domingo, 19 de abril de 2009

À Beira da Falência de Valores

Por ano cerca de 80 crianças adoptadas são devolvidas à procedência durante o período experimental. Tal como uma peça de roupa que podemos ir trocar se chegarmos a casa e sentirmos que não nos cai tão bem como na loja, ou um carro que venha com defeito de fabrico, um fogão que não cozinhe tão bem como estava publicitado. Assim se devolvem crianças.
Chamem-me parva, mas para mim quem adopta tem que adoptar de coração aberto, disposto a aceitar a criança como um filho natural. Se não, por favor, deixem-se estar quietinhos, pois não têm espírito de adopção. Não inventem por favor.
De entre os motivos fúteis da lista de trocas, deparei-me com um que me deixou à beira da apoplexia. Um casal que devolveu a criança por esta não se dar bem com o cão que eles já tinham.
Para além de dispensar palavras, pois penso que todos vocês tenham sentido o mesmo que eu. Leva-me à questão dos animais, ou melhor, dos malucos dos animais, que os tratam como pessoas, de igual para igual.
Apesar de saber que há animais melhores do que certas pessoas. Há uma barreira que quando é atravessada, dá lugar aos fanatismos, à desumanização, ao distanciamento de valores que considero fundamentais para que não se caia num mundo sem alma.
Quando vejo gastar-se rios de dinheiro em acessórios para cães, roupas, ganchos, cabeleireiros, comida com caviar, hotéis com spa. Quando vejo pessoas conversarem com os animais melhor do que conversam com os outros penso sinceramente que o ser humano, enquanto indivíduo está à beira da falência. E fico triste.

30 comentários:

Izzie disse...

minha querida, a minha reacção quando li a frase crucial "porque não se dava bem com o cão" foi um seco "oh???". sim, no meio de toda a gente. eu não faço mal a animais mas não sou a favor de campanhas e mais tretas para beneficiência de animais quando há pessoas, crianças, a viver em condições desumanas. Digo isto muitas vezes!

inesn disse...

misturaste dois assuntos dignos de post mas eu fico-me pelo primeiro: não podemos generalizar, ana...infelizmente sou amiga de uma grande mulher que, não em portugal mas em inglaterra, tentou adopatr duas irmãs e teve que as devolver. isto custou-lhe horrores e a família dela teve que ter apoio psicológico.

não estavam prontos para adoptar? estavam, sim...mas infelizmente foram enganados sobre a situação real das crianças que lhes entregaram. neste caso os técnicos erraram, não a família.

Ana C. disse...

Izzie tudo o que é fanatismo assusta-me muito. Compreendo que haja associações de defesa dos animais. Mas quanto a mim, e falo apenas por mim, enquanto houver uma criança a morrer de fome no mundo, ela será sempre uma prioridade.

Ana C. disse...

inesn eu conheço um casal suiço que veio adoptar a Portugal 3 irmãos. O casal sabia que eram filhos de uma mulher que se prostituía, vítimas de alguns maus tratos, traumatizados. Mas aceitou o pacote. Mais tarde abandonou-os.
Digo e continuo a dizer que a adopção não é para qualquer pessoa. E quem tem o espírito adoptivo deve aceitar o desafio por inteiro e não apenas meninos loiros, de olhos azuis, com menos de 1 ano. Se tens um filho biológico não o vais devolver porque está desiquilibrado, pois não?
É claro que é apenas a minha opinião e ela vale o que vale...

Kitty disse...

É que não poderia deixar de concordar mais contigo Ana.

Quando li este teu post lembrei-me de uma coisa que li uma vez numa revista, que me deixou igualmente de boca aberta.

Uma senhora considerada da sociedade portuguesa, mandou um filete da boca para fora quando proferiu as seguintes palavras sobre a sua filha com Sindrome de Down "está na moda ter um filho deficiente"...

Juntava esta senhora de merda a esses casais de merda que abandonam/devolvem uma criança adoptada, e mandava-os todos para o rio com um tijolo nos pés.

