sexta-feira, 24 de maio de 2013

Um dia depois de o seu livro ter chegado às livrarias

Miguel Sousa Tavares compara Cavaco a Beppe Grillo , esse mítico comediante italiano e diz que para palhaço já temos cá um, Mr. President. E é trucidado por uns, aplaudido por outros, motivo de abertura de inquérito pela Procuradoria Geral da República, a pedido de outro, que decidiu finalmente acordar do seu marasmo e mexer-se, em defesa própria, claro.
Onde está Beppe Grillo que não se insurge contra vil comparação, onde estão os palhaços deste país que, numa luta desigual, tentam fazer rir como Cavaco, mas sem o mesmo êxito?
Depois, para grande desilusão de uns, aplauso de outros e a indiferença de outros tantos, Miguel vem dizer-nos que não tem qualquer tipo de consideração política em relação a Cavaco-político, mas que tem em relação ao Chefe de Estado e eu achei tudo muito bem, tudo lindamente, pois que há coisas que não podemos dizer enquanto figuras públicas, mas que podemos dizer enquanto cidadãos anónimos. Pois que há coisas que todos gostaríamos de ter voz para dizer, mas que estão vedadas aos que têm voz, pois que há chá e falta de chá e quando o chá está presente, é preciso não chamar palhaço em hasta pública. É preciso deixar isso para outras circunstâncias mais íntimas e Nossa Senhora de Fátima sabe disso.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

tal como a música não entra nos ouvidos de duas pessoas da mesma maneira,

os livros não penetram no nosso espírito de forma idêntica.
Enquanto eu posso ouvir Bruno Mars e deixar-me envolver por uma alegria pateta e sem limites, aos ouvidos de outra pessoa qualquer, o mesmo cantor pode provocar crises de hemorroidal e instintos assassinos em simultâneo.
Com os livros passa-se exactamente o mesmo.
Se há pessoas que choram e trocam promessas de amor com Saramago, outras há que jorram rios de baba, provocados pelo sono.
Se há pessoas a quem as letras de um determinado escritor provocam uma imensidão de significados, outras há que as acham pouco cativantes e nenhum interruptor é aceso.
Nenhuma das duas sensações é certa, ou errada, superior, ou inferior. É apenas isso, uma sensação provocada pelas palavras que outra pessoa escreveu.
Até os livros mais consensuais hão de ter algures alguém que não os achou magistrais, talvez porque não os leu na altura certa, talvez porque simplesmente nunca será tocado por aquelas palavras, ponto final.
O que importa é o que um certo livro nos disse, numa determinada altura da nossa vida e isso não tem que ser igual ao que a nossa melhor amiga sentiu, ou ao que o génio da crítica pensou. A relação que temos com um livro é demasiado íntima para ser generalizada.
Há quem faça da crítica literária profissão e há quem sonhe com isso e apelide a sua, suposta e idealmente, humilde opinião de "review", imaginando-se na New Yorker, ou coisa que o valha, mas a realidade é que nada disto deveria importar grande coisa, pois nada disto é universal. Varia de olhos para olhos, de coração para coração, de leitor para leitor e é essa a magia dos livros.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Marquem na vossa moleskine, merdeskine, ou qualquer outro objecto com folhas de papel



De todas as situações patéticas existentes, acreditem que uma das mais acutilantes é estar sentada numa mesinha a ver passar as pessoas e a verificar, mais uma vez, a minha absoluta falta de relevância.
Se quiserem constatar comigo, apareçam, pois que prometo escrever-vos palavras de platónico amor agradecido.
Se não aparecerem, aproveitarei para colocar em dia o meu soninho, fechando os olhos e cabeceando um bocadinho :)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

austeridade

De todas as coisas que me repugnam e que se acentuaram com a crise, a que ganha o Óscar de mais repugnante é a proliferação de entidades patronais que se cobrem do manto da austeridade para oferecerem condições miseráveis aos trabalhadores.
"Queres, muito bem. Não queres, há quem queira".
E assim se pagam ordenados de miséria, se oferecem condições vergonhosas a quem não pode de facto dar-se ao luxo recusá-las.
Não falo dos patrões que não podem de facto pagar bem, falo daqueles que podem fazê-lo e se desculpam com a crise para não o fazer.
É triste constactar a velha máxima de que há sempre quem lucre com a miséria dos outros.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quando é que é suposto

deixar de olhar para o teu blogue, à espera de uma actualização?
Quando é que o cérebro entra em consonância com a realidade e quando é que o coração deixa de parecer que pára, quando me apercebo que não haverá mais actualizações no teu blogue, nem mensagens tuas no meu telemóvel, nem postais teus na caixa do correio?
Quando é que a realidade entrará de forma constante no meu entendimento, que ora se apercebe de tudo, como um tsunami, ora se engana, fingindo que ainda pode acontecer?
Quando é que é suposto?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

pergunta:

Exactamente quantos membros tem a família Kardashian?
São todas iguais, reproduzem-se para formar novos personagens para os inúmeros programas, reproduzem-se nos próprios programas, vestem-se de forma semelhante, têm vozes parecidas.
Não há cérebro que consiga estar a par de tanta Kardashian.

Cérebros esféricos

Quando dou por mim a torcer por um jogo do Porto com uma equipa estrangeira, ou quando vejo a minha pequenina filha portista a "torcer um bocadinho" pelos jogos do Benfica, pois que sabe que a mãe simpatiza mais com essa equipa, sei que nós, mulheres, pelos menos as mulheres aqui de casa, jogamos num campeonato paralelo.
Não entra no nosso frágil cérebro a hipótese de ficar em frente da televisão a fazer energia para que uma equipa portuguesa perca. É simplesmente superior às nossas forças. Posso até querer que isso aconteça, mas nunca consigo obrigar o meu corpo a fazê-lo. Acabo sempre a torcer pelos mais fracos, pelos mais tugas, pelos que os meus queridos gostam. E tenho noção de como isto poderá soar patético aos ouvidos dos adeptos profissionais.
Sou a mais falhada adepta de todos os tempos e nem tento sequer começar a penetrar na parte do cérebro masculino dedicada ao futebol.
Não consigo, nem acho que valha o esforço de tentar entender o que os move em momentos de guerra absoluta, de lanças nas mãos, gritando palavras de ordem, cuspindo-se, mijando os cantos do estádio, gastando rios de dinheiro pelo esférico, digladiando-se em palavras e socos psicológicos.
Já cheguei a uma altura da minha vida em que sei que há que aceitar certas coisas sem tentar discuti-las, ou dissecá-las e o futebol é uma dessas realidades.
Não tento entender, não julgo, não estudo, não discuto. Deixai-os nos rituais primitivos, eles têm que sair por algum lado e uma bola sempre é menos catastrófica do que uma guerra :)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Aos maridos de mães a tempo inteiro

Não houve baixas por motivos de doença dos filhos no teu trabalho e houve doenças para dar e vender. Aliás, peco por falta de memória, houve uma baixa, sim, nos poucos meses em que aceitei um trabalho, e gerou confusão.
Não houve stress pela hora tardia a que chegavas a casa, pois a mãe tratava de ir buscar a filha mais velha à escola, muitas vezes com o filho mais novo adoentado e pendurado na anca, debaixo de chuva. A mãe ainda o faz.
Nunca tiveste que dizer que não a um compromisso de trabalho em detrimento de compromissos familiares.
Nunca levaste para o trabalho a preocupação de deixares um filho com febre na escola.
Nunca houve um centro de saúde congestionado por nós, pois não era preciso um papelinho para o trabalho. Um sagrado e difícil papelinho que justificasse a ausência em prol dos filhos.
Nunca houve a sobrecarga orçamental de um berçário, ou de uma creche, nem para nós, nem para o Estado.
Nunca houve uma carência que não pudesse ser satisfeita, um mimo que tivesse que ser adiado por outras obrigações mais importantes.
Não houve um tpc em que a nossa filha mais velha não pudesse usufruir do auxílio da mãe.
Várias foram, e são, as vezes em que as tarefas corriqueiras de dar banhos e lavar cabelos estavam cumpridas quando chegavas a casa mais tarde.
Sobrava espaço para uma história antes de dormir, para levantar-me antes de todos, todos os dias, a fim de preparar os pequenos-almoços e para verificar se ela estava bem agasalhada antes de sair, enquanto limpava o ranho do filho mais novo.
Umas vezes fi-lo com uma sensação da mais completa felicidade por poder fazê-lo, outras tantas vezes com o desespero de que ninguém via nada de tudo o que fazia todos os dias e de que queria mais alguma coisa. Tal e qual como num trabalho normal, mas sem a parte do ordenado, nem do subsídio de férias. Aliás, até sem o abono de família que desapareceu do mapa.
O meu trabalho diário é tal e qual como um trabalho normal, mas com a característica acrescida do amor e da ausência de folgas e férias.
Por isso, quando chegar o dia em que se celebram as mães, quando chegar a merda do dia em que se oferecem prendinhas e merdinhas, perde a cabeça e diz-me que sou a melhor mãe do mundo, enquanto me preparas o pequeno-almoço.
Posso até estar longe de ser a melhor mãe do mundo (só Deus sabe como padeço de histerismos e faltas de paciência e como sou a maior chata à face da terra, sim), mas sou a mãe que torna a tua existência mais suave. E é isto. Hoje, 10 dias depois dessa merda desse dia em que se celebra o trabalho mais nobre do mundo do amor, deixo aqui este manifesto a todos os maridos de mães a tempo inteiro.
Não nos fodam (sem ser no sentido literal).

*Não serve o presente texto para insinuar que não tenho alguém excelente a dividir a tarefa da criação comigo, serve apenas como auxiliar de memória futura a todos os maridos de mães a tempo inteiro.



