Se há uns anos atrás me dissessem que iria estar aqui onde estou hoje não acreditaria.
Nunca fui daquelas mulheres cuja missão de vida era ser mãe. Sempre me imaginei a escrever para uma revista, a fazer reportagens por esse mundo fora, de computador no colo e máquina fotográfica em punho.
No Trans-Siberiano, ou numa qualquer embarcação perdida num rio recôndito. Na base de uma pirâmide no Egipto, numa Gôndola em Veneza, numa ruína Maia.
Escreveria em qualquer lugar sobre o que via, o que sentia, quem conhecia. Escreveria sobre qualquer coisa que me pedissem, em qualquer tom que me exigissem, sem nunca me perder mais do que o necessário, de forma a poder sempre encontrar-me de novo, de cada vez que regressasse a casa.
Tirei Direito quando a minha vocação era a escrita e sou mãe a tempo inteiro.
Escrevi algumas novelas, um livro, ajudei numas séries. Escrevo aqui todos os dias. Mas nunca fiz o que realmente queria.
Sempre que olho os meus filhos sei que tudo valeu a pena, que tudo serviu para chegar até ao Hugo e até eles e que sou verdadeiramente abençoada.
Mas aquela vida que sonhei desde sempre continua no lado de dentro de mim, naquele lado que ninguém vê, na sombra e essa sombra volta de vez em quando para me atormentar, para me fazer sentir pouco lutadora. Menos eu.