada à soleira da porta, estava Alice. O seu olhar mais verde e profundo do que nunca absorvia aquela imagem que acabara de ver. Artur olhou Maria e fez o seu olhar regressar para Alice, desta vez não o desviou.
- Perguntei por si lá em baixo e disseram-me que estava aqui. E não sabia que. Peço imensa desculpa. Não sabia que era casado e que a sua mulher...
Artur responde-lhe com um sorriso. O sorriso mais sereno e seguro já lhe haviam dirigido.
- Eu queria agradecer tudo o que fez por nós ontem, a minha filha está bastante melhor, ficou com uma vizinha... A voz dela, apesar de tudo era firme.
- Porque é que não vamos beber um café Alice? - Ele próprio estranhou o tom da sua voz. Não saíra rouca, nem demasiado baixa. De alguma forma sentiu que era Maria quem lhe dava a força para continuar a falar. - Faz-me companhia?
O olhar brilhante de Alice disse-lhe tudo o que ela não ousava dizer.
- Se não se importasse, preferia andar um bocadinho a pé. Passo o dia inteiro no café. Fazia-me bem um bocadinho de ar.
- Um passeio será.
Artur e Alice saem do quarto. O rosto de Maria parece serenar. Pode ser apenas um movimento involuntário, mas o que é certo é que uma expressão de paz toma conta da face dela.

O frio da rua atinge-os como uma chapada. Alice passa o cachecol sobre o rosto para melhor se proteger. Artur parece nem sentir a temperatura baixa.
- Como é que a sua mulher ficou assim Artur?
- Um acidente de carro, vínhamos de um jantar já tarde. Eu adormeci ao volante.
Alice contraiu os lábios, morreu de pena daquele homem tímido ao seu lado. Percebia agora aquela expressão vazia que tantas vezes vira sentado na mesa do café.
- Não imagino o que deva ter sofrido, a culpa, a revolta. Há hipóteses de ela recuperar?
- Ela está assim há mais de 3 anos. Os médicos não dão muita esperança.
- Mas o Artur continua a acreditar...
- O dia em que deixar de acreditar, é o dia em que vou ter que dizer ao meu filho que por minha causa, perdeu a mãe dele...
Alice tem o olhar raso de lágrimas, não sabe o que dizer para consolar aquele homem terno ao seu lado e a única coisa que lhe ocorre é dar-lhe a mão e apertá-la com toda a força do mundo. É precisamente isso que faz. Artur segura na mão dela e sente que não vai conseguir largá-la mais...

Ora aqui os tens de mãos dadas Miguel, o que fazes com eles agora é da tua responsabilidade...

sábado, 7 de março de 2009

A conversar é que a gente se entende


Adoro quando converso com alguém que me adivinha. Alguém a quem não tenho que explicar muito aquilo em que estou a pensar, pois logo na segunda frase já apanhou a intenção do que quero dizer.
Aquela química que existe entre duas pessoas que se entendem é maravilhosa. Uma frase leva a outra e o encadear de pensamentos é interminável, como uma bola de neve encosta abaixo, ganhando volume.
Em contra-partida de cada vez que tenho que explicar de vários ângulos o meu raciocínio sinto-me esgotada e sem ânimo para prosseguir a conversa. Regra geral, acabo por dizer: Esquece, não era nada de importante mesmo. E por dentro grito: Bahhhhh é muito chato conversar contigo! Depois mudo a conversa para o estado do tempo.

Parte 6 (O Silêncio do Amor)

Enquanto zelava pelo sono da sua filha, Alice revia mentalmente tudo o que acontecera nessa noite e como fora bom experimentar uma sensação que havia esquecido há muito. O sentir-se protegida, sentir que tomavam conta de si.
Mãe solteira há já tanto tempo, habituara-se a ter que resolver, decidir, lutar por cada pedaço da sua existência e da sua filha sozinha e isso cansara-a tanto. Formara já pequenas rugas de preocupação no rosto prematuramente envelhecido. Os seus cabelos acastanhados escondiam já alguns reflexos grisalhos e o seu olhar esverdeado e outrora fundo, era agora um olhar pura e simplesmente cansado, vazio. Apesar de ser dona de uma figura invejável a sua postura era a de alguém que se vergara já ao peso do mundo.
Mas hoje sentira que alguém a vira para além de si, para além da sua aparência gasta e banal e esse alguém era Artur. Agora que pensava nele sem ser como mais um cliente do café, conseguia descrevê-lo de cor, como se o conhecesse desde sempre. Os olhos negros rasgados, sensíveis e tímidos, como se comportassem uma imensidão de segredos, as mãos um pouco pálidas, mas firmes, a postura magra e esguia, o cabelo escuro e forte. Podia rever a imagem dele vezes sem conta dentro de si sem se cansar de o fazer.
Enquanto acariciava o cabelo da filha, deu por si a fazer uma coisa que não fazia há muito. Alice sorriu sem motivo aparente...