A importância do You

Chateia-me a distinção entre o você e o tu. Cada vez mais me apetece tratar as pessoas por "tu", mas fico sempre naquele limbo do não saber se melindro, se abuso, se sou inconveniente, ou demasiado à vontadinha.
É que, se para uns, não há cá confianças, não te conheço de lado nenhum, a distância é boa e eu gosto, eu tenho um doutoramento e tu não, eu sou Professor Doutor e tu és só dr., eu estou cá em cima e tu nem por isso, eu tenho 80 anos e tu 30, para outros, aqui me incluo, há muito que tudo isso não passa de um jogo de adivinhas maçador.
Vai daí, tomei uma decisão radical:
Passarei a tratar toda a gente por you. O you é a designação mais perfeita de todas as línguas e deveria ser importada com a urgência de um medicamento raro e necessário à cura do pedantismo nacional.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Angelina Bonita

São mais do que muitas as emoções que a notícia da Angelina Jolie suscitou dentro de mim. Primeiro a estupefacção, depois a reflexão e finalmente a admiração.
Gostava de perguntar a alguém que tivesse feito uma mastectomia por causa da puta do cancro, se tivesse tido a oportunidade de prever, com quase 90% de certeza, que iria contrair cancro da mama, se teria feito o mesmo.
Estou desconfiada que sim, mas não posso jurar.
Uma coisa é certa, ela viu a mãe lutar contra a puta do cancro durante 10 anos e o cancro não é uma doença como as outras, não é. É cruel, devastador, contamina vidas, cria esperança, destrói esperança, reaviva esperança, mata-a de novo e jamais deixa a pessoa doente e as pessoas que a amam incólumes.
Penso que já tinha ouvido falar de duas actrizes que optaram pela mesma solução, mesmo quando havia alternativas e esperança, mas já depois de terem tido que lidar com a doença.

indolor

Endurecera ao ponto de se tornar dormente em certas zonas. Sabia que poderia acontecer-lhe, sabia que as quedas sucessivas sobre uma mesma zona do corpo tinham a capacidade de tornar essa zona impermeável à dor, mas até isso lhe parecia ostensivamente indolor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

No bom caminho para a libertação feminina



É um bom começo.

www.sermulherperfeitaétanga.com

Há de facto todo um complexo de culpa genético que inflama as mulheres a serem boas donas de casa, sob o risco de serem rotuladas pela própria mãe, pela sogra, pelo marido como más mulheres. Sendo que "mulheres", neste caso, vai muito além do género, é uma condição que preenche uma lista infindável de requisitos.
Os guias de organização doméstica, os programas que ajudam a inflacionar a imagem desejada, os conselhos sobre como manter a camisa do marido esticada no estendal, a fim de não amarrotar demasiado, as dicas sobre como gerir filhos, carreira, lida da casa, tudo aquilo que nos diz que ser boa mulher está apenas à distância de um mágico estalar de dedos, um baton vermelho e uma roupa sensual, empurram-nos para o poço escuro da frustração, pois que muitas vezes sentimos não conseguir gerir toda a domesticidade inerente à nossa imposta condição e nem sequer sentimos que nascemos para o fazer com uma perna às costas. Na realidade, precisamos de alguém que nos pegue ao colo, de vez em quando, mas não podemos dar-nos ao luxo de sonharmos com isso.
Não conseguimos ser tudo ao mesmo tempo, mas é suposto conseguirmos ser tudo ao mesmo tempo e ainda mantermos o ar sensual.
Por isso, fica a pergunta: Para quando um guia que nos ensine que nada do que é pré-estabelecido como sendo importante é assim tão importante?
Um guia que ponha a nu toda a verdade sobre as mulheres-sogramente-perfeitas?
E a verdade, o segredo mais bem guardado da história dos segredos femininos, é que elas têm ajuda. Elas não fazem tudo sozinhas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

o intumescimento provocado pelo facto de se ter um blogue

Ter um blogue, no sentido de possuir um espaço onde se escreve para um número potencialmente ilimitado de almas, pode levar (e muitas vezes leva) a uma erecção descontrolada do ego. Quanto mais as pessoas se convencem que um blogue é um palco, o seu palco, mais a erecção pulsa, produzindo descargas de adrenalina que auto motivam o autor a acender mais holofotes sobre a sua pessoa.
O autor do blogue faz passar a imagem que vive bem na sua própria pele, que não almeja mais do que aquilo que possui, ainda que aquilo que possui seja nada. O autor do blogue é crítico literário, fazendo perninha no goodreads, escritor, dita tendências de moda, guru das dietas, ou de outro palco qualquer. Enfim, o céu é o limite, pois no palco virtual ele pode apelidar-se do que quer que seja. Garanto-vos que haverá centenas de almas dispostas ao elogio.
Só que um blogue é apenas e só isso. Uma página em branco. Um espaço virtual onde cada um escreve o que deseja escrever. Não é muito diferente dos caderninhos perfumados que tínhamos na primária, em termos de relevância.
Uns entendem que ter um blogue não representa motivo para grande alarido. Outros entendem empolar o seu espaço, conferindo-lhe cariz de jornal de letras, ou revista de moda, provavelmente porque era esse o seu sonho profissional, não sei.
Cada um faz aquilo que quer e, nesta época de crise económica, até consigo entender a necessidade de poupar nos antidepressivos e apostar num espaço de auto masturbação elevada ao extremo. É que sempre é mais em conta.

Estibaliz Berecibar e as anémonas

E foi com este nome que não saiu de um livro da Alice Vieira, nem da Sophia de Mello Breyner que decidi demitir-me da função de preocupar-me com o estado da educação neste país.
Quando um exame parece mais um guião de uma série de humor, do que um teste para avaliar conhecimentos sobre a língua materna, eu resigno.
Vou ensinar os putos a fazer humor. Pode ser que singrem na profissão de elaboradores de exames nacionais.

terça-feira, 7 de maio de 2013

No meu tempo é que era bom

Exames aos putos de 9 anos.
É preciso fazer esses maiores de idade, sacaninhas com vontade jurídica assinarem um compromisso de honra.
É preciso afastar alguns desses sacaninhas cábulas dos seus professores de origem e fazer com que se desloquem a outra escola e sejam vigiados por outros professores, que nada têm a ver com o ensino da disciplina avaliada.
É preciso - e este factor é de relevância indiscutível - que levem uma caneta preta. Não podem esquecer a caneta preta.
É preciso a solenidade e o acagaçar, factores fundamentais para enrijecer o caracter de um futuro adulto e formar um estudante exemplar, sem complacência de qualquer espécie.
É preciso voltar "ao nosso tempo é que era bom".
É preciso voltar para trás.
O único estranho problema é que o ensino em si nada tem do tempo em que era bom, quando se empinava conceitos básicos e se decorava nomes de rios e de reis e de coisas concretas e simples de explanar num exame.
O único estranho problema é que se quis retornar aos "tempos em que era bom" apenas nos exames às crianças pequenas.
E ainda em relação a esta coisa dos que dizem que "no meu tempo é que era bom, pois que se fazia exames e não era preciso levar as crianças ao médico tanta vez e trabalhávamos de sol a sol desde o berço e não tínhamos cadeirinhas no carro para os putos e não havia cá essas paneleirices." Aos que dizem indiscriminadamente, com uma nostalgia enjoativa e cega que no seu tempo é que era bom, tenho novidades chocantes para vós:
- No tempo em que era bom, nem tudo era assim tão bom. Se não, enfiemos os olhinhos na classe política saída do tempo em que tudo era bom.

Eu nada entendo de políticas de educação, nem de outras políticas quaisquer, mas se exercesse um cargo de poder na educação (bate na madeira), acho que fazia batota e usava cábulas e o único compromisso de honra que assinaria, com caneta preta claro, seria o de copiar bastante o sistema educativo sueco, por exemplo. É que parece que eles devem estar a fazer qualquer coisa bem e também não me parece que tenham tido que voltar aos tempos em que tudo era bom e não havia cá meninos da mamã com nervoso e ansiedade.

verdade

"É como a internet, ou a televisão. Não existe qualquer centro, existem apenas triliões de pedacinhos de ruído recreativo. Nunca podemos sentar-nos e ter qualquer tipo de conversa prolongada, é tudo apenas lixo barato e desenvolvimento de merda. Todas as coisas verdadeiras, autênticas e honestas estão a morrer. Intelectual e culturalmente, andamos a saltitar como bolas de bilhar aleatórias, reagindo ao último estímulo aleatório"

*Arrancado do Liberdade, de Jonathan Franzen, que só estou a ler, porque a Melissa fez o favor de atirar um exemplar no meu colo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

o que temos

À frente de cada departamento que é suposto ajudar a resolver problemas, está uma pessoa incapaz de ajudar a resolver problemas e que o diz com a indiferença gelada de quem se está a cagar para os problemas que era suposto ajudar a resolver.
Atrás de cada balcão de cada repartição, ou atrás da puta que os deu à luz, ao balcão, ou à repartição, está alguém que acha que não vai ter posto de trabalho se não arranjar problemas, pois que quanto mais entraves criar, mais útil parece ser o seu trabalho e mais poder parece ter a sua vida.
Atrás de um país morto e sem crescimento, nem nascimento, está sempre alguém disposto a enfiar mais uma pazada de terra para o enterrar definitivamente.

Poderia ter saído de um livro de auto-ajuda, mas não

Às vezes antes de melhorar piora. Não é que seja necessário piorar, não é que o pior faça a menor falta, mas piora. E é preciso paciência, resiliência e esperança, sempre.
Os materiais que dobram acabarão por voltar à sua forma original. Com mazelas, é certo, menos flexíveis em certas zonas, desengonçados noutras, mas retornarão.

sábado, 4 de maio de 2013

de joelhos

Se há coisa que mexe com o meu nervo ciático é ver os devotos de joelhos em sangue, já quase purulentos a rastejarem pelo chão pedregoso de uma qualquer promessa que pagam.
Joelhos em sangue, ar sofrido e compenetrado na sua via sacra medieval para lugar nenhum.
Odeio.
Porque é que não prometem chicotadas no lombo, roçar as nuas costas sobre uma parede com tinta de areia, beber um copo com azeite, ou comer um cacho de bananas com casca em privado?
Sei que pode parecer duro e insensível da minha parte tratar assim as manifestações de fé dos outros, mas nisto das lesões auto infligidas pelas crenças sou um bocadinho mal disposta, principalmente quando me entram pelos olhos dentro.
Deixo aqui sugestões para paga de promessa, um bocadinho mais no que penso ser o espírito cristão:
Tirar o dia dedicado a foder os próprios joelhos e a mutilar um corpo que deveria ser respeitado, pois que só se tem um e dedica-lo a ajudar alguém necessitado, hein? Olha que bela ideia.

na primeira pessoa do singular

Nada sei de onde te encontras e se aí é realmente a ausência de tudo o que te perturbava. Se parou tudo o que querias que parasse, se foi tudo como quiseste que fosse, se fomos todos o que era suposto sermos na tua vontade.
Nada sei das demandas que empreendes agora, se é que demandas existem aí onde te encontras. Mas gosto de pensar que as empreendes mesmo assim, pois imaginar-te sem grandes empreendimentos é impossível.
Sei apenas dos sorrisos que já não rasgas, das palavras que deixaste de dirigir aos que gostavam de te escutar, do som que certas partes de ti já não provocam na vida dos outros e isso faz com que tudo o resto soe absurdo, bem como o sítio onde te encontras.
Isso faz com que o consolo se evapore numa espécie de mágoa sem retorno, que não me devolve a tua vida, que não me diz de aí onde te encontras, se encontraste o que querias.
Nada sei das dores dos que dizem que tudo ficou melhor assim, pois para mim nada poderia ficar melhor assim, sem ti aqui.
Calem-se os que julgam confortar com as palavras vãs dos manuais de pesar. Calem-se todos ao redor da tua lembrança e escutem apenas o silêncio que faz agora.
Calem-se as frases comuns de conforto e deixem que se escute o silêncio que faz agora. Só o silêncio explica o que acontece dentro de todos os que ficaram sem ti. Apenas ao vento é permitido soprar, para manter a lembrança de que tudo prossegue apesar de estares agora aí onde te encontras.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

quando as imagens valem mais do que Todas as Palavras



Não há sensação igual. Podem crer que não.

