Entre os meus traumas de juventude contam-se alguns episódios urbano-humilhantes, daqueles que nos fazem querer escavar um buraco para nos lançarmos no interior da terra até ao inferno.
Um desses episódios foi uma entrada atrasada no meu querido Quarteto (sala de cinema em Lisboa) e na escuridão do filme que começava malogradamente com uma cena nocturna, ter-me espatifado em pleno corredor, ladeada por filas e filas de cadeiras. Consegui ouvir os risinhos abafados e tudo. Remeti-me ao meu lugar e não me movi durante o filme inteiro, acho que nem dormi nessa noite, tal a humilhação.
Outra humilhação marcante foi numa corrida para apanhar o autocarro (ainda adolescente) ter-me espatifado também e ter visto os olhinhos de alegria dos passageiros que tinham ganho o dia com aquela cena agitada no meio da pasmaceira matinal.
Desde então que me recuso a correr para apanhar um transporte. Posso andar depressa cheia de classe, como se não quisesse nada com aquela carruagem de metro, como quem está só de passagem, mas correr jamais na vida. Até porque regra geral acabava sempre com as portas fechadas no trombil e um sorriso amarelo...
Deckle – uma poderosa alternativa ao Scrivener
Há 3 semanas