Artur adormeceu profundamente. Um sono reparador que não tinha há demasiado tempo. Pela primeira vez desde que o acidente se dera, não sonhou com Maria, nem com o acidente de automóvel que os vitimara há já 3 anos, a ela quase mortalmente, não pensou na culpa diária que o consumia por ter roubado a vida da sua companheira, da mãe do seu filho, uma vez que era ele que conduzia o carro naquela noite.
Este sono trouxe-lhe uma paz que julgava impossível e chorou enquanto dormia. Apesar de não se aperceber chorou de saudades da sua mulher, chorou por não ter coragem para dar a ordem de desligarem o suporte de vida, por não ter coragem de a deixar partir. Chorou por si, pelo seu filho, pela sua vida, presa naquele quarto de hospital, pois ele todas as noites, no meio das tarefas hospitalares que tinha que cumprir, fugia até ao quarto de Maria e conversava com ela. Contava-lhe do filho, contava-lhe dele, contava-lhe como corria o mundo lá fora, sem ela. Chorou por não ser o pai que o seu filho precisava, por ter falhado em tanta coisa. E de alguma forma, esse choro lavou-o por dentro.
Quando despertou, estranhamente não se sentia tão sozinho. Pois uma lembrança acariciava-lhe a pele arrepiada. A lembrança de Alice...

Agora Miguel, aguenta-te à bronca, porque a bola já passou para o teu blog!

Parte 5 (o silêncio do Amor)

A Parte 5 da Blogonovela O Silêncio do Amor já está disponível. Parece-me que temos um noveleiro nato que pensa que é enfermeiro. Miguel C

Espreitem e dêm a vossa opinião...

sexta-feira, 6 de março de 2009

Parte 4 (O silêncio do amor)

Alice passa as mãos pelo cabelo, numa tentativa vã de o arranjar, aperta o grosso casaco até cima e sai para o ar frio do começo da noite, ao encontro da sua vida lá fora.
Já não repara no carro estacionado em frente ao café, nem na nuvem de fumo que ele deixa atrás de si quando finalmente arranca, pois na sua cabeça apenas há espaço para as tarefas que tem que cumprir religiosamente e é nelas que pensa enquanto acelera o passo, passando o cachecol por cima do rosto. Não se detém muito tempo nas coisas más, nem na sua vida tão vazia. Há muito tempo que deixou de acreditar no destino. Ela sabe que a vida não é um caminho repleto de surpresas, mas antes um percurso no qual se escolhe o rumo que parece mais certo. Tenta sorrir, mas depois de um dia inteiro a servir à mesa não sente forças para dar um passo a mais do que os passos estritamente necessários.
Aproxima-se da escola da filha e sabe que assim que a vir irá arrancar de dentro de si força para a carregar ao colo no caminho de volta sempre com um sorriso nos lábios. Porque ela é o seu único motivo para sorrir.
Não, Alice não é uma mulher fria e indiferente. É apenas uma mulher cansada e magoada que há muito tempo deixou de lutar por uma vida melhor. Que há muito tempo desistiu de si.
Por isso está muito longe de imaginar que serve de alento aos dias de alguém...
ARTUR
Artur acabou de trocar de roupa e enverga agora a sua farda branca de todas as noites. Tem pela frente mais um turno interminável que pode ser muito agitado, ou nada agitado, o desenrolar das horas é sempre uma incógnita num hospital. Mas voluntariar-se para aquele horário nocturno, foi a única forma que encontrou de poder ficar perto da sua mulher...
Ainda faltam uns minutos para começar o seu turno, por isso decide ir até lá fora respirar ar fresco. Sente-se sufocar, precisa do ar gelado no rosto para despertar daquela espécie de sonho, de culpa, pois Alice não lhe sai da cabeça, o seu olhar, a sua voz, as suas mãos. É nesse preciso instante que vê Alice transpor as portas da Urgência com uma menina ao colo...
E é nesta altura que cansada e sem imaginação passo a bola ao Miguel C. Resta saber se ele se sente desafiado, ou não...