que será será

Fico sempre divertida quando oiço as futuras mães traçarem planos maternos, com as suas certezas inabaláveis e riscos firmes desenhando rumos teimosamente a direito. Os desvios são para os outros, sei bem o que quero.
O pai fará isto, eu farei aquilo, o filho jamais fará aqueloutro, nós jamais faremos disto, ele nunca comerá daquilo, a família fará de tudo, os outros nada poderão fazer e eu sei que é isto e que é assim que será, ou não será.
Tenho uma notícia bombástica:
Será como for e isso não será assim tão mau, a menos que se tracem tantos planos que depois ver que eles não correm bem assim, vos destruirá com a famosa culpa e sensação de falhanço materno.
É caso para cantar, como a mítica Doris Day:
"Que será será, whatever will be, will be"

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Post fashion

Como é que é, alguém tem, alguém já calçou, alguém já namorou, ou acomodou seu frágil chulet numa destas lindas alpargatas? Deixam transpirar, duram, são confortáveis, valem os euros?
Agora que já sou uma mulher adulta e não posso aparecer em eventos sociais internacionais com as minhas crocs, pondero a hipótese de evoluir para isto (eu e a minha filha, claro está :))

domingo, 28 de abril de 2013

datas

Tirando as datas de nascimento, adquiri o estranho hábito, ou o hábito adquiriu-me sem qualquer intervenção da minha parte, de não recordar datas praticamente nenhumas.
É que as datas não servem para nada, além de nos condicionarem o estado de espírito. Nenhuma data é mais importante do que o dia anterior, ou dia que se lhe seguiu.
Nenhuma data deveria ter o poder de nos deixar mais em baixo, pois é apenas mais um número num calendário e os números só têm a importância que lhes damos.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

queria dizer-te

que sinto muitas saudades tuas.
Que toda essa coisa da paz e do fim do sofrimento é absolutamente verdade, sim, mas não me consola, porque o que eu queria mesmo era que nunca tivesses ficado doente. Ainda que isso implicasse nunca ter-te conhecido, ainda que isso implicasse ter ficado uma pessoa mais pobre com a tua ausência na minha vida, trocava tudo isso num ápice, para que pudesses ter continuado na vida de tantas outras pessoas.
Hoje estou fodida com o pouco sentido que tantas coisas fazem. Mas acho que querer tirar sentido de tudo, da vida, da morte e do meio de uma e de outra, muitas vezes é um exercício estéril. Não nos leva a respostas nenhumas.
Nascemos, vivemos e morremos, com a mais absoluta falta de critério, ao sabor do livre arbítrio de coisa nenhuma.
Hoje sinto-me tremendamente só de ti e se sei que isto tem dias melhores do que outros e que amanhã me focalizarei na parte da paz e no final do sofrimento, mas hoje não.

a minha pública indignação

Ao ver os fanáticos franciús-avec-cara-de-cú, formando violentas guerrilhas de rua, contra a aprovação do projecto lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de adopção, pelos mesmos, a réstia de pouca dúvida que existia em mim, acerca dos franceses dissipou-se.
O povo francês não produz em mim simpatia de qualquer espécie. Não querendo generalizar, mas generalizando, acho-os antipáticos, arrogantes, vaidosos, extremistas e xenófobos.
É esta a imagem que conseguem passar cá para fora. Que me desculpem os franceses decentes e simpáticos e nada xenófobos, que certamente são em maior número, mas a realidade é que eu vos descrimino pela minoria, sim, tal como fizeram aos emigrantes que espetaram para fora do país, eu ponho-vos para fora da minha lista de povos calorosos.
Acho aviltante que se recorra à violência para manifestar o desacordo em relação a uma lei que não coloca em risco os seus direitos fundamentais.
Ver a desproporcionalidade, o ódio, o sangue a ferver, o fanatismo, a raiva, a espuma a sair das beiças, por alguma coisa que não coloca em causa as suas vidas, (pois que só aí entendo a saída da razão), é coisa para me deixar com medo, muito medo e com muito pouca vontade de chamar a Paris a cidade do amor.

terça-feira, 23 de abril de 2013

dentro das fotografias

Nas fotografias tudo parece perfeito. A manta do piquenique, o cesto de verga, com frutos a adivinharem-se no seu interior. As crianças, com as suas roupas repletas de cor e estilo, brincando alegremente com uma bola estupidamente colorida e brilhante.
Um pai sereno, observando o cenário com uma pose descontraída e estilosa.
E eu pergunto, antes, ou depois do disparo da objectiva, o que é que se manteve assim?
Os outros pensam que aquela família passa os melhores momentos, muito acima dos seus próprios momentos com birras e trombas e silêncios.
As fotografias cristalizam a perfeição que se sonha. Escrevem as histórias como queremos vê-las e damos-lhe as legendas que achamos mais adequadas, mas muitas vezes, pelo menos essas fotografias de idílio familiar, mentem-nos descaradamente.
É preciso separar o segundo que se cristaliza, do dia que corre sem perfeições.
É claro que existem segundos cristalizados de pura felicidade, é claro que sim, mas a vida não é feita apenas deles.
Gostava de ver fotografias mais normais, que cristalizassem as birras na fila de uma diversão na Eurodisney, por exemplo :)

domingo, 21 de abril de 2013

coisas das quais sinto saudades profundas

De pensar:
"Não me apetece fazer um cú" e efectivamente não fazer um cú.

coisas que aprendi contigo

As pessoas com cancro, por debaixo das cicatrizes e mazelas dos tratamentos inerentes, por debaixo dos medos e coragem demonstrada,são precisamente isso, pessoas.
Mas são também pessoas com cancro, pois às tantas há que aceitar que se vive com esse inquilino filho da puta, que ora se esconde, dando tréguas, ora reaparece, obrigando a mais uma batalha. Mas que estará sempre presente, umas vezes impelindo a que se fale nele, as vezes necessárias à expulsão de todos os anseios, outras tentando passar um dia inteiro sem falar sobre ele.
Pessoas com as suas histórias, passado, sonhos, expectativas, sensibilidades.
Pessoas dignas de serem conhecidas, reconhecidas, faladas, mexidas, amadas, apesar de e com a sua doença.
Pessoas que não são a doença, mas que também a são um bocadinho, pois não há como separar as duas coisas.
Ensinaste-me que não devemos fugir das pessoas, apenas porque carregam o estigma da palavra C e, por muito dolorosa que esteja a ser a tua ausência, não deixarei nunca que o sofrimento de não te saber já no meu mundo, seja superior ao privilégio que foi ter-te na minha vida.


Como dizes, "o sofrimento não é preciso para nada, mas existe e, como tal, não sei fingir que não está lá, nem varrê-lo para debaixo de um tapete imaginário, só para não encher os meus dias da poeira dos outros." E é por isto que gosto de aqui vir, e gosto ainda mais dos comentários que me deixas nos Episódios. Porque te aproximas, porque te deixas contaminar, porque não ficas à distância nem em silêncio. Tal como é preciso ter coragem para levantar a cabeça quando se sofre, também é preciso a mesma dose de coragem para não olhar para o lado na esperança de não ver esse mesmo sofrimento. Saber que há pessoas como tu, que me aceitam (a mim e ao meu sofrimento) é o que me inspira e me dá esperança que o sofrimento não é (em) vão, que mesmo do pior, piorzinho dos cenários, pode mesmo surgir qualquer coisa de bom.

*comentário deixado pela Silvina aqui no blogue.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

paciência

É, sem dúvida, uma característica que se adquire com a sabedoria impressa pelos anos, com a experiência e com mais qualquer coisa que ainda me escapa.
Falta-me em quase todas as circunstâncias da vida que a requerem.
Falta-me.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

cenas que adoro

Receber os créditos de tudo aquilo que os meus putos aprendem com a televisão.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

comoéqueé?

Então o Diogo Morgado chorou na Oprah?
Não te ponhas a pau, não Daniel Oliveira. Eu sempre disse que a Oprah era uma perigosa adversária.
Ela fez com que Jesus chorasse.

...

Vãs as palavras de conforto que te dirigem.
Vãs as penas dos que choram contigo.
Vãos os pensamentos de suposta paz que te transmitem.
Vãs as mãos que te apertam o braço, lembrando o que não consegues sentir.
Vã a medida que julgam saber do que sentes, pois que nada entendem de ti neste momento, nem do que sentes agora.
Vão o mundo que continua a girar apesar de ti.
Vil o sol que te ofende por persistir no seu brilho e o céu por não estar cinzento e chuvoso, refletindo-te.
Penosa a primavera que te afronta, os sorrisos das crianças indiferentes, as vidas que prosseguem com a cadência necessária, para que tudo continue apesar de ti.
Um dia hás de agradecer por tudo isto que continuou, que persistiu, que te mostrou que nada fica imóvel em homenagem a ninguém.
A vida é a maior dádiva e a maior afronta, a maior fonte de respostas e abismos sem solução. A vida é isto de ficares aqui, sem tudo entendido, nem resolvido, mas teres que ficar, completando o ciclo do mundo que se movimenta apesar de ti.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

As melhores palavras de sempre

Deste-me tu.
Acabei de ser operada. E o que mais me bateu hoje não foi o regresso ao hospital, nem o ritual de vestir a bata transparente, tirar as jóias, enfiar uns plásticos nos pés e uma touca na cabeça, nem sequer foi ouvir o médico dizer-me que se calhar o que tenho (tinha) no pescoço é mesmo um quisto e não um gânglio. O que mais me bateu hoje foi o facto de ter lido o teu livro antes e depois da cirurgia. Acompanhou-me nesta viagem, na mente, na pele, na maneira de me emocionar com o mundo -mesmo este meu mundo hospitalar. Transportou-me todo o dia, desde o momento em que o abri no metro até acabar de o ler na cafetaria do hospital, rodeada de batas brancas e verdes e pés com socas (acho que são Crocs), já com uma nova cicatriz e novas dores, e um sumo de laranja à frente. A satisfação de sentir algo enorme, maior do que eu, é mil vezes superior à de compreender um conceito metafísico importante ou de fazer uma fantástica descoberta racional. Raramente me tinha sentido assim tão inundada de emoções, e, sobretudo, nunca me lembro de ter gostado.
E devo isso tudo ao teu livro, que escreveste com 25 anos e que pela tua amizade me chegou às mãos na altura certa. E tenho a certeza de que também o li na altura certa. Hoje. Obrigada por estes momentos de profundo sentir, e pelas viagens por Paris, Veneza e Roma. Também as conheci por esta ordem. E no fim, o regresso a Paris e a vontade de regressar a Lisboa. Sinto-me estranhamente em casa.


