sexta-feira, 3 de abril de 2009

Air Alps


Final da nossa Lua-De-Mel, abraçados dizemos adeus a Salzburgo. O pequeno aeroporto que serve a cidade é bastante romântico, tem um café sobre a pista, mas às 6 da manhã ainda está fechado. Percorremos aquele pequeno recinto de mãos dadas, tristes por aqueles dias terem passado a voar. Ainda tenho tempo para comprar uma caixa de chocolates do Mozart e uma pequena caixa com uma pintura de Klimt. Vamos apanhar um voo de ligação para Amesterdão e de lá seguiremos para Lisboa.
Sem a menor vontade de retomarmos à vida real dizemos adeus mentalmente a tudo aquilo que vimos na nossa primeira viagem depois de oficialmente casados.
Tenho os meus valiuns à mão, pois cerca de 10 minutos antes de embarcar para qualquer coisa que tenha asas, tomo um. Ajuda-me a pensar que vou sentir menos pânico. Peço uma garrafinha de água e lá engulo um daqueles pequenos auxiliares. Respiro fundo e percebo que a porta de embarque acabou de abrir, dou a mão ao Hugo e aperto-a até lhe cortar a circulação. Ele aperta a minha com mais força ainda, pois infelizmente também sofre de pânico de voo. Olho à procura da manga que nos conduzirá ao interior do avião, ou do autocarro que nos levará ao nosso destino, mas nada. Percebo que vamos a pé até ao avião e à medida que nos aproximamos do dito, penso que só pode ter havido um engano. Leio o nome escrito no pequeno caganito, Air Alps. Esperem lá, o nosso bilhete diz KLM!!!!! Deve ter havido um engano. Esta coisa tem duas hélices e é mais pequena do que o meu carro!!!! Quero virar costas e correr pela pista até à segurança do aeroporto, mas o Hugo não me deixa.
- Larga-me, deixa-me fugir! Vamos alugar um carro, vamos de comboio! eles deviam ter-nos avisado que esta merda não era da KLM!!! Air Alps? Isso é nome de estância de neve! Deixa-me ir, eu não quero morrer!!!
Mas ignorando-me por completo, agarra-me na mão e puxa-me na direcção daquela coisa. Oiço a voz dele a dizer-me:
- Tens mais Valiuns? Dá-me um.
- Tenho mais 4, mas são para mim!!! E começo a desembainhar valiuns como se não houvesse amanhã. Juro que os engoli com a força da saliva, apesar de ter a garganta completamente seca. Lá fico com pena do Hugo e passo-lhe meio comprimido. Entramos no avião e eu sinto-me a desmaiar. Então e o efeito da droga? Onde é que está o relaxamento muscular? Porra que a adrenalina do medo não deixa que aquilo surta efeito. Sentamo-nos, mãos suadas, olhos esgazeados. Aperto o cinto até ficar sem estômago. A descolagem foi a pior da minha vida. Com ventos fortes o pequeno aparelho parecia um papagaio de papel. Já lá em cima a coisa não melhorou.
Tentando buscar conforto nos profissionais do voo, olho os yupies de computador portátil que geralmente são a calma em pessoa, mas estes fecham os computadores e cravam as mãos nos assentos. A única hospedeira de bordo, vai-se sentar e aperta o cinto. Espero que o piloto da furgoneta nos diga que estamos a experimentar alguma turbulência, mas nada. A coisa só pode ser muito grave, esta merda está literalmente como um barco em alto mar. E os valiuns que não fazem nada. Olho o Hugo, ele fecha a janela para não ver as hélices que quanto a mim devem estar prestes a parar. A aterragem é feita ao som dos gritos dos passageiros e das minhas avé-marias interiores. Penso que vou morrer, mas aquela coisa aterra em Amesterdão com uma roda de cada vez. Quando saio daquele cilindro digo para o Hugo: Vamos ao centro da cidade, preciso de um charro.
*Poderão vocês pensar que sou uma grande drunfada e drogada. Mas juro que não. Só quando vou andar de avião.

32 comentários:

Melissinha disse...

QUE MARAVILHA!
Já morei no meio da amazónia e os tecos-tecos foram a minha vida durante uns tempos, mas não deixam miúdas de 10 anos drunfarem-se, infelizmente.

Carla disse...

Não consigo parar de rir...
Onde é que eu já vi esse filme?
A minha primeira viagem de avião, foi surreal, nem queria acreditar quando uma senhora para nos 'animar' começa a dar-nos procedimentos no caso daquela coisa cair.Não bastasse, e os homens que elevam aquilo ás alturas não paravam de tocar uma campainha, que eu entendia sempre como...é desta!... as seguintes não conseguiram ser melhores, dopada também, mas a adrenalina é superior aquela 'droga' que me receitam.
Como se não bastasse não tenho companhia à altura do meu pesadelo, o homem cá da casa adora andar no ar,bem tenta acalmar a fera que existe em mim nas alturas, mas com um sorriso diabólico que me faz jurar logo ali que é a última vez que subo ao inferno.
Vou resistindo, a custo, mas há viagens que gostaríamos de fazer que nunca passarão de projectos.
E já ganhei o dia...haja alguém que nos entenda :)

Ana C. disse...