The End


Pois é, acabei de escrever a última linha da história que me acompanhou nos últimos 10 meses da minha vida.
Cheguei a escrever com a minha filha constipada e carente ao colo, com visitas para almoçar em casa, na véspera de Natal, em domingos soalheiros em que só me apetecia fugir porta fora, em sábados de chuva, em que tudo caía cá em casa para se abrigar da neura.
Escrevi com mau humor, bom humor, triste, alegre, doente, cansada, animada, desanimada, inspirada, desinspirada, carente, cheia de amor. Mas sem nunca parar de escrever, porque este trabalho é assim, de uma entrega total. Não se contenta com menos do que isso.
A minha vida foi a deles e a deles um pouco a minha também e torna-se doloroso dizer-lhes adeus e deixá-los continuarem sozinhos, sem a minha ajuda para as decisões cruciais, sem a minha palavra na boca deles para os diálogos românticos, cruéis, enciumados, assassinos, cínicos.
Mas chegou a hora de vos dizer adeus. Força! A história é toda vossa, só têm que continuar a vivê-la sem mim...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Parte 3 (o silêncio do amor)

Apesar do encontro, desencontraram-se mais uma vez. Ele olha o relógio e conta as horas que faltam para o dia seguinte nascer. Sabe que as noites costumam passar mais devagar. Respira fundo, entra no seu carro já gasto pelos quilómetros a mais, mas não tem coragem de arrancar. Ouve no rádio uma qualquer notícia que não tem o poder de o acordar e rende-se à recordação da imagem dela.
Deveria seguir na direcção do hospital, na direcção de mais uma noite de turno passada entre cheiros e ruídos tão familiares, mas fica ali, dentro do carro a ouvir o trabalhar do velho motor e a ganhar coragem para voltar à sua rotina nocturna. Olha mais uma vez na direcção do café e quase pode jurar que a vê espreitar discretamente na sua direcção.

Alice vê aquele estranho homem cruzar finalmente a porta do café, ainda espreita para a rua e consegue vê-lo já dentro do carro. Respira de alívio enquanto pousa o seu avental sobre o balcão. Hoje sai mais cedo do que o costume. Cansada, ainda consegue enumerar mentalmente as tarefas que tem que fazer antes e depois de chegar a casa. Passar na farmácia, no supermercado e finalmente apanhar a sua filha na escola, abraçá-la, sentir os seus pequenos braços em redor do pescoço e ouvir como foi o seu dia no caminho para casa. Essa definitivamente é a melhor parte do seu dia...

Cremes Para Todos Os Gostos


Outro dia entrei na casa de banho de uma amiga e enquanto estava para lá a fazer aquilo que lá fui fazer, isto é, lavar as mãos, claro. Olhei para uma prateleira que quase caía dos suportes com o peso que suportava. Eram frascos de cremes de dia, cremes de noite, cremes com colagénio remodelador, com activos naturais, com extracto de cafeína, de cocaína (devo ter lido mal), com estuque refirmante, anti rugas, anti papos de galinha, elastyl. Enfim, por momentos pensei estar num armazém de armamento pesado.
Será que alguém acredita que a nossa pele sente mesmo a diferença de um creme de noite para um creme de dia? A epiderme pensa: Espera lá, o sol já se pôs, preciso do creme de noite... Agora já amanheceu, dá-me com o creme de dia filha.
É só a mim que isto soa a TRETA???
E os nomes que dão aos produtos, por favor Estuque Refirmante???? Porque é que não vamos ao AKI e compramos um potezinho daquela massa tapa buracos para tapar a celulite?
Mulheres viciadas em cremes de beleza, ACORDEM por favor. Isto é apenas mais uma forma de vos fazer gastar dinheiro só para ficarem exactamente na mesma.
Mantenham a pele limpa e hidratada com um bom creme, o resto é pura ilusão de óptica...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Parte 2 (o silêncio do amor)