Hei de reler-te as vezes necessárias para que se aplaque em mim o vazio imenso que sinto, ainda com tão pouco tempo de separação.
Dizem que não importa há quanto tempo sentimos, mas a intensidade com que o fazemos e eu sempre soube que eramos almas antigas, daquelas que se aproximam por pura intuição, sem as certezas tradicionais dos cautelosos. Tu tinhas que te cruzar no meu caminho, para que eu nele entrasse descaradamente, mesmo prevendo a possibilidade de perder-te.
Adoro-te e não o digo apenas agora, disse-o sempre que consegui encaixar a palavra.
Adoro-te.
Da tua amiga
Nicoleta Sparks ;)


sábado, 13 de abril de 2013

hoje

hoje não me apetece nada. nem sequer começar com letra maiúscula. sinto-me como se aguardasse um nascimento ao contrário, como se as dores de parto fossem para dizer adeus e não olá. sinto-me a pairar sobre coisa nenhuma, sobre uma certeza que encerre tudo de bom e de mau.
hoje quero acreditar que será melhor depois da contração final, que nenhuma outra dor se seguirá, que será calmo e sereno e cheio de tudo aquilo que leva a dor embora.
o final será como o começo. o final será um recomeço demasiado duro, porém necessário para tantos outros que permanecem. o final será apenas o inicio de qualquer coisa muito maior e é nisso que quero acreditar, com a firmeza dos que creem em coisas maiores do que o mundo que existe, com a firmeza dos que creem sem reticências, nem pontos de interrogação. com firmeza apenas. firmeza e solidez de espírito.
hoje quero saber-te amanhã em outros braços. hoje quero saber-te serena. hoje quero que nada se prolongue além de nada. hoje abraço-te e envolvo-te com tudo aquilo que possuo de bom e sussurro-te em pensamento que tudo ficará melhor.
nada leves, nada temas, nada deixes ficar. sê inteira sempre e em ti te encontrarás sempre em mim e em todos aqueles que te querem.
hoje voa para aquele lugar com o qual sempre sonhaste e repousa finalmente de tudo o que te magoou.
Mereces o maior e melhor lugar. Aquele bem dentro do meio da estrela que mais brilha e sei que o ocuparás sem reticências, nem hesitações, como só tu ocupas os lugares por onde passas.
obrigada por teres aumentado o volume do meu coração. Obrigada.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As Dietas

Nada percebo delas. Queria muito perder a minha barriga, algures antes dos 40, mas sei que se continuar a comer a minha cerelac, ou Nestum, as probabilidades de isso vir a acontecer são bastante diminutas. Mas eu sei disso e aceito esta minha fraqueza, com promessas diárias de que deixarei a Nestlé na casa dos 30.
As únicas dietas que fiz na minha vida, tiveram que ver com abstinência de açúcar na gravidez. Por isso, tenho muito pouca moral para debater este assunto.
No entanto, existe uma coisa chamada bom senso, que sempre me impeliu a dizer àquela colega de faculdade, que transportava uma garrafinha com uma mistura de cor duvidosa, que andar a beber seiva, ou a comer sopa durante uma semana, não levaria rigorosamente a nada, além de um par de quilos perdidos em 8 dias, um persistente mau humor e uma vontade de comer alarvemente, finda a dieta, repondo os quilos à velocidade da luz.
Ela era estudante universitária, inteligente, com vários quilos a mais, mas tinha este lapso cerebral que a levava a acreditar no misticismo miraculoso da seiva, ou da sopa.
Aquilo que todos os que tentam emagrecer vários quilos à conta destas ideias radicais precisam de entender, é que a única merda que resolverá o problema será uma mudança para a vida. Um compromisso mais duradouro do que um contrato matrimonial.
Não me venham com tretas, ou mudam os seus hábitos alimentares de forma profunda, consciente e continuada, e por continuada eu quero dizer mais ou menos para sempre, ou voltarão aos quilos.
É como deixar de fumar. Não dá para conceder e fumar apenas um maço por semana. Ou se deixa de fumar, ou não se deixa de fumar.
E é esta a dura realidade. Toda a coisa do compromisso para a vida é assustadora, tira a força nas pernas e impele-nos ao suicídio gastronómico, afogando as mágoas na charcutaria, ou enfiando a cabeça na vitrina da pastelaria tentando um atalho menos doloroso e acreditando em milagres, mas é isto. Quase que posso jurar que sim.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

MST

E hoje, passados não sei quantos anos sem o fazer, voltei a abrir a minha pequena pasta, onde guardo tudo aquilo que me marcou há tantos anos atrás. Crónicas, artigos de opinião, biografias, entrevistas e detenho-me num molho de páginas, rudemente rasgadas da origem e já desbotadas. Detenho-me, sabendo que não conseguirei parar até ter chegado ao final de cada uma delas.
Mais uma vez, ainda e acho que para sempre, sei que continuarei a perder-me nas palavras do Miguel Sousa Tavares:



(...)"Agora, porém, passou já um ano desde a minha última viagem e estou preso à terra e atento à chuva e à cor do rio. O meu Taj Mahal, que mandei construir para celebrar todos os regressos e encerrar todas as ausências, cresce devagar, tijolo a tijolo, como uma ampulheta medindo um tempo suspenso. No outro dia, subi até ao telhado ainda inacabado e de onde a vista alcança toda a minha vida, e sentei-me, encostado a uma chaminé. Caía uma chuva miudinha sobre a terra ressequida, um vento frio fazia abanar a copa das árvores e um céu cinzento carregado de nuvens prometia mais chuva ainda àquela terra sedenta de água e cansada de tanta luz. Um sinal de sorte e de desgraça"(...)

(...)"Queria então que alguém me explicasse que pesadelo é este que se abateu sobre nós. Que longa travessia cinzenta é esta, de dias sem luz e noites sem estrelas. Que senhor das trevas nos roubou a luz dos dias, que infinita tristeza terá apagado as estrelas do céu?
E sobre mim pousa então a mão da minha mãe. Vejo o azul intacto no seu olhar tão antigo e tão próximo, as suas mãos desenhando teatros de sombras na parede, como quando eu era pequeno, e um poema escrito para a minha impaciência:
As minhas mãos mantêm as estrelas
Seguro a minha alma para que não se quebre
A melodia que vai de flor em flor
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do coração sustenta o ritmo das coisas

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O nosso consumismo transposto para os filhos

Entendo o instinto desenfreado de desatar a comprar peças de roupa e cadeirinhas topo de gama e saquinhos para agregar às cadeirinhas, para o nosso primeiro filhote, mas é fixe termos em mente que tudo aquilo será para nós, para taparmos o nosso gigantesco buraco consumista e não para uso útil do bebé.
Tenho bem presentes as diferenças entre a minha pessoa na primeira gravidez e maternidade e a minha pessoa na segunda gravidez.
Talvez tivesse a compulsão do consumo mais atenuada, por ter verificado a quantidade de dinheiro que se atira pela janela, talvez tivesse percebido, com um estranho clarão de lucidez, que o meu puto se estaria a cagar se tinha babygrows da Laranjinha, da Petit Patapon, ou da Primark, desde que eu lhe desse amor.
Os putos precisam de amor e de tempo e não de cadeiras topo de gama, ou 230 peças de roupa, para mudar todos os dias. É claro que também podem ter a colecção inteira da Ralph Lauren e o amor dos pais, é claro que sim. Mas isto é apenas para que os pais que não podem comprar tudo do bom e do melhor, não se sintam na merda, pois que isso é a mais irrelevante das coisas nesta estranha equação de se ser mãe, ou pai.
Os putos precisam de lençóis frescos no verão e um edredão no Inverno. Não precisam realmente de 10 mantinhas de lã marinho, mais uma envolta bordada com caxemira, mais fraldas bordadas, mais uma bolsa para a primeira roupa e outras tantas para os restantes dias de maternidade. Eles não precisam de um enxoval do princípio do século passado. A sério.
É claro que não lhes faz mal nenhum, se os pais puderem e lhes der gozo, comprarem o que lhes der na real gana, mas é preciso ter sempre em mente que aquilo é mais para os pais, do que para os putos.
"Estou a comprar esta cadeira, pois que lhe acho imensa graça e o design é gracioso e eu preciso de tê-la, pois joga bem com os meus tapetes", não é a mesma coisa do que pensar: "O meu filho precisa mesmo disto para se alimentar".
A diferença está no escolhermos enganarmo-nos a nós próprios, ou não.



12 euros

190euros

terça-feira, 9 de abril de 2013

Muitas são as vezes

Em que me apetecia viver dentro de um filme do Woody Allen.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Amor de mãe não é só nas tatuagens

A sua pequena voz, acompanhada da estatura pouco dada às alturas, nunca foi proporcional a duas coisas que possui:
O número dos sapatos.
O tamanho do coração.
Aquele bebé, cujos pés sobressaíam das meias demasiado pequenas, quanto a vi pela primeira vez ao colo do pai.
Aquele bebé que retirava tanto de sono, quanto devolvia de amor, é agora uma menina.
Uma menina com os sentimentos de alguém que cresceu dentro das melhores palavras, dos melhores gestos, mesmo sem que isso tenha de facto acontecido totalmente. Ela é simplesmente assim, sem sementes de maior valor, sem grandes justificações exteriores.
Ela dá tudo o que o seu coração suporta dar, não tem medo de abraçar, nem de dizer que sentirá a falta de quem ama. Ela não teme entregar-se, mas teme que não a amem da mesma forma e pensa nisso com devotada angústia.
E eu espero e peço, a quem quer que me escute nestas coisas do futuro dos filhos que não nos pertence, mas no qual gostaríamos de ter uma palavra a dizer, que ela encontre, ao longo da vida, mais espelhos do seu amor do que sombras. Pois quem ama assim, sem reservas, merece um amor igual. Sempre.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A dar-vos seca desde 2008 e troca o passo

Um jovem com um blogue de entrevistas fez-me uma série de perguntas, em jeito de entrevista, que vos deixo aqui, num exercício de narcisismo sem precedentes :)


M.L: Quando surgiu o interesse pela escrita?
A.C: O meu interesse pela escrita nasceu do meu interesse por livros. Desde pequena que gosto de me perder num bom enredo, de me deixar levar pelas palavras dos outros. As palavras dos que fazem da escrita profissão, sempre foram uma espécie de alento na minha vida. A escrita surgiu como uma consequência natural do gosto pela leitura, sentia-me compelida a escrever. Tudo era um bom motivo para o fazer.


