sábado, 31 de outubro de 2009

As Mulheres e a Bola

Penso que não há coisa mais ridícula do que assistir a um daqueles programas eruditos sobre futebol em que se sentam todos à volta de uma mesa, doutores, engenheiros, jornalistas a discutirem o cerne da bola, as contratações, os jogadores em campo, a estratégia de jogo, com a importância dada a comentadores políticos que argumentam sobre o estado da nação.
Mas quando pensei que nada me dava mais nos nervos do que estas dissertações infindáveis sobre o esférico, dou-me conta que há apenas uma coisita que me irrita ainda mais: As mulheres que falam de futebol.
Logo a mim é que isto tinha que suceder, eu que odeio mulheres machistas neste aspecto em particular transformei-me numa.
No último jogo da selecção enquanto ouvia uma senhora a fazer o relato do jogo e a gritar:
"Este foi de calcanhar" "E vai ser Canto" "Fora de jogo" a coisa bateu-me com força. Mas que raio é que esta gaja está aqui a fazer?! Os relatos da bola são com voz grossa! Isto é estranho demais, vai-te embora mulher, sai daí que não gosto de te ouvir! Xô daqui que me desconcentras!
E pronto para grande vergonha minha descobri que sou machista. As mulheres não deviam fazer relatos em directo a gritar: Gooooooooooooooooooooooooooooolo!

A Inocência é o Melhor do Mundo

Desde cedo que tento explicar à Alice que não se fica embasbacado a olhar de cada vez que alguém um bocadinho diferente passa por nós. É claro que não posso pedir que ela se transforme numa espécie de Nova Iorquina capaz de passar com uma indiferença desconcertante por uma mulher nua a cantar o fado em plena avenida, mas dentro das nossas limitações de gente comum, ela já aprendeu que não fica de queixo caído embasbacada de cada vez que alguém com uma deficiência passa.
No entanto com apenas 3 anos é natural que de vez em quando se esqueça. Por isso outro dia quando estavamos numa loja e uma senhora de cadeira de rodas motorizada passou por nós, os olhinhos dela ficaram como se diz em bico. Completamente vidrada naquela viajante de motor, seguiu-a com o olhar durante minutos a fio.
Finalmente caiu em si e olhando-me como se tivesse cometido uma grande asneira sorri e disfarça falando muito alto para que a senhora a escutasse:
- Ó mãe que carrinho tão giro, gostava tanto de ter um, compras-me?
Emendou a mão da melhor maneira que conseguiu, eu não faria melhor, mas que pode ter passado por humor negro infantil, lá isso pode...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mais uma Pérola da Minha Condição

Porque é que eu não consigo espirrar só uma vez, discreta e suavemente, como quem suspira?
Porque é que nesta época de pandemia em que tudo se alarma quando o tipo atrás de si na fila do supermercado desata a tossir e a espirrar sem se dar ao trabalho de enfiar a cara no sovaco, eu tinha que ter ataques de 16 espirros seguidos?
Mesmo que o faça para a dobra do braço, ou para a sovaqueira perfumada, não há como impedir os olhares esgazeados na minha direcção.
Às vezes basta o cheiro do perfume Patcholi de alguém a passar por mim para desencadear a avalanche incontrolável de espirros.
E o pior, o mais grave, o mais humilhante, não, não vou dizer, não posso dizer...
Está bem eu digo, perdida por 100, perdida por 1000 e quem já esteve, ou está de esperanças (ai que belo) vai entender.
O pior é que neste estado de graça gestacional, se estiver bem aflitinha para ir à casa de banho, o que acontece mais ou menos de meia em meia hora, corro o sério risco de por cada espirro que dou, libertar um pingo da minha vontade natural. Ou seja, se der 20 espirros, já não vou precisar de ir a correr para a casa de banho...

* Acho que me estou a tornar especialista em auto-humilhação pública, mas quando tudo o resto falha, não há como nos rirmos de nós próprios para animar o dia :)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ataque de Fome de Azeitonas

Depois de consumir um frasco inteiro de azeitonas Oliveira da Serra sem caroço dou graças a Deus por amanhã não ser dia de fazer análises, pois certamente, em vez de me detectar uma infecção urinária, ou coisa que o valha, apareceria nos resultados do laboratório:
Azeite biológico de baixa acidez Gourmet (que eu só urino Gourmet).
Com que cara é que eu mostrava isto à minha médica?