Tenho dito!

Ana C. disse...

kitty mas isso não é um filete, é um peixe inteiro pela boca fora. O nosso Jet7 está cheio dessas pessoas maravilhosas...

PP_FANTASMA disse...

De facto, o assunto é muito complicado. A adopção tem de ser algo em que o casal acredita piamente, de outra forma será um desastre.

Melissinha disse...

Acho que nunca concordei tanto contigo quanto agora, mas sou mais radical. Vou mais longe em alguns aspectos. Não gosto de adopções de fim-de-semana, tipo apadrinhamento. Uma criança merece tudo, e não metade. "Melhor que nada" não devia existir para crianças. E acho sim, neste caso, o nada menos confuso do que o pouco. Muito estranho um casal ir lá buscar um puto a uma instituição, dar umas voltinhas no shopping e no zoo com ele e ao fim do dia devolver como se fosse, sei lá, uma bicicleta de aluguer, dar àquele menino ou menina um dia de ilusões para depois devolvê-lo à sua realidade sem pertença.

Das devoluções, nem se fala. Criança não é um par de calças. Se aguentariam esquizofrenia, mau feitio e doenças dos seus próprios filhos, não teriam remédio se não fazê-lo por uma criança adoptada. Uma pessoa tem de estar preparada para o que der e vier. A "devolução", para mim, deveria acarretar responsabilidades jurídicas.

Ao contrário do que muita gente prega, não acho fundamental se amar um filho adoptado como se do seu ventre tivesse vindo. Acho muito bonito a adopção por sentido de cidadania, de moral, do Bem. Mas a responsabilidade e o tratamento que se vai dispensar a esse novo membro da família tem de ser igual aos dispensados a um membro consanguíneo.

Não conheço acto de amor maior do que a adopção, por mais que procure, especialmente as tardias e interraciais. Mas ela deverá sempre servir os interesses da criança, e não o dos pais. Não é uma solução para a infertilidade.
Não é uma solução para a solidão, nem para maus casamentos. Deverá apenas ser uma solução para a criança.

Sobre animais: Acho que devia haver um imposto pesado, tipo o do tabaco, sobre artigos para animais de estimação, destinado às crianças desfavorecidas. Também acho mais algumas coisas sobre animais de estimação, mas para não correr o risco de ser linchada ciberneticamente, mais vale ficar caladinha!

Ana C. disse...

PP Fantasma então mudas de nome e não avisas?!!! Tive que confirmar se eras mesmo tu. Estamos na mesma onda de pensamento. A adopção não é uma brincadeira, um capricho. É uma coisa séria na qual se acredita de olhos fechados, ou não.

Mitá disse...

Realmente...não sabia de todo que isso acontecia ou que podia mesmo acontecer...quanto aosa animais serem tratados como gente,bem ,vou dizer-te eu trabalho numa peixaria de peixe congelado e é ver as madames e afins a comprar tamboril(14 euros o quilo)para os gatinhos pois eles não gostam de racção....é o mundo que temos bjs

Ana C. disse...

Melissa alguma vez tinhamos que estar de acordo a cem por cento. Eu só me apetecia colar o teu comentário ao meu post, porque subscrevo cada linha. E também não me alonguei mais nos animais de estimação, nem em certo tipo de fanatismo, porque não vale a pena ferir susceptibilidades.
Estiveste bem, muito bem :)

Ana C. disse...

Mitá bem vinda! Agora fiquei parva com essa do tamboril. A sério, ainda estou a pensar se acredito, ou não. Mas é claro que acredito. E fico chocada.

HannaH Sophia disse...

eu adoro caes. dou-lhes tudo o k posso, mas nada de exageros, pk me lembro de que ha mta gente k nem o k comer tem, por isso dou-lhe o essencial e dou-lhes mimo. para mim valem mais k muitos seres humanos - as crianças nao estao incluidas!! elas nao tem culpa!

admito que muita gente prefere ter caes e trata-los melhor do k a qualquer pessoa, melhor do k a uma criança k precisa de quem cuide dela...e isso nao se admite. spas para caes? comidas gourmet???
é gozzar com os pobres, é stupido e é insensivel. perdoe-me quem o faz, ma nao aceito...

