quinta-feira, 23 de abril de 2009

O Príncipe Encantado


Ontem entrei numa livraria com a minha filha e fomos à secção infantil. Ela pegou num livro qualquer com princesas na capa e perguntou-me: Mãe este é giro?
Olhei o título do livro, incrédula e li-o duas vezes só para ter a certeza de que era mesmo um livro infantil e não um romance escaldante da Corin Tellado:
"Vou Casar Com o Meu Príncipe Amado". Não filha, ainda és muito pequena para este. Vamos ali ver os livros do Saramago que sempre são mais para a tua idade.
E assim se começa desde o berço a lavagem cerebral no sentido do príncipe encantado. Como é difícil criar uma filha longe dos cavaleiros andantes que aparecem para amar a sua donzela e são felizes para sempre, numa perfeição sem limites. Como é difícil não construir expectativas irreais no meio de tanta lavagem cerebral infanto-juvenil-adulta.
Se ao menos as histórias continuassem depois do Felizes Para Sempre. Elas veriam o príncipe desmazelado em casa, a dar arrotos depois do almoço, a coçar o umbigo, a deixar a roupa suja espalhada, mas não elas terminam bem ali, antes deles irem viver juntos.
Mas quando pensávamos que não podia piorar, eis que surge a verdadeira praga da lavagem cerebral (da qual confesso eu própria fui vítima): Toda a categoria de filmes no sentido de promover o príncipe. As conversas, as primeiras noites sempre fantásticas, cheias de gritos, arranhões e prazer desmedido.
As expectativas são tão, mas tão elevadas que só podem dar lugar ao divórcio, ou à infelicidade conjugal, ao exigir sempre do parceiro que seja como o Richard Gere e que nos veja como a Julia Roberts que de prostituta passou a mulher de sonho.
Alguém tem que dizer às nossas jovens que a primeira vez nunca é de gritos, é mais como um par de sapatos novos que na primeira caminhada nos lixam os pés todos, mas à medida que se vão fazendo ao pé, já não queremos outra coisa.
Alguém diz às nossas jovens que nenhum homem adivinha os mais íntimos desejos de uma mulher. Que muitas vezes temos que lhes dizer o que queremos com um cartaz à porta de casa, mas que isso não tem que ser uma coisa má.
Alguém diz às nossas jovens que não há homens perfeitos e que entre um tipo que nos oferece flores todos os dias com um sorriso colgate e um tipo íntegro que nos saiba ouvir e respeitar, o segundo é bem mais valioso que o primeiro.
E depois há uma coisa que sempre me fez uma certa espécie: Porque raio é que não há livros em que as princesas vão salvar os homens em apuros? Isto sim estaria bem mais próximo da realidade :)

26 comentários:

Brisa disse...

"Porque raio é que não há livros em que as princesas vão salvar os homens em apuros? "
Isso é que era! Ao menos ficavam preparadas para a realidade e começavam logo a pensar em como dar a volta por cima ao diacho dos príncipes! Mas depois vêm aqueles anúncios da Triumph eem que belas mulheres posam, vestidas com lingerie sexy, ao lado de tábuas de engomar e tanques de loiça suja e estragam tudo!

Clementine Tangerina disse...

Realmente, fazes tu bem que isto de andar a "enganar" as crianças desde pequenas nao pode ser!

socasmoinhosebicicletas disse...

Seria preciso todo um trabalho de fundo para se conseguir mudar uma mentalidade tendenciosamente machista que, de há muito, conta com o próprio aval da facção feminina. Como não me parece que isso seja possível para já, nem pelo menos a médio prazo, a postura de mães como tu é urgente e de fundamental importância nas gerações vindouras.

Ana C. disse...

Brisa dar a volta por cima aos príncipes é a lição número 1 do livro do amor.
Nem me fales nessa campanha que me dá arrepios. E o pior é que tenho um pressentimento de que é uma mulher o cérebro dessa magia publicitária...

Ana C. disse...

Clementine, também não lhe quero cortar as asas. Ela tem que saber sonhar um bocadinho. Mas com a dose certa de realismo à mistura :)

Ana C. disse...

Socas agora fiquei a sentir o peso da responsabilidade. Até estou a tremer...

Ceres disse...

Olá Ana C.,
Em primeiro lugar, muitos parabéns por um espaço muito simpático, divertido e interessante:-) Gostei bastante de o visitar, e se permites voltarei!

Eu ainda não tenho filhos (apenas um peludo de quatro patas, lol), mas tenho 3 sobrinhas e acho que é muito importante desmistificar o príncipe encantado, no seu cavalo branco, que nos leva para o seu castelo onde vivemos felizes para sempre... mas sem destruir a magia de uma história de amor, claro está..
Não é uma tarefa fácil, por isso tiro o meu chapéu às mães desta nova geração :-))

E não podemos esquecer os meninos... Pois que esses não deverão esperar uma "bela adormecida", sem vontade ou opiniões próprias, subserviente, e sempre disposta a tudo para agradar... (também tenho 2 sobrinhos!)