Quiseste agora Aguenta!

Quando estava longe de pensar em ser mãe defendia com unhas e dentes a ideia de que o pai não tinha nada que assistir ao parto se não o desejasse.
Nos tempos em que era uma grandessíssima liberal e jamais me passaria pela cabeça forçar o homem a nada, muito menos a ver-me de perna aberta e a fazer força até rebentar as entranhas.
Também não me passava pela cabeça deixar de ir ao cinema com um namorado ver um filme de acção e pontapés no traseiro, pois no amor cabia tudo. Desde a tolerância sem limites, ao verdadeiro faz e deixa fazer.
Acontece que as coisas mudaram um bocadinho (ahahaha) e desde que fomos pais, o que um faz pelo e para o filho o outro também deve fazer. Acho que se chama democracia familiar. Esse conceito vago e abstracto ainda para tantos seres do sexo masculino, mas tão nítido para mim.
Faz-lhe impressão? Que pena então e a mim não fará?
Tem pânico de sangue! Ah e se eu tiver, como é que me desenrasco?
Não gosta de me ver sofrer! Então não tivesse insistido para termos mais filhos.
E pronto, estou assim, tanto quero a democracia que lentamente me transformo numa ditadora :)

* O Hugo não disse nenhuma destas frases feitas que mencionei acima, mas ando a sentir que se quer esquivar do acontecimento. Só que eu já preparei a epidural para lhe dar e tenho uma maca reservada ao lado da minha. Riso maquievélico.

Ser Mãe é... Abrir as Pernas?

Sei que vou usar frases feitas, lugares comuns e tudo o que já se ouviu mil vezes a propósito do caso da menina russa Alexandra que foi entregue a uma tipa abusadora e alcoólica com a única justificação de ter sido ela quem abriu as pernas para a fazer e para a parir.
Nada como fundamentar uma decisão judicial nestes critérios imutáveis e do princípio do mundo, tão antigos como os calhaus com milhões de anos:
Pariu, logo, é mãe.
Seria realmente maravilhoso que todas as parideiras biológicas defendessem, criassem, educassem, dessem amor às crianças que puseram no mundo, mas tristemente, muitas vezes cabe ao estado defendê-las dos próprios progenitores, quem as deveria guardar e proteger em primeira instância.
A palavra mãe pode sem dúvida definir o melhor e o pior que existe num ser humano. Uma mãe pode ser responsável por uma pessoa feliz e realizada, ou por uma pessoa triste a traumatizada para o resto da vida.
Por essa razão, quando cabe aos tribunais decidir na encruzilhada, nas situações limite, não pode ser esta palavra a definir tudo, como se dizer que é mãe, que deu à luz, fosse atestado bastante para entregar uma vida inocente nas suas mãos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A Primeira Roupa


Não há nada como mexermos na roupa do bebé que ainda não conhecemos, para nos sentirmos mais próximos desse pequenino ser que aí vem.
Imaginamos como em breve aquele pedacinho de tecido minúsculo vai estar cheio de um corpinho quente e cheiroso. Esquecemos até a parte do chorão, pensando apenas como é bom ter aquele bocadinho de nós enroscado nos nossos braços.
Andava a precisar de me sentir assim, por isso hoje fui em busca da primeira roupa do António (às vezes este nome soa-me tão adulto).
A Alice teve direito a cueiro e golinhas de princesa. Uma primeira roupa digna de capa de revista. Afinal de contas não é todos os dias que se vê o mundo pela primeira vez. Há que estar vestido à altura do acontecimento.
Mas desta vez e certamente por ser um rapaz, não sinto vontade de nada disso.
Fiquei-me numa solução de compromisso.
E pronto hoje sinto-me com vontade de encher isto tudo de roupinhas de bebé e ceder ao melaço que sinto no meu coração, mas não quero deixar ninguém diabético, por isso fica apenas uma fotografia e agora reparo que este é o 500º post deste blogue, nem de propósito :)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Tudo a Nu