JS disse...

Tens toda a razão Ana, ou se tem esse espirito ou não. Eu trabalho numa escola e temos lá alguns casos de adpção, mas são pessoas extraordinárias que acho até mais cuidadosas que certas mães biológicas. Agora devolver uma criança??? É das coisas mais violentas que já ouvi.Por causa do cão?...Sem comentários.

Maria disse...

Ana! Muito, mas muito prazer em conhece-la!!!Ainda que através do seu blog! Desde sexta que não faço outra coisa senão ler o que aqui escreve! Não me lembro como vim aqui parar...estava eu numa das mtas viagens online que faço quando estou a trabalhar e de repente A VONTADE DE REGRESSO. O nome chamou-me a atenção...li o último post e...não consegui parar mais!!! Entretanto começei a espreitar outros blogs e quando dei por mim (isto na sexta) já eram 06h30. Esta coisa dos blogs parece viciante...principalmente aqueles que além de bem escritos transmitem entre muitas outras coisas um sentimento que não consigo explicar bem,mas que é algo do género, "oh...ela/ele também sente isto...também passou por isto..." não sei se me fiz entender. (Por muito que gostasse, definitivamente, não tenho o dom da escrita como muitos de voces!) Mas "lê-la" a si tem sido muito bom! As suas histórias têm-me feito rir, emocionar, têm-me simplesmente entretido, entre outras coisas...Obrigada por nos deixar espreitar!

E agora, só para terminar, gostava de partilhar algo consigo sobre este post. Trabalho num lar de crianças que por alguma razão foram retiradas à família. Neste momento estou a fazer noites (por isso as muitas viagens online:) mas já estive a trabalhar durante o dia. Temos de facto alguns casos de crianças que regressaram e...deixe-me dizer-lhe que o que sinto é que é quase desumano...simplesmente não se faz...
Tenho 24 anos, sou nova...e custa-me perceber como por vezes as pessoas adultas conseguem tantas vezes... não o ser.

Um abraço,

Maria

Pedro Barata disse...

Olha, Ana, sem comentários... :(

Tasha disse...

Criancas de si já muito traumatizadas e com defice de amor e carinho. Como é possivel??? Pensando friamente, ainda bem que estas almas as podem devolver a procedencia.... Se nao o podessem fazer que lhes fariam???? E se podessem ter filhos??? Afinal a natureza é fantástica... Priva esta gente de poder ter os seus próprios filhos para que nao os possa tratar como lixo!!! Criancas nao sao descartáveis e a maternidade (biológica ou nao) é maravilhosa. Quando conheci o meu marido, ele era casado e nao tinha filhos. Sempre me disse que era por opcao. Que a mulher dele queria, mas ele nao. Agora e o melhor amigo, o melhor pai, a melhor pessoa para o meu filho... Que nao é dele... O amor de uma crianca é mágico

Ana C. disse...

Hannah, apesar de todo o respeito que nutro pelos animais, sei que não são pessoas. Mas há quem já não os distinga e isso é que me faz muita aflição...

Ana C. disse...

JS o espírito de adopção não é mesmo para qualquer pessoa. Eu admiro imenso os casais que se entregam a crianças com passados por vezes tão conturbados e lhes oferecem uma oportunidade de crescerem dentro de uma família cheios de amor...

Ana C. disse...

Maria já ganhei o dia com as tuas palavras. O meu ego está prestes a rebentar. Muito obrigada!
Tens um trabalho muito louvável e melhor do que ninguém deves ver de perto as desilusões no olhar das crianças.

Ana C. disse...

Pedro realmente uma pessoa fica com a voz desaparecida.

Ana C. disse...