M.L: Quais são as suas influências, enquanto escritora?
A.C: Apesar de ter escritores que venero e aos quais presto vassalagem das mais diversas formas, não posso dizer que fui influenciada por algum escritor em particular, pois a minha maior influência é a vida. A minha vida, a vida daqueles que me rodeiam. Os afetos, meus e dos outros. Estou sempre alerta e atenta. A permeabilidade ao mundo, é uma das coisas que nunca quero perder, pois é ela o meu grande motor no que respeita à escrita.


M.L: Qual foi o trabalho que a marcou, durante o seu percurso como escritora?

A.C: O meu percurso é pequeno ainda. Espero ter muitas páginas pela frente, enquanto escritora, pois só agora começo a ver-me como merecedora dessa designação. Mas, tentando responder à tua pergunta, o que mais me marcou foi este último livro, “Todas as Palavras de Amor”. Foi através dele que aprendi a não desistir daquilo que mais gostava de fazer: Escrever. Foi através dele que senti que tudo, até aqui, tinha valido a pena.


M.L: Como escritora escreveu para literatura e para televisão. Qual destas áreas que lhe dá mais gosto de escrever?

A.C: Foi o meu primeiro romance que me levou aos guiões. O Manuel Arouca leu o manuscrito do “Vontade de Regresso” e chamou-me para trabalhar na sua equipa, apresentando-me a um mundo totalmente diferente, em termos de escrita. O tom coloquial e mais instantâneo é fundamental em guionismo e eu tive que me libertar de várias camadas, até atingir aquele ponto que se deseja nos diálogos mais fluídos. O guionismo sempre me desafiou em termos de criatividade, pois aqui as tuas ideias e a tua imaginação são constantemente postas à prova e é necessária uma agilidade mental, muitas vezes, desgastante. Estás sempre a jogar com uma certa dose de desconhecido, pois o que funciona para ti, pode não funcionar para quem vai ver e pode não funcionar para quem vai representar ou para os meios ao dispor da produção. São duas coisas totalmente distintas, mas que podem coexistir pacificamente, complementando-se, até. Confesso que o que mais me completa é a literatura e o que mais me desafia é o guionismo.


M.L: Gostava de experimentar outras áreas como, por exemplo, o cinema?

A.C: Se estamos no campo do sonho, aqui vai: Adorava experimentar cinema. Também adorava poder escrever disparates ou outra matéria igualmente relevante, para uma publicação jornalística e ser paga para isso.


M.L: Entre 2008 e 2009 escreveu juntamente com Manuel Arouca, Tomás Múrias e Melissa Lyra, a telenovela “Podia Acabar o Mundo” que foi exibida na SIC. Que recordações guarda desse trabalho?

A.C: Felizmente, guardo recordações boas de praticamente todos os meus trabalhos. “Podia Acabar o Mundo” foi a primeira novela que escrevemos para a SIC e, por esse motivo, um desafio maior.


M.L: Qual foi o momento que mais a marcou, durante o seu percurso como escritora?

A.C: Foi a primeira reunião que tive com o Manuel S. Fonseca, na editora Guerra e Paz. Ele ligou-me, depois de ler o meu manuscrito e quis encontrar-se comigo no dia seguinte. Quando ele me disse: “Nós estamos muito interessados em editar esta história”, eu senti que era o princípio de muitas coisas importantes na minha vida.


M.L: Como vê atualmente a Cultura em Portugal?

A.C: Acho que somos absolutamente extraordinários a desenrascarmos projetos com poucos meios. A arte de fazer bem, ou menos mal, com poucos recursos, é uma arte muito portuguesa e terá que se reinventar de novo, dada a negra conjuntura do país. Também sinto que os portugueses estão cada vez mais sedentos de cultura acessível e de qualidade. A cultura deveria ser acessível a todos. Deveria ser banalizada e vista como uma manifestação intrínseca de uma sociedade saudável. Em certas capitais europeias, não tão faustosas quanto isso, estás sempre a esbarrar na cultura, como parte da cidade e dos seus habitantes.


M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?

A.C: Se, por carreira internacional, te referes a ver o meu livro traduzido em dezenas de línguas, sim. Se te referes a um convite para adaptar o meu livro ao cinema francês, italiano, britânico, sonhemos em grande, americano, é claro que sim também, que eu não sou de fugir a sonhos bons…


M.L: Como é que é a sua rotina, quando escreve?

A.C: Como tenho filhos pequenos, tenho que adaptar as minhas rotinas às rotinas deles. Já não tenho aquela liberdade total de escrever a qualquer hora do dia e da noite. Gosto sempre mais de começar a escrever de manhã muito cedo, com uma boa caneca de café e, geralmente, bandas sonoras de filmes a tocarem no Mp3.


M.L: Recentemente, a telenovela da SIC “Rosa Fogo”, da qual participou no arranque do projeto, foi nomeada para o Emmy Internacional na categoria de Telenovela. Como vê este reconhecimento internacional?

A.C: Como disseste bem, participei no arranque da novela, por isso não me envolvi do princípio ao fim do projeto. Mas fico sempre feliz, quando um projeto português passa a ser falado além-fronteiras.


M.L: Qual foi a pessoa que a marcou, durante o seu percurso como escritora?

A.C: Eu não consigo dissociar o meu “percurso” como escritora, do meu percurso como pessoa. Por isso, haverá sempre quem/o que me inspire e me marque o suficiente para ter vontade de escrever sobre isso. Tenho que tentar manter sempre os olhos e o coração abertos.


M.L: Como vê o futuro da Cultura em geral nos próximos anos?

A.C: Um país que corta na educação e na saúde, é um país que não dará qualquer espécie de prioridade à cultura. Infelizmente é isto. O que não quer dizer que nos transformemos numa sociedade embrutecida, pois muitas vezes, é das situações mais adversas que nascem os grandes rasgos e que as pessoas mais se viram para o que lhes dá alento espiritual.


M.L: Qual o conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na escrita?

A.C: Rubem Fonseca responde a esta pergunta, de forma sublime, no seu livro “José”. Aqui fica a citação: “Gostar de ler e digitar palavras, seria suficiente para a pessoa se tornar um escritor? José sabia que o mais importante requisito era motivação, essa energia psicológica, essa tensão que põe em movimento o organismo humano, determinando um certo comportamento. José sabia que se o aspirante a escritor não tiver uma motivação forte, escreverá, quando muito alguns poemas de dor de cotovelo, alguns contos, talvez até um romance, mas logo desistirá. José estava certo de que na realidade, a motivação de cada escritor está essencialmente ligada à sua experiência, à sua vida, desejos, ambições, sonhos, pesadelos. Não interessa o tipo de motivação, apenas tem que ser suficientemente forte”. É precisamente isto que eu penso em relação a querer fazer da escrita, uma carreira. A escrita tem que te ser orgânica e tens que ser perseverante. Não podes desistir ao primeiro obstáculo, pois existirão, certamente, muitos obstáculos ao teu sonho.


M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito até agora como escritora?

A.C: Gostava de responder a esta pergunta, daqui a um par de anos, quando já tivesse, pelo menos, mais uma história escrita.


M.L: Quais são os seus próximos projetos?

A.C: “Todas as Palavras de Amor” ainda é um recém-nascido, que me tolda um pouco a capacidade de fazer projetos. Mas já comecei a escrever outra história, que não quero deixar morrer…


M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?

A.C: Sou imensamente privilegiada nesse sentido. As coisas que mais amo, já alcancei. Tenho uma família que me completa e dedico-me à escrita. O resto será sempre um upgrade ao que já tenho. Como viajar mais, ver mais mundo, ver mais histórias que escrevi arrumadas entre uma capa e contracapa.


M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da sua vida?

A.C: Gostava de ter mais tempo. Tempo para as coisas mais supérfluas, que também são fundamentais para temperar as nossas vidas.ML

quarta-feira, 3 de abril de 2013

mim

Gosto muito de pensar que me conheço bem.
A vantagem de empilhar dias, uns sobre os outros, na minha vida é precisamente aprender a conhecer-me melhor do que ninguém.
Conhecer os meus limites, o que me frustra, o que me completa, o que posso, ou não exigir de mim mesma. Até onde posso ir, o que esperar da minha pessoa em determinadas circunstâncias.
Conhecer os medos que me paralisam e saber que consigo passar pelo meio deles, muitas vezes de olhos fechados e coração a doer, mas passando a fronteira até ao outro lado, quando o outro lado vale a pena.
Tendo isto bem alicerçado é muito mais difícil deixar que sejam os outros a definir-me.
É que, muitas vezes, as definições que os outros têm a nosso respeito, ou nos surpreendem pelo excessivo optimismo, ou nos enfraquecem pelo exagerado pessimismo.
É difícil sermos sinceros connosco próprios e bem mais fácil acreditarmos no que nos dizem, mas continuo a defender que não há nada como ouvirmos a nossa própria voz interior, sem negações. Respondendo-lhe com o mesmo nível de sinceridade que ela nos proporciona.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

esclarecimento de suma importância blogosférica

Às vezes é cansativo gerir as alarvidades que escrevemos por aqui.
Se me ocorre escrever sobre uma treta qualquer de forma mais gozona, ou irónica, há sempre meia dúzia de pessoas que enfia uma carapuça imaginária e acabo a ferir susceptibilidades e sentimentos, quando não era essa a minha intenção.
Por isso, fica aqui um esclarecimento absolutamente parvinho e patético:
Jamais em tempo algum me ocorreria escrever ironicamente sobre alguém de quem gosto. Reservo isso para as pessoas que não me dizem muito. Pode não parecer, mas ainda tenho, bem no fundo de mim, uma réstia de princípios e meia mão cheia de neurónios.