Eu já sabia que nos dias que correm não podemos passear calmamente pelo Shopping, seja ele qual for, sem sermos abordados por agressivos vendedores de crédito, pedintes para todo e qualquer tipo de instituição de apoio a uma vítima qualquer (que me perdoem as sérias), mulheres que nos ordenam que lhes mostremos as mãos para verem as nossas cutículas.
Eu já estava habituada a estes filmes, já tinha inclusivamente as minhas armas secretas anti-abordagem. Mas o que fazer quando uma inesperada realidade surge? Daquelas ideias de génio que nos entram pelos olhos esbugalhados adentro sem pedirem permissão?
Quando eu pensei que nada ultrapassaria a moda de arranjar as unhacas dentro de quiosques em pleno shopping, atirando com as peles mortas e restos de unha na rebarbadora para cima dos passeantes incautos, eis que surge uma ainda mais brilhante invenção:
Arranjar a sobrancelha em público!!! Não é com pinça, é com uma espécie de linha que se vai enrolando no pêlo e arrancando o mal pela raiz. E elas ali ficam, impávidas face aos olhares alheios que as exploram curiosos, como macacos no circo.
Para quando a depilação à brasileira (não confundir com a feijoada à brasileira, que essa até nem me importava) em público, bem no meio do recinto comercial para qualquer um poder assistir ao vivo a a cores ao arrancar forçado e de pernil aberto do pêlo púbico? De que é que estão à espera mentes brilhantes do negócio?

Fúria Compulsiva

Ando numa estranha fúria de deitar coisas fora. Há quem lhe chame preparar o ninho, há quem lhe chame loucura, há quem lhe chame taradice-maníaco-compulsiva-agravada.
A realidade é que já devo ter dado coisas suficientes para fazer uma pequena aldeia algures no Sudão.
Hoje vou dar uma secretária, uma cama, um baú, uma televisão antiga, a mesa onde ela estava, edredons, cobertores, almofadas.
Alguém me agarre por favor, pois corro o risco de regressar a casa um dia destes e não ter nada além das paredes.
De cada vez que esvazio uma prateleira de inutilidades sinto-me mais leve. Isto não pode ser normal. Onde é que eu estava com a cabeça quando decidi guardar tantas almofadas? Bem sei que andei meses em busca da almofada perfeita, mas se nenhuma me agradava porquê guardá-la?!!!
Talvez isto possa ser explicado com uma vida passada, ou não indo tão longe, num passado recente, pois ainda me lembro que na véspera de ir para o hospital ter a Alice tinha trolhas no quarto a terminarem uma obra e jurei para mim mesma que jamais me deixaria apanhar novamente nas malhas da procrastinação.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Divagações

Às vezes penso que a doença torna as pessoas mais sensíveis em relação aos outros.
Quem nunca esteve doente não sabe entender quem sofre de uma maleita qualquer. Pode até dizer: "Coitadinho imagino o que estás a passar", pode até fazer um grande esforço por se colocar na pele do outro, mas não sabe, não imagina, não supõe sequer.
Há experiências que unem de forma invisível quem por elas passou, numa espécie de irmandade muda, onde basta um olhar para se sentirem compreendidos uns pelos outros.
Os restantes que nunca passaram por isso, nunca vão entender.
Um médico que nunca esteve numa cama de hospital, que nunca dependeu de ninguém para sobreviver, nunca entenderá a 100% o seu doente.
Isto são apenas coisas que me passam pela cabeça, numa certeza quase indesmentível. Quem sofreu alguma vez um grande desgosto, ou equacionou de verdade a vida e a morte entenderá muito melhor quem agora passa pelo mesmo, disso estou certa.

domingo, 25 de outubro de 2009

Pois é, Parece Que...