Ana C. disse...

Ceres muito bem vinda! As portas do meu estabelecimento estão sempre abertas para novos visitantes :)
Quanto aos meninos é um outro departamento sobre o qual já escrevi antes sob o título meninos da mamã. Os meninos da mamã portugueses estão a dar cabo das gerações vindouras de homens...

JBrito disse...

Quer livros onde, "as princesas vão salvar os homens em apuros?"

Escreva-os!?

Ok?
Ok.
Obrigado e boa tarde.

Ana C. disse...

JBrito acabaste de me dar uma grande ideia. Vou rivalizar com os irmãos Grimm e escrever histórias ao contrário.
Fizeste uma pergunta a mim e respondeste tu, ou fizeste uma pergunta a ti próprio?
De qualquer das maneiras eu respondo-te:
Ok

JBrito disse...

O que quero disser é que existem muitas coisas que estão mal e etc e coiso, mas não fazemos nada para as resolver.

Não queria entrar aqui na parte machista ou até feminista da questão, mas vou entrar á bruta no tema, ou seja em teoria e na história é o homem vai sempre á guerra é o herói local e pardais ao ninho, mas regressa sempre a uma casa, e encontrará a sopeira/Mulher que trata dos “crianços”, alimenta-os e lava-os e cuida dos animais e bléba, certo?
Certo. (volto a auto-responder)
Dois heróis homem porque acontece e a Mulher porque cuida do mesmo, mas quem sobressai?
Com isto ainda acontece e sabemos que existem muitas Mulheres, que se auto- intitulam-se “mais” nestes temas e quando confrontadas respondem; Somos vitimas dos homens, vivemos num mundo deles, e lavagens cerebrais para sermos eternamente sopeiras á procura do “Príncipe Encantado” e, porque eles são mais fortes, e porque são milhares de anos sob o domínio dos mesmos, e, e, e, afins.

Contra o principio básico e mais que provado que a Mulher é muito mais inteligente que o homem.

Mas então, como ficamos?

Fazemos a nossa parte lá no nosso Castelo, porque tenho uma super Mulher, que me instrui e aceita ser instruída.

Mas é boa ideia escrever ao contrário as histórias do irmãos... força.

p.s. Desculpe a confusão desta construção de texto mas poderia rever o mesmo se tivesse mais tempo, mas não tenho e não vou perder mais.
Melhores cumprimentos

Ana C. disse...

JBrito muito interessante a tua divagação acerca do tema. Mas escapou-te a raíz do meu texto. Sem pretensões feministas, apenas digo que os homens não têm que ser príncipes para nos fazerem felizes. A maioria dos homens que andam por aí são pessoas normais, sem romantismos exacerbados, nem flores e quecas de cinco em cinco minutos.
As histórias elevam muito as expectativas femininas a um nível quase perigoso. Até ao ponto da mulher nunca se satisfazer com "menos" do que um príncipe. Entendes?
A ideia da história da mulher que salva o homem é só para termos uma literatura infantil um bocadinho mais equilibrada. Porque a história, pelo menos aqui em casa (ah ah) também é feita de grandes mulheres.
And That's All Folks

JBrito disse...

Olha que não… indirectamente está relacionada.
Nota: Nem elas (as petizes) conseguem ser todas as principescas dos livros, mas anyway, era bom, era, e não falo de cor e sem querer, ter uma de 5 em 5 minutos…
Boa, escreves (e como escreves!?) o livro, eu faço as ilustrações, boas?
Now its definitly all, dudes!?

Banita disse...

Entendo-te claramente, Ana!
Há mesmo a necessidade de lhes "darmos para trás" aos filhos e filhas, para que saibam que o homem não é sempre romântico, que a 1ª vez, não é fantástica (eu que o diga) e que ele depois de vir da guerra (onde deu, mas também levou), não tem à sua espera uma mulher que o bajule, senão apenas e tão só uma que o ame, ao ponto de lhe tratar das feridas, mas também lhe pisar os calos, quando ele merece! Digo eu que sou uma romântica incurável, mas como já sou uma mulher feita, estou bem acompanhada e já não me preocupo em evitar desiluções amorosas. Já as nossas petizes, é certo e sabido que é preciso "dar-lhes na cabeça", mas só daqui a 10 anos com mais força, agora só mostrar que existem a princesa e o príncepe, mas que nenhum dos dois é perfeito!!
Também não se pode, Ana, tirar-lhes toda a noção de romantismo, senão saem-nos umas perfeitas cabras que mastigam homens ao pequeno-almoço!