A rapariga de olhar inexpressivo traz o café na mão e dirige-se à sua mesa. Artur aclara a voz, prepara-se para dizer o que quer que seja, o seu nome, o nome dela. Pouco interessa, o que importa é começar, depois ele tem a certeza que as palavras surgirão como um turbilhão e a sua boca vai finalmente ligar-se ao coração. É agora ou nunca, ela pousa a chávena sobre a mesa e ele olha-a com toda a força do amor que sente. Mas é a voz dela que se impõe:
- Sente-se bem? – Os olhos verdes dela parecem pedir-lhe que fale – Está com uma cara estranha.

Artur quer responder, quer dizer-lhe porquê aquela cara estranha, contar-lhe como a vida dele está nas mãos dela.

- Talvez o café não lhe vá fazer bem, afinal já é o terceiro que pede hoje. – Ela tira a chávena de cima da mesa.

Artur grita por dentro, o seu coração quer sair do peito, o ar falta-lhe e as mãos são invadidas por uma humidade que sempre o assalta quando está nervoso. As palavras que tinha para lhe dizer prendem-se, enrolam-se no meio da língua como um travão e nem uma palavra é proferida. Nada.

- O café fica, ou vai? – A voz dela já não tem nada de doce, limita-se a ser impaciente.

O som oco da chávena pousada sobre a mesa faz com que ele acorde daquele sono e ainda vá a tempo de vê-la afastar-se abanando a cabeça. Artur levanta-se atrapalhado, deixa umas moedas sobre a mesa e sai apressado do café. Ao respirar o ar frio da noite, sabe que falhou mais uma vez. Se as horas corressem com a lentidão que ele desejava. Se pelo menos o dia não desaparecesse tão inesperadamente, talvez ele tivesse conseguido.

O Teu Olhar


Quando sorris para mim com os teus olhos rasgados vês-me como a pessoa mais importante da tua vida, vês-me como jamais imaginei que alguém me fosse ver.
Porque nós somos tanto pelos olhos alheios, pelos teus olhos aprendi a gostar mais de mim, a ver-me com uma importância que nunca pensei ter.
Quando penso que não podia ser mais incompleta a tua voz completa-me dizendo que me adoras.
Quando penso que não podia estar mais calada por dentro e por fora, tu obrigas-me a arrancar as palavras de dentro de mim e a formar verdadeiras declarações de amor.
Quando só quero fechar os olhos e deixar de sentir por um segundo apenas, tu puxas-me a mão e obrigas-me a olhar para ti e quando isso acontece vejo-me através dos teus olhos e sinto que fiz uma coisa certa na minha vida. Tive-te a ti.
Obrigada por me teres ensinado a amar-me através do teu olhar minha filha.

terça-feira, 3 de março de 2009

O Silêncio do Amor parte 1


A mão fria dele passa no caminho do braço arrepiado dela, mas não se detém, apesar de ter sido com esse propósito que se levantou.
Ela olha-o finalmente, enquanto acaba de limpar a mesa com um pano molhado:
- Vai tomar mais alguma coisa? – A voz dela soa-lhe doce, como uma carícia. Ele nem se apercebe que nessa voz não há a menor emoção.
- Mais um café por favor. – A voz dele sai rouca e desafinada de pura emoção, falar com ela sobre nada é a sua dádiva diária.
Artur vê -a afastar-se na direcção do balcão para pedir o café e respira fundo. Diz para si próprio que quando ela se virar lhe vai sorrir. Quer dizer-lhe tudo de uma só vez, tudo o que sente, o que imagina, o que sonha. Quer mostrar-lhe a verdadeira razão pela qual vai todos os dias há mais de dois anos àquele café, àquela hora e se senta naquela mesma mesa, só para poder ser atendido por ela, só para poder vê-la, ouvi-la. Com um bocadinho de sorte, tocar-lhe ao de leve, ainda que por acidente, como hoje...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Desabafos de Novela