Parece que desapareceram faixas de rodagem na Capital para darem lugar a ciclovias.
Parece que em estradas movimentadas, engarrafadas, infernais roubaram uns bons metros de largura para que os nossos milhares de ciclistas, tal como em Amesterdão, pudessem invadir os quilómetros sem fim de ciclovia limpinha e pronta a pedalar.
Parece que se impunha isto, que temos a tradição da bicicleta em vez do carro, que na cidade das sete colinas não há de facto melhor meio de transporte que o pedal.
Parece que temos que ser mais europeus, mais civilizados, mais abicicletados, por isso toca de tirar espaço aos carros que não existem em Lisboa e dar esse lugar, não aos peões com carrinhos de bebé, ou deficientes motores que tantas vezes têm que andar de perfil, pelo meio da estrada, entre merda de cão e crateras terrestres abertas na calçada com meio metro de largura. Peões? Quem são os peões de Lisboa? Malta estúpida, inconsciente, que chega ao seu destino coxa, estropiada, ou com menos 10 quilos pela aventura empreendida.
Sim é de facto bom poder pedalar à beira rio, ou como aqui em Cascais, à beira mar, sem o perigo de levar com um carro em cima. Mas também seria espectacular se pudéssemos andar a pé com prazer, sem corrermos risco de incapacidade física permanente.
*Não sei porquê, mas tenho quase a certeza que só à pala das ciclovias o nosso António Costa angariou uns belos votos de malta jovem e europeia, acabadinha de se recensear...

sábado, 24 de outubro de 2009

É Oficial

Quando pensava que o episódio das cuecas gigantes era o ponto alto da humilhação semanal de uma grávida, hoje parada na fila do Continente, abro a boca num dos meus milhentos bocejos diários, daqueles que não pedem ordem para chegar, tal a frequência com que me consomem e em vez de sair aquele gemidozinho de sono próprio de um bocejo como deve ser, sai-me um arroto. Completamente involuntário, mas sonoro, bem de dentro de mim, ecoando assustadoramente à minha volta.
Os olhares (imaginários, ou não) cortaram-me ao meio e senti-me a verdadeira mulher das cavernas.
É oficial, a partir de hoje sei que de cada vez que bocejo também posso arrotar sem querer. Digam lá que uma grávida não é de facto um ser fascinante na sua multiplicidade de funções?
Estou toda rota. Às vezes pergunto-me como é que o Hugo ainda vê algum encanto em mim...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Vontade de Regresso

E agora digam-me lá o que é que faz uma mulher grávida que envia um exemplar do seu livro para as mãos de uma amiga que não vê há milhares de anos, mais concretamente, para a Holanda e recebe esta resposta?
Chora claro está, chora tanto que tem que ir buscar uma esfregona e um balde para não molhar as meias novas da timberland.

Viajar Perder Países Ser Outro Constantemente

Joaníssima da Silva depois de me englobar no pacote das "Minhas Anas" pediu-me que falasse acerca das 3 viagens de sonho feitas e por fazer.
Aqui tenho um grande problema, pois 3 é pouco. É pouco para fechar numa gaveta as que fiz e pouco para colocar no meu desejo as que farei. Mas vou tentar.
- A viagem que fiz a Itália com a Rita e a Diana. Milão, Roma, Florença e Veneza. Fomos as 3 numa espécie de despedida da vida de solteiras, ainda que não soubéssemos que assim era. Desde essa viagem que cada uma acabou por seguir o seu rumo adulto, mas as melhores memórias não foram embora. Os cigarros fumados a seguir ao jantar numa tranquila ponte em Veneza (nenhuma de nós fumava já, mas abrimos excepção), as conversas sobre amores desejados, os cafés caríssimos das esplanadas nas praças principais. Quando me lembro desta viagem, lembro-me que vivi.
- A primeira vez que conheci os Estados Unidos num misto emocionante de filme e de reencontro com um país que já conhecia pelos livros e pelo cinema.
- A nossa Lua de Mel por representar o começo de tudo. Praga com a sua vida, a sua música, as suas cores. Salzburgo como a terra que viu Mozart nascer e que nos abrigou de mão dada a acertarmos o passo um pelo outro.