Melissa nunca leste o livro do Miguel Sousa Tavares, Sul? Ele tem lá uma descrição de um voo que fez na Amazónia no meio de uma tempestade e o piloto com uma conjuntivite que é do melhor que alguma vez li. O livro é muito giro, mas só por esse episódio vale pena.

Ana C. disse...

Carla eu sou completamente cagada a andar de avião, mas pensas que isso me impede de viajar? Nem pensar nisso!!!! Uma mulher tem que vencer os seus medos, com a ajuda de calmantes claro. Eu preferia ter um companheiro que não tivesse medo, pois sempre me animava. Agora de cada vez que olho para o Hugo ele está tão em pânico quanto eu. Se for preciso abraçamo-nos os dois a tremer. Ah Macho!

Ana. disse...

Que pena que tenhas medo!
Voar é das coisas mais bonitas que já fiz na vida! Pode parecer estúpido, mas quando estou dentro de um avião em pleno voo, sinto-me tão livre!

:)

Melissinha disse...

O meu Hugo sua frio até no teleférico do jardim zoológico!

Ana C. disse...

Ana. Quem me dera ter prazer naquilo, mas eu fecho sempre as janelas e tudo. Só para veres o que sofro...

socasmoinhosebicicletas disse...

Eu também ODEIO andar de avião. Tenho PAVOR mesmo! Mas nunca tomei Valium, nem nada que me fizesse acalmar o pânico. Já fiz viagens de sete horas e pregar olho está fora de questão. Estou sempre atenta à tripulação à procura de sinais de nervosismo ou alguma outra atitude mais suspeita, é um stress constante. Ainda por cima sofro de claustrofobia pelo que o meu truque é alhear-me completamente de onde estou, fazer de conta que aquilo não é uma lata com asas que a qualquer momento me pode mandar desta para melhor. Este auto-exercício tem resultado razoavelmente até agora, mas a ideia do charro não é má. Até porque imagino que 95% das pessoas que embarcam aqui em Schiphol levam marijuana/haxixe a correr-lhes nas veias e não é propriamente por causa do pânico de voar. LOL
Resultou pelo menos? ;-)

Ana C. disse...

Melissa chama-o parvo. Não te lembras quando houve aquele corte de luz em Lisboa e o pessoal do teleférico no jardim zoológico ficou parado uma hora em cima dos leões? Ah pois é...

Ana C. disse...

Socas para mim o pior é o descolar e os 20 minutos posteriores e a meia hora antes de aterrar. Dizem que é a altura em que há mais acidentes...
Nunca deixei de viajar por causa do pânico, mas perco anos de vida.
Já experimentei beber também quando as viagens eram maiores, mas isso só dá para fazer à hora de almoço, ou jantar. Não sou capaz de pedir uma bebida às 8 da manhã. É muito importante para mim a companhia onde viajo. Odeio Low Costs, pois acho sempre que eles cortam na manutenção.
Quanto a essa vez em Amesterdão, não tivémos tempo de ir ao centro da cidade, pois só tinhamos 2 horas entre um voo e outro e confesso que a overdose de valiuns começou a surtir efeito :)

Cristina disse...

LOL. Já me ri imenso. Não chego aos Valiums mas tenho muito respeito pelos aviões!

Cristina

InêsN disse...

nunca experimentaste tu andar de aviocar...

:)

(eu tb não adoro andar de avião mas o meu problema maior não é o medo mas sim as dores horríveis de ouvidos...)

Ana C. disse...

Cristina eu não tenho respeito, tenho Medoooooooooo!

Ana C. disse...

Inês, que raio é aviocar??? Só o nome dá-me arrepios de medo.

Rainha Mãe disse...

O que eu já me ri. Entendo o teu medo.É que a queda era de alto!:)
Partilho o medo do Hugo da Melissinha: morri no teleférico do Zoológico. A minha filha foi o tempo todo a dizer - Não quiseste vir? Agora aguenta! Não volto a andar naquilo nem depois de morta! Agora imagina de avião!

Brisa disse...

Ehehehe
Felizmente, não tenho medo nenhum de voar nestes passarões. Não gosto muito das turbulências, mas isso é mais porque o estômago é sensível. De toda a maneira, admiro muito, muito, quem tem medo e, mesmo assim, não deixa de viajar por isso! Grande mulher!

Joanissima disse...

Eu adoro andar de avião... Já o Brad morre de medo. Há dois anos, a caminho das caraíbas, voo de 12h, eu dormia que nem uam porca ao lado dele e ele nem os olhos fechou. Quando aterrámos perguntei-lhe porque raio nao tinha conseguido dormir.
Responde-me ele:
- Tás parva?? se o avião cair quero estar acordado para ter força para nadar!!!

ahahahahaahahahahahahah
ainda hoje o gozo!!!!!1

Pedro Barata disse...