Tasha antes de mais, bem reaparecida!!!!
Depois acho que estas almas não deviam sequer colocar a hipótese de adopção. Se têm tantas alineas e restrições a colocar, não têm espírito. Depois não quero imaginar o que sente uma criança que vê uma luz ao fundo do túnel, só para depois ser devolvida outra vez. Primeiro foi abandonada pelos pais, depois pelos casais que queriam ficar com ela...

Rainha Mãe disse...

Concordo em absoluto com tudo o que escreveste. Infelizmente á pessoas que nunca crescem e talvez vejam as crianças como brinquedos. Será isso?

Ana C. disse...

Rainha Mãe acho que vêm as crianças como um capricho sim. Deixa-me lá tentar a ver se resulta. Olha não gostei desta, vou trocar por outra. Mas o que é que é isto???? Fico com o coração partido...

Banita disse...

É, de facto, heart breaking, Ana...
É de uma falta de humanismo, compaixão, amor, isto é, é uma falta de tudo o que significa ser humano!
Deve ser desolador, para as crianças, sentirem-se abandonadas pela 2ª vez na vida delas...
Porque não escrever uma história dessas nas blognovelas ou noutro lado qualquer? Tu, melhor que ninguém que eu conheço tens a sensibilidade para o fazer. Espero que este post não ofenda ninguém, mas penso que seria uma boa história para mostrar a sociedade o quão mal faz às crianças serem tratadas como um objecto. Fica a ideia...

Ana C. disse...

banita abandonados duas vezes na melhor das hipóteses. Porque há crianças que pulam de lar em lar e são rejeitadas em todos...
É uma boa ideia fazer uma história pelo olhar de uma criança.

Maria disse...

Olá novamente!!

Ana, disseste que vejo as desilusões nos olhos das crianças...É verdade. Vejo e sinto. E esta desilusão vai transformado-se em revolta...é uma dor que não desejo a ninguém.A dor da rejeição...e quando se trata de crianças...nem sei o que dizer...
Viver num lar, apesar de terem pessoas que tentam dar o seu melhor todos os dias, que tentam tornar os dias o mais normal possivel, que tentam dar-lhes o amor que quem de direito não soube ou não quis dar, para que pelo menos ali sintam que têm alguém em quem podem confiar, não é de todo o lugar de uma criança. Por várias razões que não vou enumerar aqui pois teria escrita para três dias, mas principalmente porque não têm o mais importante. Uma família que os ame.
Quanto às adopções...tb não me vou estender pois seria escrita também para mais três dias, digo apenas que, a meu ver, adoptar é uma decisão que tem que vir do fundo do coração...é uma decisão tão altruísta...tão nobre...que definitivamente não é para todos (infelizmente). Não pode nunca ser uma decisão para satisfazer as nossas faltas...amar uma criança é fácil...difícil é amá-la quando ela não é como nós gostariamos que fosse. E este é para mim o grande desafio da adopção...Assim como os pais vêem nos seus filhos biológicos "os seus rostos" também o têm que ver num filho do coração.

Ana C. disse...

Maria adorei as tuas palavras. Não teria escrito melhor aquilo que sinto. Obrigada por elas.

Eumesma disse...

O ser humano não está á beira da falência, o ser humano já faliu mesmo!! Porque repara, quando o ser humano se descarta de um filho (e não é dele, e por não ter nascido dele é menos filho!!! Nãoooo!!) depois "de um periodo experimental" por causa de não se dar bem com o cão, bem só podem mesmo acabar a falar com os cães e ainda tem vantagens, porque o cão nunca, nunca se livará deles como eles se livraram de um ser hamano tal como eles..tal como eles não, desprotegido, sozinho na vida!

Oc animais "adoptam" as pessoas na verdadeira acepçã da palavra, os humanos descartam-se por todas as maneiras de tudo e todos, animais e pessoas!

Ai Jesus, estes temas deixam-me assim a modos que fora de mim, tal é revolta que sinto...mas este mundo nunca vai melhorar???

Ana C. disse...

Eumesma eu também fiquei como tu quando li a notícia. É de ir aos arames!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!