As 3 viagens que sempre desejei fazer e que estou certa farei um dia mais tarde:
- Chile e aqui admito pela Isabel Allende :)
- Nova Zelândia por ser nos antípodas, por significar que conheci o outro lado do mundo.
- Escócia. Esta terá que ser a nossa próxima incursão. Por todo o misticismo inerente e por sempre ter sonhado pernoitar num castelo assombrado.

Gostava muito de saber sobre as viagens imaginárias e reais da Raquel, do Miguel e da Melissa. Por isso considerem-se desafiados.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Cuecas Para que Vos Quero

Apesar de não ser mulher de fio dental, nem de cinto de ligas, no qual possa colocar sensualmente um punhal, ou pequeno revolver, também não gosto de ceroulas até aos sovacos, cuecas com a Hello Kitty, ou roupa interior gasta e sem elásticos.
Tenho a minha vaidade, ainda que sem grande exagero. Gosto de estar digamos que apresentável. Por isso ontem fui com a Alice procurar cuecas de grávida, pois as minhas já cortavam a circulação de sangue em certas partes do meu corpo. Escolhemos as duas o que me pareceu um modelito sóbrio, neutro, tamanho médio. Não dava para abrir a embalagem, por isso deduzi que andasse no M.
Chegadas a casa a minha filha decidiu tirar as peças sensuais da embalagem e enfiar aquilo na cabeça, qual saco de batatas com furos. Rimo-nos a bom rir com o tamanho exagerado da coisa até às lágrimas.
Ahahahah isso não me vai servir Alice, vamos levar para o supermercado e encher de compras, boa?
Risos e mais risos.
Apenas e só por descargo de consciência decido experimentar aquela caricatura de cueca e eis se não quando o pior acontece. O terror se apodera do meu ser com todas as forças. O pesadelo torna-se realidade. Aquilo serviu-me.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Frases das Fases

Vou criar uma lista com as frases mais ouvidas durante as várias fases da minha existência. São tantas que vai ser complicado reunir as mais emblemáticas. Mas para ficar desde já um registo, decidi deixar aqui algumas para ajudar na futura compilação.
Fase de celibato: Então e namorado?
Fase de namoro: Então para quando o casamento?
Fase pós casamento/Fase do coito: E filhos?
Fase primeira gravidez: Uma hora curta.
Fase pós parto (nem deixam uma pessoa recuperar das dores): Então e quando é que vem um maninho?
Fase desta gravidez (esta é talvez a mais proferida de todas. Tão usada que já sei até quando vai saltar da boca de alguém e antecipo-me): Ó que bonito, um casalinho.

Só me Apetece é Ganir

A minha sina de grávida é repetir análises, fazer contra-provas, pesar-me em balanças avariadas e sentir-me velha e cansada.
Com a Alice tinha sucedido o mesmo, repetir a chatice da análise do açúcar numa tortuosa espera de 3 horas, ao longo das quais terei que remover do interior das minhas queridas veias 4 doses de sangue. Ou seja, tirar sangue, beber xaropada de açúcar, esperar uma hora, voltar a tirar sangue, esperar mais uma hora, voltar a tirar o dito e, ai que giro, esperar outra hora e voltar a tirar mais uma litrada. Yupi! Há lá coisa melhor? Ah e no meio de tudo isto não posso mexer-me muito, pois altera os valores da coisa e claro, além do xarope de açúcar, nada mais repousará no meu estômago carente.
Portanto amanhã lá estarei eu munida de um livro que não será de vampiros sanguinários, pois a minha força psíquica tem limites, a praguejar contra o facto de os homens não poderem ficar grávidos também e a rezar para que não esteja com diabetes gestacional. Logo eu que nem sequer ligo a doces, que troco com a maior das facilidades um doce de ovos por um bom bife...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Saramaga Aqui e Depois Ali