Consigo compreender-te, Ana!!!
Beijinhos

gralha disse...

Pelo menos não desistiram! E chegaram inteiros ao destino. Isso é que interessa :)

Ana C. disse...

Rainha Mãe e que queda! Nunca experimentei o teleférico do Zoo, mas acho que me aguentava melhor do que no avião ;)

Ana C. disse...

Brisa apesar de tudo o avião é um meio de transporte maravilhoso. Arranca-nos as distâncias do caminho a uma velocidade estonteante. Tenho que me render aos seus encantos, apesar de o odiar. Deixar de viajar é que nunca ;)

Ana C. disse...

Joaníssima eu num avião não durmo e raramente vou ao cagatório. Imagina que o avião cai comigo naquela pseudo sanita? Que humilhante e depois tenho a mania que vou ser sugada pelo autoclismo.

Ana C. disse...

Pedro então és dos borrados dos aviões? Digo-te só se aguenta com aquele bagacinho.

Ana C. disse...

Gralha podes crer. Somos mesmo corajosos ;) Mas tenho que confessar que uma vez, lembras-te do ano em que caiu o concord em Paris? Voltei de comboio de Paris...

MARIINHA disse...

Ana C. Já me fizeste rir. Isso não é medo é pavor. Eu acho que não tenho muito medo, porque felizmente nunca apanhei nenhum susto lá dentro dos aviões. Vão quase sempre muito sossegaditos, sem tremeliques de maior. Mas já apanhei três sustos antes de embarcar. O meu medo tem sido mais nos Aeroportos,mas explicar isso,seria extenso para um comentário. Beijokas

Ana C. disse...

Mariinha penso que não há uma justificação racional para o meu pânico. É mesmo inexplicável...

Precis Almana disse...

E que fosses uma drogada e drunfada! Desde que só te prejudicasses a ti, ninguém tinha nada a ver com isso. Além de que acho que fumar uns charros não prejudica ninguém, tomar uns valiuns de vez em quando também não (eu foi à custa de lexotans que aguentei duas semanas quase inteiramente de casa, porque senão... :-))
Olha, agora por KLM, fui para Amesterdão há uns anos com duas sobreviventes daquele avião que caiu em Faro para aí em 91, lembras-te?
Eu tinha muito medo. Um dia racionalizei a coisa e pensei: se cair, caí, é porque tinha que ser. A partir daí nunca mais tive medo. Ter um irmão comissário e um pai que o foi quase 40 anos ajudaram (a pensar: fogo, se eles voam com tanta frequência, e nada, não há-de ser assim tão mau!).

Precis Almana disse...

e era "de cama" que eu queria dizer... (ai, ai, hoje não é por causa de calmantes, é falta de sono :-))

Ana C. disse...

Precis eu sei que quem toma calmantes de vez em quando não é drunfada. Mas pela minha descrição aqui, valiuns de empreitada o cenário para aí indicava...~
Sabes que uma das maiores parvoíces que fiz foi ir a Amesterdão grávida. Pois acredita que se lá tivesse ido em circunstâncias normais teria fumado pelo menos uma ganza. Em Roma Sê Romano. Em Amesterdão sê charrês :)

Precis Almana disse...

Percebia-se bem o contexto para o valiunzês, deixa lá...
Eu estive lá 3 vezes, nunca grávida, por isso imagina ;-)

Eumesma disse...

"Joaníssima eu num avião não durmo e raramente vou ao cagatório. Imagina que o avião cai comigo naquela pseudo sanita? Que humilhante e depois tenho a mania que vou ser sugada pelo autoclismo."

Sabes há qtos dias eu já não ria com gosto?? Muitos e agora aqui no meu sofá borrei-me a rir só te imaginar a ser sugada lolololo

Tu e e a nossa amiguita de Coimbra são de morte eheheheh

Qto ao post pois imagino a sensação de pavor que tiveste se tens assim tanto medo.
Eu adoro voar, não tenho medo nenhum e o meu ex tb era assim, era uma excitação tremenda saber que iamos voar em determinado dia. E o extase total foi qd através de uma amigo dele piloto, conseguemos descolar e aterrar no cockpit ali a ver tudinho mesmo em frente, eu quase dei pulinhos lá dentro daqule espaço minusculo lolol

Que nunca o medo impeça ninguém de voar, afinal é um dos trnasportes mais seguros do mundo, nunca se esqueçam disso, aquilo é revisto e mais do que revisto.
Mas adorei este post e as repostas e aposto que mesmo sob o efeito dos drunfes não te esqueceste da peripécia hihihih

;-)

Ana C. disse...

Eumesma ainda bem que te fiz rir com a minha fobia...
Tens muita sorte em não ter medo. Ambas adoramos viajar, por isso imagina o que não sofro dividida entre o medo do avião e o gosto por chegar a outro país. Ai que sofrimento!