Melissinha disse...

Por essa e por outras é que eu adoro o Shrek.

Ana C. disse...

Banita subscrevo tudo o que disseste. E tu já deves saber que jamais me passaria pela cabeça transformar a minha filha numa mulher fria. Eu sou uma granda romântica, mas também tenho noção da realidade ;) É o que eu digo. Sonhar com um pé na terra e outro levantado.

Ana C. disse...

Melissa ora aí está!!! Como é que não me lembrei do Shreck???? Um princípe que peida e arrota e feio como tudo? Lindooooooo!!!!

Melissinha disse...

Melhor que isso é o Prince Charming obcecado pelo cabelo!

Izzie disse...

Oh Ana... como eu gosto do que escreves. E, tu sabes bem isso, eu vivo uma idade em que me faz bem, muito bem, ler verdades destas. a vida é mesmo assim. não há perfeições. todas nós a procuramos e, como tu dizes, se calhar não só por culpa nossa mas também pela fantasia que nos espetam em frente aos olhos... vamos aprendendo, à medida que os anos passam, que a perfeição vem depois de todas as coisas menos boas serem enfrentadas e aceites. aprendemos que ninguém nos conhece se não nos dermos a conhecer. que nonguém nos advinha se não ajudarmos na descoberta. vamos aprendendo, às vezes com mágoa,desilusão e desânimo, que não existem príncipes nem cavalo branco e muito menos um castelo. mas a vida é mesmo assim e não quer dizer que não seja bela! Mas é realmente preciso que estas fantasias absorventes se transformem na realidade não tão perfeita mas também não menos bonita. é apenas a vida.

Izzie disse...

esqueci me de confessar... :) esta semana vi "a pequena sereia" e "a bela e o monstro". ok ok!
Eu sei!! Teve muita piada quando cá cheguei e li este teu post:)

Ana C. disse...

Izzie adorei o teu comentário, a sério que sim. Dava um post ;)

Joanissima disse...

Eu, confesso, que muitas vezes altero as historias e invento um bocadinho (o pior é da vez seguinte, que conto de maneira diferente, sem as palavras exactas e ela acusa logo o toque...).
Há coisas que são de um machismo inacreditavel e que deviam ser banidas. Mesmo as historias sem principe (tipo capuchinho e afins) são estupidas que doi... A minha filha teve pesadelos com o lobo que comia a avó.

Pudera....

Ana C. disse...

A Alice já não me deixa contar-lhe a história do Capuchinho e dos 3 porquinhos, diz que tem medo do lobo mau.
Mas depois de eu lhe dizer que aquilo era tudo uma tremenda invenção, que não passava de uma história mentirosa. Ela ficou mais aliviada :)
Agora lobos a comerem avozinhas, isso não se faz. Se bem que a avozinha disse-me que gostava de se sentir na pele de uma loba e ser comida todas as noites. Ah Ah

JBrito disse...

Digo eu sei lá, que não estão a defender em demasiado os petizes???
Porque existem lobos maus, existem avozinhas comidas pelos os mesmos, existem porcos a construir (e a vender) casas de palha, existem princesas que sonham com príncipes, existem príncipes á procura de madrastas más, existem espelhos que falam, existem princesas presas nas torres, a todas estas existências posso dar exemplos do mundo real.
Pergunta; Porquê disfarçar e disser que não existe esta realidade, que vêm tão bem “mascarada” nas fantasias dos livrinhos de encantar??
(Que tão bem é bem retratada nos estúdios Walt Disney)
Nem só de histórias do Rucas e Noddy’s anda este mundo.
Mas lá está, aqui vêm uma outra verdade, não existe uma pediatria correcta.
Essa é que é essa.
Será bom disser no infantário a um menino/a que se porta mal; para ir pensar, ou para ir para o castigo?
Fica aqui a coisa derivada da questão.
Aquele Abreijo Jorgebrunabrito.blogspot.com

Ana C. disse...

JBrito voltasteis???
Eu não escondo que há lobos maus, pessoas más, pessoas boas, loiras, morenas, com acne, pretas, amarelas, brancas. Mas não tenho a culpa que ela tenha medo do animal. Ainda é pequena para entender metáforas. Para ela é apenas um cão peludo que manda casas pelo ar e come avozinhas. Não posso dizer-lhe que há um animal desses à solta na realidade. Ela tem que aprender a distinguir ficção e realidade. Se não a ensinasse a separar, não dormia de noite à espera de um obo que mandasse a nossa casa pelo ar. Apenas isso ;)

JBrito disse...

Estou a "falar" no contexto geral dos teus comentários, mas anyway... uma verdade ainda tenho muuuuito que aprender com a minha chiquilim...