E aquelas pessoas

que têm sempre uma dor de cabeça mais forte do que a vossa, que já passaram por situações semelhantes/piores do que aquela que vocês lhe confidenciam, que têm sempre uma história melhor do que a vossa para contar, a propósito da história que lhe contam, que sofrem de dores excruciantes na cervical, se lhes dizem que estão com um torcicolo, que já tiveram trigémeos pelas orelhas, enquanto faziam o pino, se ousam contar-lhes sobre a vossa experiência de parto, que sangraram das mamas, a ponto de terem que levar uma transfusão, quando lhes contam que sofreram com a amamentação, que já conhecem há anos a receita exótica e inovadora que vocês querem experimentar, que já sofreram às mãos dos nazis, se lhes contam que foram alvo de furto.
E aquelas pessoas que vos contam como foi a vida no útero da mãe, se vocês lhes perguntam como estão, ou que insistem em dar-vos a receita de um bolo complicadíssimo, com gramas, tempos, temperaturas e qualidade da farinha, apenas porque vocês são amáveis e dizem que aquilo está bom.
Pessoas que não deixam ninguém fazer um brilharete, sem as ofuscarem com o seu próprio brilho inventado, ou não.
Devia existir uma maquineta que pudéssemos usar no bolso e desferisse descargas elétricas nas pessoas chatas como o pénis, que adoram retirar-vos o brilho.

putos

Há quem diga que depois de se ter filhos, passa a achar-se menos graça às crianças dos outros.
Comigo foi o oposto, pois, apesar de já não ter tanta paciência, passei a achar-lhes o dobro da piada, entendendo-os muito melhor do que antigamente e, confesso, valorizando os meus próprios filhos.
Se é um bebé tímido, que se enterra no pescoço da mãe assim que entra numa sala cheia de gente, não o pressionem. A melhor coisa que podem fazer por ele é ignorarem-no, sem stress.
Ele há de sair da sua casca e quanto menos o massacrarmos, mais rapidamente o fará, ao seu próprio ritmo.
Pobres putos tímidos que têm que levar com centenas de perguntas, festinhas, cutxi cutxis e pobres mães de putos tímidos que têm que justificar-se a cada instante pela falta de interesse do filho em entabular relacionamentos profundos com desconhecidos.
Eu tenho uma tímida (agora muito melhor), que enfiava a cabeça no meu rabo, de cada vez que entrava numa sala cheia de gente e um simpático ser sociável, que diz "bom dia e obrigado" a todas as empregadas das lojas. Saíram os dois da mesma mistura genética, eduquei-os da mesma forma, por isso, nada disto é contornável. Há feitios diferentes e há que olhar para os putos como pessoas pequenas e não seres homogéneos, mais ou menos todos iguais. Não podemos dirigir-nos a todos da mesma maneira e isso não é necessariamente mau. Aproveitamos para treinar as nossas próprias competências sociais :)

quarta-feira, 27 de março de 2013

A verdade é esta

Pode um ex líder político, com uma licenciatura concluída a um domingo e envolvimentos menos próprios em negócios menos próprios, aquando das suas funções como governante, fazer comentário político num canal televisivo público, pago por nós?
Pode.
Pode um ex administrador do BPN integrar o governo?
Pode.
Pode um Primeiro Ministro vir dizer que um despedimento pode ser positivo?
Pode.
Pode um tipo qualquer, que não me aquece, nem arrefece, vir dizer que aguentamos, ai aguentamos mais austeridade?
Pode.
Pode outra tipa qualquer que está à frente de uma instituição que ajuda a meter comida na boca dos que passam fome, dizer que não há miséria em Portugal?
Pode.
Pode outro ministro qualquer, tirar cursos à base de equivalências e continuar a sorrir quando lhe fazem serenatas, agarrando-se com unhas e maxilares ao seu posto, por nós pago?
Pode.
Temos nós que, numa altura destas de maior fragilidade, de tantos sacrifícios exigidos a tantas famílias no limiar da pobreza, não nos melindrarmos, irritarmos, ou indignarmos com estas merdices, pois que fazem parte da democracia e todos podem dizer o que querem e quando querem, onde querem, em democracia?
Não, não temos. Podemos melindrar-nos, sim senhora. É legítimo e humano que nos melindremos com a gota de água num copo tão cheio, com os elefantes numa loja de porcelana que nos governam. Não falo aqui da mala da Pepa, nem do cachorro Zico, que tantos mobilizou por este país fora. Falo de sensibilidade política BÁSICA.
Eles estão sem cheta e aborrecidos connosco? Estão cansados, exaustos, angustiados, deprimidos, sem perspectivas, sem comida suficiente e sentem que se sacrificam para nada?
Vamos piar de fininho e respeitar o aborrecimento deles, não os melindrando desnecessariamente?
Não, isso é demasiado aborrecido, vamos trazer-lhes o Sócrates.
Oh yeah!

terça-feira, 26 de março de 2013

Notícias da Silvina

Quando tive os meus putos (o meu puto, porque quando a primeira nasceu ainda não tinha blogue), a última coisa que me passou pelo corpo e pela mente, foi vontade de vir comunicar com o mundo virtual, por muito que adorasse toda a gente por aqui.
Quando estive dois dias com um ataque da gripe mais forte do universo, a última coisa para onde a minha pouca força anímica me enviava, era para o mundo virtual, já que estava a tentar lidar com o meu próprio mundo real.
São comparações pequeninas, face à doença da Silvina, bem sei, mas eu tento guiar-me sempre pela minha própria sensibilidade e colocar-me nos sapatos pouco confortáveis daquela miúda brilhante.
Vai daí, penso sempre que a Silvina não tem força anímica para andar por aqui a postar, mas nada mais. Isso não significa o pior, significa apenas que ela está doente e sem cabeça para escrever, o que é mais do que natural...
E, a quem andar preocupado, é apenas isto.
Beijinhos a todos
Ana C.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Mas o que é que se passa com o mulherio

Que insiste agora em andar com carteiras tamanho xxl, como se precisasse de transportar ali dentro a roupa para a lavandaria, mais uns tijolos para refazer uma divisão da moradia e as compras do supermercado?
Que raios levam ali dentro daqueles malões de porão?
Depois assumem todas uma posição braçal que não deixa ninguém indiferente: Bracinho dobrado, como se tivessem acabado de ir tirar sangue.
A sério, como aguentam carregar com tamanha sacada?
Como consegue o sangue continuar a pulsar nas veias daquele braço?

tenho dias

Em que tudo me parece cretino. Os dramas alheios porque chove na primavera, porque o verniz não saiu bem no tom, porque estão com dois quilos a mais, porque pisam merda, porque a neurose se instalou.
Tenho dias em que me apetece parar o mundo e começar a distribuir chapadas para acordar as pessoas, eu incluída.
Dias em que tudo deveria ficar parado, ainda que por míseros segundos, em homenagem a quem tem problemas de verdade.
Tenho dias em que me apetece parar para agradecer o que tenho e não deixar que a sombra supere sempre o sol. Não deixar mesmo. Fincar os pés em terreno firme e gritar para quem quiser ouvir que tenho as coisas que importam.

sábado, 23 de março de 2013

Quando nos plagiam os sonhos no Chalet Saudade

Sempre que passava por aquela casa naquela rua cheia de casas de encantar, dizia em voz alta:
E se largássemos tudo e abríssemos um bed and breakfast aqui mesmo? Quanto é que achas que custa uma brincadeira dessas?
Recuperávamos a casa, plantávamos árvores de fruto, servíamos lanches e recebíamos pessoas de todas as partes do mundo. Teríamos uma selecção de chás e cafés e queijadas e roteiros e livros, numa pequena sala com lareira. Os quartos teriam nomes de escritores, ou de romances passados em Sintra e seríamos felizes assim.
Esta casa tem qualquer coisa que não conseguimos evitar. Como se tivéssemos que parar e olhá-la, imaginando-lhe enredos passados.
Pois, anteontem descobri que houve alguém que se lembrou de sonhar assim e ousar dar vida ao sonho e eis o resultado


Chalet Saudade, muito provavelmente relacionado com o maravilhoso Café Saudade. Se tiver metade do encanto do café, será de sonho, do meu sonho.

sexta-feira, 22 de março de 2013

...

Sempre que passo naquela pequena estrada, de manhã bem cedo, vejo-o.
Uma mão pendurada e sem vida, baloiçando ao som dos passos hesitantes. Inclinado para a frente, como se fosse cair a qualquer instante.
O rosto deformado por uma paralisia e uma das pernas mais frouxa do que a outra.
Óculos de massa preta, boné de feltro preto.
Com o esforço, o seu rosto adquire uma expressão aflitiva que não consigo definir, como se lutasse por cada lufada de ar conquistado, por cada centímetro de chão pisado com o pouco vigor que possui.
É um homem idoso que caminha todas as manhãs por aquela estrada sem passeios, sem abrigo dos carros que passam indiferentes, sem apoio de bengala, nem de braço alheio.
É um homem idoso que caminha só. Mas que continua a caminhar, como se parar significasse morrer, ou ter que pensar na morte.
Também ele foi um jovem bonito, também ele teve sonhos, também ele namorou, sorriu e julgou poder ficar assim eternamente.
Também ele foi o filho, o marido, amante, pai, avô de alguém.
Também ele sente.
Dizem que o que mais assusta nisso da idade que avança, é o envelhecer mal.
Eu digo que o que mais me assusta nisso da idade que avança, é o envelhecer mal e só.

Então parece que

é moda os homens depilarem-se?
Mas onde andam vocês com a cabeça, homens-que-se-depilam-por-livre-e-espontânea-vontade?
Um dos grandes privilégios de nascer sob o sexo oposto, não é não terem o período, nem filhos, pois compensarão mais à frente com problemas de próstata. O Grande P, de privilégio, era (sim, no passado) precisamente não terem que sujeitar-se à tortura da cera. Vai daí decidem que é essa parte da rotina feminina que querem copiar?
A sério?

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dizer "ciganos"



Ando aqui às voltas com este título. Não por mim, mas pelos defensores da moral e dos bons costumes, que devem já andar a elaborar petições para que se termine de vez com o preconceito desprezível de dizer, ou escrever "cigano".
É isso e, esta descobri há pouco tempo, dizer "jeovás".
Diz que é desprezo e que ofende.
Chibatar-me-ei em penitência, enquanto repito mil vezes: A partir de hoje apenas dirás: Pessoas de etnia cigana, testemunhas de Jeová. Ou melhor do que isso, dirás apenas Pessoas, sem distinção de qualquer espécie.
Quando eu não souber de um amigo, direi apenas:
Viste o meu amigo?
Qual amigo, como é que ele é?
Olha aí o preconceito desprezível! É uma pessoa.

humidade

Quem aqui veio em busca de um post erótico, desengane-se. A humidade que dá nome a este desabafo é outra, bem menos escandalosa.
É a humidade que come lentamente esta casa, que lhe devora as entranhas, até sobrar apenas um rasto negro, ou verde, consoante a superfície.
Hoje, com o sol a ressuscitar e a primavera a oficializar-se no calendário, decidi limpar um dos armários e a vontade que se abateu sobre mim, quando comecei a tirar cenas lá de dentro, foi a de fechar de novo a porta e não lidar com a realidade húmida daquele armário.
Fechei, abri, fechei, abri, fechei. bebi café. abri. Luvas de borracha, lixívia. fechei. tirei luvas. abri. café. fechei. chorei. abri.
Limpei. Abri janela e comecei a atirar tudo borda fora.
Sei que o limpei para nada, pois a única solução para o problema é comprar um desumidificador gigantesco e enfiar a casa dentro dele.
ODEIO HUMIDADE. ODEIO.