É engraçado como começamos os nossos projectos com uma certa distância dos personagens, vamos entrando devagarinho na vida deles, a medo, quase pedindo com licença.
As falas não fluem na perfeição, pois eles ainda nos são estranhos, ainda estamos a acertar ponteiros. A meio do projecto a paixão deles é a nossa paixão, as tristezas confundem-se com as nossas, os dilemas por resolver não nos deixam ao longo do dia, chegamos a pensar pela cabeça deles, como se fossemos um só. Andamos ao seu ritmo e esquecemos o nosso. E conciliar isto com a vida real é do mais complicado que há.
No final, depois de 10 meses de trabalho consecutivo, já não os podemos encarar, só queremos dizer adeus, que se resolvam os problemas, dilemas amorosos, mistérios insolúveis. Dentro de mim um desejo absurdo de os pôr à batatada por tudo e por nada, só para os despachar a todos num único e derradeiro episódio. Só queremos ter um dia para nós, longe deles e das suas vidas. Só queremos lembrar-nos de como é que éramos antes de começarmos esta história.
No final, quando lemos FIM, suspiramos de alívio, cansaço, esgotamento e começamos o processo de esvaziamento cerebral.
No dia seguinte toma-nos de assalto a saudade, queremos tê-los de volta, mas já não dá.
Dois dias depois a angústia de saber se voltaremos a ter outra história na nossa vida.
Se isto não é viver numa montanha russa de emoções, então não sei o que será...

O Mundo ao Contrário


Eu já sei que não é politicamente correcto dizer estas coisas e que ultimamente se vive numa época do politicamente correcto. Emite-se uma qualquer opinião e temos logo uma centena de fundamentalistas aos gritos a chamarem-nos de tudo. Mas eu vou ter que falar disto. E começo com uma simples pergunta: O que é esta merda?
Uma mulher que não se sentiu mulher, durante toda a vida quis ser homem e toca de fazer a sua transformação, toma tudo o que é estrogénio, fica sem mamas, cheia de pelos, barba, enfim, fica o verdadeiro macho. Até aqui nada que me choque.
Passado um tempo descobre o apelo da maternidade (ele e a parceira). Esperem lá, mas ela não queria ser homem? Por ventura os homens sentem tal apelo, desejam estar grávidos, sentem o relógio biológico feminino a dar horas, o apelo do útero, chamem-lhe o que quiserem?
Porventura os homens que querem mesmo ser homens sonham com uma gravidez?
Parece que ele/ela não sabia afinal bem aquilo que queria, pois de pêlo debaixo do sovaco, barba e peito de macho, decide ser mulher por nove meses.Apenas o tempo suficiente para gerar dentro de si um pobre inocente que quando tiver idade suficiente para fazer perguntas, vai ver as fotografias do pai grávido dele.
Engravidar por capricho sempre me pareceu aberrante, mas por um capricho deste tamanho, acho criminoso.
É claro que, apesar de já ser uma notícia antiga, a TVI foi repescá-la para a noite de abertura do seu TVI 24. Porque é que não estranhei?
ADENDA DE ÚLTIMA HORA: AFINAL O HOMEM/MULHER/MÃE/PAI/COISA ESTÁ GRÁVIDO PELA SEGUNDA VEZ!!!!!!!!

domingo, 1 de março de 2009

Dias Que nos Marcam

Há dias que nos marcam a vida para sempre.
O dia em que o meu pai saiu de casa e a minha mãe me disse que eles se iam separar, tinha eu sete anos.
O dia em que te reencontrei quando já mal me lembrava do teu rosto.
O dia em que segurei o exemplar do meu livro nas mãos e chorei de pura felicidade.
O dia em que falámos pela noite dentro na praia e nos pusemos a par de tudo o que nos tinha acontecido durante o tempo em que havíamos estado separados.
O dia em que terminei o meu curso.
O dia em que apareceste aqui em casa com uma rosa amarela e uma garrafa de tinto e eu tive a certeza de que já não me vias apenas como uma amiga.
O dia do nosso casamento.
O dia em que soube que estava à espera da nossa filha.
O dia em que ela nasceu.
E todos os dias em que acordo com o teu braço sobre o meu corpo, como se durante o sono tivesses medo de me perder.
Agora que olho para trás, na maioria dos dias que me marcaram, tu estavas lá.