Então e porque é que eu não gosto do Saramago?
Podia construir um discurso intelectual, pretenciosamente polido e criticar-lhe o estilo de escrita que me entorpece os sentidos até ao estado catatónico.
Podia simplesmente assumir a minha grandessíssima tacanhice de espírito e (que se lixe) dizer que nunca consegui acabar um livro dele.
Podia limitar-me a ficar calada como fazem muitos, porque não se diz que um Prémio Nobel nos faz dormir até a produção de baba nos afogar. O Prémio reveste-os de uma espécie de escudo invisível que os torna inatacáveis por nós não-membros da Academia e leigos em matéria de Prémios sejam eles Nobel, Pulitzer, Camões, ou Kinder Surpresa.
Mas eu sou um grande pedregulho e posso dizer mal dos Grandes com a ingenuidade dos parvos. Até me posso dar ao luxo de dizer que não gosto do Saramago-homem-além-do-escritor. Tenho medo dele, parece-me sempre o papão desterrado numa ilha vulcânica negra como breu, antipático, arrogante e a cagar sentenças biblícas do alto de um estranho pedestal.
Depois os verdadeiros comunas, pelo menos como eu os vejo, são malta simples, genuina, sem peneiras, tal e qual o Jerónimo Sousa. E ele não é assim, dá mau nome ao partido e acho isso um bocado indecente para os camaradas...
Perguntam-me vocês: Mas tu estás estúpida Ana? O que é que importa quem escreve, o que realmente interessa é como escreve. Pois, só que temos um pequeno-grande problema, como deu para perceber em cima, ele não me cativa por lado nenhum...
Resta-me dizer-vos que quando estive na Suécia e a pedido de um fã saramaguiano, corremos metade de Estocolmo em busca de um livro dele escrito em sueco (sim, há malucos para tudo) e ninguém, nenhum ser vivo funcionário de livraria sabia de quem se tratava. E esta hein?

Desanimada

Tenho dias em que sinto que queria ter mais força, em que tudo à minha volta se esfuma de cada vez que me disponho a agarrar os meus desejos.
Dias em que tudo se transforma numa névoa indistinta, em que sinto que não serei capaz de ser uma boa mãe para dois, uma boa mulher para um, uma boa pessoa para mim e ainda assim prosseguir os meus sonhos.
Dias em que me sinto perdida no meio das tarefas cumpridas e por cumprir e em que não sobra nada do que queria ser.
Tenho dias em que o mais puro dos pânicos toma conta de mim e me pergunto em que raio estava eu a pensar quando decidi embarcar de novo nesta aventura maternal para a vida inteira.
Depois olho as fotografias dela, acaricio-lhe a bochecha suave, vejo as ecografias dele. Penso que não dormi um minuto de noite, ora com azia, ora com vontade de ir à casa de banho, ora com falta de posição, ora com tudo às voltas na cabeça e sei que a culpa é do meu próprio corpo cansado que se agarra impiedosamente ao meu ânimo. Amanhã será um novo dia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Senta-te Aqui e Conta-me o Teu Dia

As coisas que nunca tive quando era pequena nunca foram incentivo, nem desculpa para as repetir na idade adulta.
Sei de tantas pessoas que à falta de outro modelo qualquer acabam por repetir nos filhos o que criticavam nos pais. Eu sempre fiz questão de não repetir erros. Se não havia modelo em certas coisas, criei eu o meu próprio modelo. Isso de vivermos na sombra dos pais uma vida inteira, cobrando, protestando, atirando à cara, há muito que me passou do sistema.
Por exemplo, nunca houve em minha casa o costume das refeições à mesa. Geralmente era cada um para seu lado a horas dispersas, por isso uma coisa que me dá um certo prazer é a rotina do sentar à mesa para jantar.
Mesmo quando éramos só eu e o Hugo fazia questão de me sentar com ele durante o jantar numa cumplicidade que se cria apenas nestes momentos.
Hoje com a Alice e em breve com outro pimpolho por aí sinto cada vez mais como este tipo de rotinas é importante para uma criança, ou um jovem. É o nosso momento de família, uma espécie de porto seguro que nos faz sentir perto uns dos outros, que transmite uma certa segurança e sanidade.
É claro que isto não é rígido, geralmente aos fins de semana a coisa não é bem assim, mas mesmo aqui a Alice pergunta sempre: Então não nos sentamos juntos mãe?
E eu percebo como é nas coisas mais simples que os miúdos encontram a sua serenidade.