terça-feira, 19 de março de 2013

Luísa Castel Branco

A entrevista da Luísa Castel Branco ao Daniel Oliveira foi, muito provavelmente, a melhor de sempre. Ela quase destronou a entrevista do Miguel Sousa Tavares. Mas como sou estupidamente parcial em relação ao Miguel Sousa Tavares, ele continua no número 1.
Mulherão forte, frágil, sensível, racional, Mãe.
Fez o favor de me dar a conhecer uma frase magnífica de Saint Exupéry:
"Eu sou da minha infância, como se é de um país", no sentido de que a infância, quer queiramos, quer não, nos define de forma inexorável. Tal como traremos sempre as nossas raízes, o nosso país nos nossos genes, também a forma como vivemos a nossa infância ditará a forma como seremos pais, quer copiando, quer fazendo o oposto, ditará as nossas inseguranças, ou firmezas, ditar-nos-á.
Sempre defendi isto, mas não sabia que existia algures por aí, uma frase que o definisse tão bem.
Depois falou no medo e nas contas e nas ponderações que todos fazemos em relação a termos mais um filho. São duas escolas, duas despesas, duas bocas, tudo a dobrar. Mas esquecemos muitas vezes que o filho único trocaria, sem pensar duas vezes, o computador xpto, o colégio privado, a roupa de marca, por um irmão.
Numa época em que os ovários se suicidam de cada vez que Passos Coelho, ou Vítor Gaspar abrem a boca, é difícil pensar assim, bem sei. Mas não deixa de ser uma grande fonte de reflexão...
E é isto. Com uma simples entrevista, espremi sumo para várias horas de produção de pensamento.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A vida virtual

Estamos a ler um livro, participamos os progressos no Goodreads, depois damos estrelinhas.
Estamos a passar por um passarinho pendurado num galho, o nosso puto olha o passarinho e nós partilhamos no instagram.
Jantamos com amigos, fotografamos a comida e os copos e partilhamos no facebook.
Sentimo-nos ansiosos, partilhamos no twitter.
Sentamo-nos num cinema a ver um filme, fazemos o check-in numa aplicação cujo nome não me recordo.
Começamos a seguir uma série, partilhamos com outra aplicação qualquer.
Nasce um filho, o pai coloca o pipi da mãe no facebook, no momento de expulsão. Depois faz dessa fotografia, a sua foto de perfil.
Um filho dá os primeiros passos e sentimos que ele não deu os passos, se não o partilharmos com os 1000 amigos no facebook.
Estamos num concerto e a preocupação maior é fazer chegar aos 1000 amigos aquele momento, partilhando com smart-phones o concerto todo. Preocupando-nos mais em apanhar o cantor com o telefone, do que em ouvir a música e dançar.
Estamos a viver um desgosto de amor e enchemos o nosso mural com dizeres maravilhosamente profundos, retirados de um site com dizeres sobre todas as disposições emocionais existentes e aguardamos as reacções dos 1000 amigos.
Estamos felizes e colocamos dizeres maravilhosos sobre a felicidade e sobre o que mentes geniais pensaram sobre o assunto e aguardamos as reacções dos 1000 amigos.
Deixamos de estar num relacionamento e colocamos "solteiro" na informação de perfil. Aguardamos as reacções dos 1000 amigos.
Pedem-nos amizade no facebook. Não conhecemos essa pessoa, nunca a vimos, nunca ouvimos falar dela. Não envia uma mensagem a dizer o que a motiva a pedir amizade, mas é suposto aceitarmos para engrossar a lista de amigos.
No parque infantil, olhamos em volta e 97% das mães e dos pais escrevinha qualquer merda no smart phone.

A sério. Eu sinto que precisamos de rever as nossas vidas com urgência. Os nossos cérebros e o nosso espírito caminham para um local sombrio que me assusta à brava.
É como se o equilíbrio e a sensatez tivessem já desaparecido. Só vejo compulsão pura e dura.
Existem duas vidas. A real e a virtual. E a realidade, é que as pessoas já não se sentem bem nas suas vidas, se não as partilharem a todo o instante.

domingo, 17 de março de 2013

momento de vaidade boa

Parece que o meu livro não tem sido alvo de interesse "crítico literário", seja lá o que isso for. Mas, em compensação, tenho lido opiniões que me deixam cheia desse sentimento ambivalente chamado vaidade.
Esta opinião tocou-me de forma muito especial, pois veio de um padre :)

Entre mãos tenho um livro IMENSO e intenso, cheio de palavras, emoções, sentimentos, vida, e vidas entrelaçadas, sofrimento, paixão, estórias de pessoas e de famílias, de perdão, de conformismo, de vidas novas, com desafios à novidade, e ao compromisso, mesmo e depois de vidas falhadas. O primeiro pressuposto poderá ser mais ou menos polémico, dependendo dos olhos que o filtram. Correspondência entre uma mulher, que se separou do marido, e viajando pelo mundo encontra, em Londres aquele que pensava ser o homem da sua vida. Escreve-lhe cartas para um sítio da Covilhã, com um nome e uma morada, que não corresponde a esse amor de ilusão, mas a um padre, que lhe responde, surpreendido pela inquietação provocada.
É um texto envolvente. Do princípio ao fim. De fácil leitura. Numa escrita agradável. Faz lembrar livros do Virgílio Ferreira como "Para sempre" ou "Cartas a Sandra". Também aqui o formato mais usado são cartas, de encontros e desencontros, de esperanças e ilusões. Uma linha muito visível, a meu ver, é a defesa da família, baseada em laços de amor, desgastada pelo tempo, mas cuja aposta há de ser permanente. Um amor que se perde em busca de outro e que volta ao amor primeiro, um casal adormecido mas que decide descobrir-se de novo. Vidas marcadas pelo sofrimento, em relação aos pais, ou às circunstâncias do tempo, mas que encontram novos desafios.
Outra linha que perpassa neste belo romance, é a solidariedade. A vida vale também quando e se somos úteis a alguém.

sexta-feira, 15 de março de 2013

mas quanto tempo

leva uma mulher adulta a recuperar de uma gripe?
Estou prestes a andar por aí de crocs de pelo fofo, calças de fato de treino forradas com pelo fofo, camisola polar fofa, rabo de cavalo desgrenhado, abraçada a um dos peluches da minha filha e com um tampão em cada narina, para absorver a quantidade inimaginável de muco que continua a sair do meu organismo.
Não aguento mais sentir-me a mulher do muco e das dores musculares.
E a ferida, meu Deus, a ferida que está plantada debaixo do nariz? Uma mancha vermelha inflamada, que dá todo aquele look sensual de quem andou a dar na coca.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Os perfeccionistas

que andam à cata do erro, do deslize na ortografia, da distração alheia, da merdice e merdite, para depois exibirem a descoberta, com pedantismo intelectual, dando lições aos incultos, são a viva prova de que ainda existem muitas pessoas que deviam passar mais tempo a lavar o cérebro no bidé.
Chlape, chlape, chlape, é um som que deviam ouvir com mais frequência.

e eu, estupidamente, pergunto:

Como é que é possível ficarem indiferentes a toda a cena do conclave?
A sério. Não há coisa mais fascinante, no mundo das coisas catolicamente fascinantes, para mim. Adoro tudo.
Pudesse eu infiltrar-me e fazer um buraquinho num dos olhos de Adão, na Capela Sistina e ficaria ali a espreitar tudo o que sempre foi negado ao comum dos mortais em geral e às mulheres em particular.
Adoro a especulação em torno do futuro papa e adoro que nunca acertem.
Adoro o mistério de não se saber até ao ultimo minuto quem será o novo papa e de não haver rigorosamente nenhuma fuga de informação.
Adoro quando o novo papa se aproxima do balcão e põe os olhos na multidão da praça de S. Pedro (onde já estive por duas apaixonadas vezes e desejo ir por mais não sei quantas).
Adoro a multidão comovida e as bandeiras e as cantorias e a espécie de paz construída em torno dos olhares que contemplam uma simples chaminé. Adoro tudo.
Não há motivos racionais, nem de fé para adorar, mas a realidade é que me sinto sempre compelida a visitar locais de culto.
Agora vamos esperar para ver a reacção deste papa, quando receber os documentos bombásticos que o emérito lhe vai entregar. Vejamos se não resignará ele também, quando se inteirar de toda a podridão que corre na cúria. Vejamos.

quarta-feira, 13 de março de 2013

likelikelikelikelikelkielikelikelikelike

Sem querer ofender ninguém, mas provavelmente ofendendo, alguém que me explique pelo amor do conclave, pois não consigo encontrar motivo lógico racional que me aplaque os anseios nesta questão:
Para que raio se pedincham likes em páginas-não-comerciais do facebook?
Amigos, juntos chegaremos aos 200 likes. Amigos, foi um longo e doloroso percurso até aqui, mas com dedicação, força de vontade e paixão, aqui estamos nos 200. Acreditem, emocionei-me e sei que vocês também. Dormirei com a certeza de que conseguimos este feito histórico inédito. Dormirei finalmente em paz.
Amanhã começará a dura batalha pelos 300 likes. Talvez ofereça uma vela de cheiro, ou um pauzinho de incenso ao 3ooº likeiro. Não será fácil, mas sei que posso contar com o vosso apoio e isso, de alguma forma, conforta-me.
Foda-se, acordem! Aquilo é só uma página virtual, não são as eleições da Venezuela e, o choque, o horror, a maior parte dos likes são de pessoas que se estão virtualmente a cagar para vós e que, logo de seguida, accionam a opção: Ocultar publicações desta página.
Eles não são mesmo, mesmo amigos, naquela acepção antiquada de amizade.
A menos que exista um intuito de guito por detrás da página, ou alguma coisa para vender, para salvar, ou uma causa nobre, para que vos servem os gostos, uns atrás dos outros, como coelhinhos copulando desenfreados? É a propagação da palavra do Senhor? São os jeovás?
Não? Bem me parecia. Então, concluo tristemente que existe quem meça o seu sucesso pessoal pelo número de likes alcançados nas suas páginas e isso é triste. Triste, solitário e um bocadinho assustador...

terça-feira, 12 de março de 2013

Quem é que quer juntar-se a mim?

Garrafa de 3 litros de coca-cola - Confere
3 baldes de pipocas doces e salgadas - Confere
Terços e bíblia de bolso - Confere
Moleskine para apontamentos sobre a tonalidade dos fumos - Confere
Olho de lince para os paramentos que estão In e os que estão Out - Confere

Prontinha para a maratona do Conclave. Venham eles, que eu aqui estarei para lançar opiniões em directo.

fenómeno clone



Um dos fenómenos que mais me diverte, quando enfio os pés e os olhos numa livraria, é assistir ao fenómeno da propagação das capas e dos temas.
Se Marley e Eu originou toda uma enchente de livros sobre animais de estimação e suas aventuras no mundo dos donos, com capinhas fofíssimas de gatinhos e cachorrinhos. Se o Código Da Vinci foi o fermento para centenas de livros com mistérios intricados no Vaticano e no Pelicano, eis que assistimos ao fenómeno erotismo sensualíssimo para mulherio com pipi carente.
A propagação deste novo género não necessita de muito além de uma capa parecida com a trilogia do momento. Reparem nos tons da capa, no tema fantasia sensual:
Um tem uma gravata em tons cinza mistério. Instigando assim o neurónio sensual à possibilidade de atar mãos e pés com gravatas de seda. Outro aposta no salto agulha, deixando transparecer as infinitas possibilidades que um salto alto pode proporcionar no imaginário erótico. Desde o salto no gasganete masculino, ao salto associado à meia com ligas:
Talvez se fizermos capas parecidas, o mulherio mais distraído se engane e leve este do salto alto, pensando estar a levar o da gravata. No próximo vamos pôr um laço de fraque para lançar o pânico na memória visual.
E, depois de ter celebrado, comigo mesma, o compromisso de não deixar aqui opiniões negativas sobre autores portugueses, até porque a minha opinião não é assim tão relevante, agora limitar-me-ei àqueles que não têm alertas do Google em português :)
Aproveito para dizer, que o livro da Dulce Maria Cardoso, "O Retorno", do qual já me tinham falado tanto e eu insistia em deixar para depois, é uma pérola.

segunda-feira, 11 de março de 2013

É nas cenas simples e baratas

Que se me reside todo o conforto alimentar e espiritual.
Exemplos práticos:
Ervilhas com ovos escalfados.
Ovos mexidos, com arroz de manteiga.
Carcaça (digo carcaça e não papo seco, pois para papo, já basta o meu) estaladiça com manteiga.

sábado, 9 de março de 2013

carta à filha

Fecha os olhos. A mãe agora não importa. Imagina que estás de novo dentro de mim e respira com a cadência serena do meu coração.
Aquilo que a mãe sente é apenas o que desejares que sinta. O que precisares de retirar, retira. Sem mágoas, sem nada que não desejes de mim.
Fecha os olhos amor meu. Fecha-os e sossega no meu colo. Sossega de todas as tuas dores. Farei meus os teus anseios, ainda que nada te diga deles. Ainda que nada imagines de mim, eu possuo todas as certezas sobre ti.
Não apregoarei o que me dói ver-te assim, pois nada de mim importa agora. Agora importas tu.
Apagar-me-ei em ti, enquanto afago o teu rosto febril.
Apagar-me-ei até ao ponto que te conforte.
Limparei o suor das minhas mãos, para que sintas apenas fresco na tua testa quente.
Calarei as lamúrias que desejo proferir, para que me escutes apenas o sorriso doce que precisas.
Falarei o estritamente necessário ao teu sorriso e chorarei apenas quando não conseguir evitá-lo.
Fecha os olhos, meu amor. Fecha os olhos que eu manterei os meus abertos para te velar. Não deixarei que nada te suceda, enquanto te guardar aqui, dentro do que te deu vida. Dentro de mim.
Sei que não possuo já o rumo dos teus passos. Que és agora tão pouco minha e tão diferente do que te imaginei um dia, mas conforto-te ainda, só por estar aqui. Tem que ser assim. Será sempre assim. É esse o destino de uma mãe. Apagar-se quando deseja brilhar, brilhar quando deseja apagar-se. É esse o meu destino.
Fecha os olhos, meu amor. Fecha os olhos. A mãe está aqui por ti.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Quando leio por aí

Coisas como: O dia da mulher devia ser todos os dias.
Flores deviam ser todos os dias.
Cartões deviam ser todos os dias.
Que dia tão parvo.
Também devia haver dia do homem.
Que dia sexista.
Só me ocorre deixar aqui duas imagens que falam por si.
Para as mulheres que acham, do topo da sua vidinha suburbana e segura, com os seus direitos fundamentais adquiridos, que não devem ser lembradas as mulheres.


Imagens retiradas da net.
Uma delas representa uma mutilação genital feminina, feita a uma menina.
Mulheres que são castigadas pelo simples facto de terem nascido mulheres.

É verdade, temos que lidar com idas ao supermercado e jantares para fazer e putos para criar e condições desiguais no mundo laboral, mas não me fodam, estamos já a léguas de distância da barbárie que tantas mulheres ainda sofrem em tantas partes do mundo. Agradeçamos por isso, nem que seja uma vez por ano, sim?
Lembrem-se. Se menosprezam este dia, é porque fazem parte do grupo de sortudas que podem dar-se ao luxo de fazê-lo.

Josés



Aqui estão duas caras que adoro.
Porquê?
Não faço a mais pálida ideia. É puro instinto. Não sei como se racionaliza e se verbaliza isto de se ir com a cara de alguém. Mas sinto uma boa onda, uma simplicidade, uma honestidade. Qualquer coisa assim de muito pouco explicável.
Fico contente que eles nos representem, lá fora, em coisas que importam. Fico feliz que sejam caras embaixadoras do nosso país, pois são caras boas.

quarta-feira, 6 de março de 2013

mãe doente é do caraças

Depois de uma semana de miúdos doentes, em que um pegou ao outro, eis que começo a sentir-me mal. Mal não, péssima, toda rota, como não tenho memória desde que fui mãe.
O meu sistema imunitário sempre debelou todas as pequenas merdas, pois que não podia dar-me ao luxo, nem ao lixo, de adoecer.
Mas ontem, a má disposição era tão nojenta, que me arrastei até uma urgência e fiquei a saber o que os meus filhos tiveram e fizeram o favor de me transmitir: Gripe.
E pronto, soube que estava com gripe e trouxe umas drogas da farmácia (menos mau).
Hoje de manhã, com a garganta e a cabeça em modo de dor latejante, disse para mim própria:
Estás com gripe, sua otária. Vá, agora levanta-te e faz tudo como de costume.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Paixão

Que lufada de ar fresco ler este artigo.
Lembrei-me das minhas aulas de português, repletas de baba e bocejos. Aulas em que nada do que era dito prendia a minha atenção por mais do que dois, ou três minutos.
Presa na métrica dos Lusíadas, no intricado trovador das cantigas de amigo, no simbolismo dos Maias e na voz monocórdica e desinteressante de quem nos falava daquele universo paralelo, apenas um pensamento me aflorava a mente:
Onde é que se vendem os resumos desta merda? E onde é que se vendem os resumos dos resumos?
Pois, eu sempre me safei a português, mas nunca adorei a disciplina, nunca me senti impelida a ler nada do que se falava nas aulas, pois que tudo me soava estupidamente desinteressante.
E foi alguns anos mais tarde, já livre dos professores que sempre me calharam na sina (nunca tive sorte com o português), que peguei nos Maias e, livre de simbolismos e contextos históricos e características psicológicas dos personagens, me rendi a Eça de Queiroz e me apaixonei profundamente por ele. Lendo quase tudo o que havia para ler, de seguida.
É preciso darmos espaço à nossa própria leitura, sem interpretações alheias sobre o que o autor significou, ou quis significar.
Às vezes e, por mais estranho que isto soe, é preciso fecharmos os olhos e olharmos para dentro, para nos apaixonarmos.
Sentirmos apenas, sem traços de personalidade, nem contextos, nem linhas temporais. Fechar os olhos e rendermo-nos ao que aquilo tudo suscita em nós. Rendermo-nos ao que nunca nos foi apresentado nas aulas. Rendermo-nos à paixão.
Tive apenas um professor em toda a minha longa carreira de estudante que me fez sentir apaixonada pela disciplina:
O meu professor de filosofia no 12º ano.
Ele obrigava-nos a pensar, a reflectir sobre as grandes questões. Ele chegava à sala e rasgava no quadro de ardósia, em letras garrafais:
DEUS ESTÁ MORTO!!!!! E ficava a olhar para nós, esperando que falássemos a partir dali.
Ele tinha uma arte espantosa de fazer com que nos apaixonássemos, pensássemos por nós e entrássemos nos sapatos de Kierkegaard, de Nietzsche, até de Kant, por mais difíceis que fossem os sapatos deste homem.
Durante uns largos meses, ponderei seriamente seguir filosofia.
E é isto. As métricas, os simbolismos, as vírgulas aqui e não ali, o formalismo em detrimento do verdadeiro conteúdo. É isto que tem potencial para arruinar os nossos futuros leitores/escritores. É isto. Tira-lhes o âmago,

sexta-feira, 1 de março de 2013

Cinema Paradiso, versão Lisboa

O Nuno Markl , com as suas crónicas diárias dos cromos, "roubou-me" praticamente todas as minhas memórias originais dos velhos tempos.
Quase tudo aquilo que me lembro de recordar, o Nuno Markl já recordou.
Mas ainda assim e sem ter pesquisado previamente se existe já um cromo sobre isto, eu tenho duas memórias fundamentais da minha juventude.
Duas recordações que estão mais para tatuagens do que para cromos:
Os cinemas de Lisboa.
O Miguel Esteves Cardoso.
Lembro-me de cada um dos cinemas que existiam em Lisboa e que já desapareceram. E juro-vos, que não consigo proferir os seus nomes, sem me sentir pateticamente comovida.
Vi o Indiana Jones e os salteadores da arca perdida e o Nome da Rosa no cinema Berna.
Never Ending Story no Caleidoscópio.
Rain Man no Apolo 70
The Doors, no Sétima Arte
Dirty Dancing no cinema Alvalade
Jean de Florette no cinema Star
No Quarteto, o Jardim da Alegria com o, então aspirante a namorado, Hugo.
No Ávila, o Império do Sol.
No Nimas, Conto de Verão e o Conto de Outono.
E no Londres, caraças, no Londres vi tudo aquilo que havia para ver. Desde os 3 homens e um berço (versão francesa), ao Braveheart, ao Carros 2, com a minha filha.
O Londres e as suas cadeiras cada vez mais velhinhas, que desciam com estrilho, quando alguém se sentava. A senhora que nos indicava as cadeiras (o que fará ela agora da sua vida?).
O Londres era o meu cantinho de recordações. Um sobrevivente no meio de tantas zons e shoppings e luzes falsas.
O Londres era a minha derradeira recordação e ontem, quando vi nas notícias, uma grade castanha, corrida sobre a sua entrada, chorei por todos os cinemas da minha infância que morreram e me deixaram órfã da magia dessas salas.
Bem sei que vivo em Cascais desde os 17 anos e que aqui também há salas de cinema para chorar (não me venham dizer que o Atlântida Cine também fechou, porque me dá um fanico), mas metade do meu coração estará sempre em Lisboa e assistir à quantidade impressionante de pequenas salas que desapareceram, dá-me na nostalgia de uma forma assustadora.
Quanto ao Miguel Esteves Cardoso. Bem, terá que ficar para outra altura...